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Foco 02/07/2021

Consumo de álcool aumenta na pandemia, revelam pesquisas; hábito piora a ansiedade e a qualidade do sono

Estudos revelam que muitos estão procurando no fundo do copo soluções para os problemas, o que é preocupante

Há quem, literalmente, esteja bebendo para esquecer. De fato, os problemas não sou poucos nem pequenos – e seria ótimo poder apagá-los do dia a dia e da memória. A pandemia da covid-19 já se arrasta há cerca de um ano e meio e traz consigo perdas, inseguranças e solidão. Assim, afogar as mágoas em um copo e relaxar por alguns instantes têm sido uma alternativa encontrada por muitos, segundo pesquisas recentes.

Um estudo da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), realizado em parceria com as universidades Federal de Minas Gerais e Estadual de Campinas, no período de 24 de abril a 8 de maio de 2020, revelou que 18% dos entrevistados estão ingerindo mais bebidas alcoólicas nesse período do que costumavam.

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O maior aumento, de 26%, foi registrado na faixa etária de 30 anos a 39 anos de idade, e o menor entre idosos, de 11%. Além disso, quanto maior a frequência dos sentimentos de tristeza e depressão, maior o aumento do uso de bebidas alcoólicas, atingindo 24% das pessoas que têm se sentido dessa forma, indicou a pesquisa.

Um outro levantamento, desta vez da OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde), levou em conta a realidade de 33 países da América Latina e Caribe e apontou que, no Brasil, 42% dos entrevistados relataram alto consumo de álcool durante a pandemia. Os dados foram coletados entre maio e junho do ano passado.

Mais uma vez, os jovens adultos tiveram destaque no estudo. Trinta e cinco por cento dos entrevistados com idades entre 30 e 39 anos relataram aumento na frequência do comportamento chamado de BPE (beber pesado episódico), ou seja, o consumo de 60 g ou mais de álcool puro. A presença de quadros graves de ansiedade aumentou em nada menos do que 73% a chance de maior frequência no consumo.

“As taxas de depressão, ansiedade e estresse tiveram uma alta em torno de 35% a 40% na pandemia. Para lidar com essa carga, muitas pessoas acabam recorrendo ao álcool e às drogas, o que é preocupante”, afirma o psiquiatra Dartiu Xavier, coordenador do Serviço de Álcool e Drogas da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Xavier explica que, inicialmente, a sensação é de que o álcool ameniza a ansiedade. Uma armadilha, pois a bebida – um estimulante – não é remédio e pode, inclusive piorar o quadro. “Passado o efeito, a ansiedade volta ainda maior. É comum que alguns bebam para dormir, por exemplo, pois aparentemente o corpo fica mole, relaxado. Porém a qualidade do sono fica muito ruim, e não é raro o surgimento de insônia.”

Reflexos na saúde

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O especialista explica que a ingestão de bebidas alcoólicas em excesso pode causar dependência, gastrite, problemas no fígado e até neurológicos. “Ele estimula ainda o comportamento violento. Tende-se a pensar que as drogas são as grandes vilãs quando se trata de violência doméstica, mas não são. O álcool é o grande gatilho.”

Xavier observa que o consumo excessivo já refletiu nos consultórios. “A maior queixa dos pacientes é que eles estão bebendo mais e não estão conseguindo se controlar. A percepção de que algo está errado existe.”

O médico lembra ainda que, no caso de uma possível contaminação pela covid-19, o álcool pode atrapalhar – e muito. “A ingestão exagerada altera o sistema imunológico, a imunidade cai e o organismo fica mais vulnerável”, elenca.

Mas afinal, o que é beber demais? O psiquiatra explica que, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), tomar cinco doses no período de sete dias, de 10 ml de álcool, é uma prática considerada de baixo risco, o que equivaleria a cinco caipirinhas por semana, por exemplo.

Buscando ajuda

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“É preciso deixar claro que o que motiva o aumento da quantidade de ingestão de bebidas alcoólicas é o fato de não se sentir bem. Nesse caso, é preciso procurar apoio e tratamento”, reforça Xavier.

E isso é exatamente o que muitos já estão fazendo. Dados do AA (Alcoólicos Anônimos) do Brasil mostram que, de maio de 2020 a maio deste ano, a busca por ajuda triplicou no período pelos canais digitais e telefônicos. A organização recebe cerca de cem pedidos diariamente em seu site oficial.

Chama a atenção o maior número de mulheres presentes nas reuniões virtuais diárias pelo site oficial: houve alta de 5% para 41% em relação ao total de participantes, em nível nacional.

“Ficar em casa sem ter tanto contato com amigos e familiares, sem ir ao trabalho e sem saber quando tudo isso vai passar gera ansiedade, solidão, falta de perspectiva e medo, sentimentos que viram gatilhos para o aumento do consumo de bebidas alcoólicas e, por consequência, de mais pessoas pedindo ajuda”, explica um dos coordenadores do grupo, cuja identidade não pode ser revelada por conta do anonimato que rege a organização.

Quer saber se seu consumo de álcool saiu do controle? Responda as perguntas abaixo, elaboradas pelo AA:

1-Já tentou parar de beber por uma semana (ou mais), sem conseguir atingir seu objetivo? 

2-Ressente-se com os conselhos dos outros que tentam fazê-lo parar de beber?  

3-Já tentou controlar sua tendência de beber demais, trocando uma bebida alcoólica por outra?

4-Tomou algum trago pela manhã nos últimos doze meses?   

5-Inveja as pessoas que podem beber sem criar problemas?   

6-Seu problema de bebida vem se tornando cada vez mais sério nos últimos doze meses?  

7-A bebida já criou problemas no seu lar?   

8-Nas reuniões sociais onde as bebidas são limitadas, você tenta conseguir doses extras?  

9-Apesar de prova em contrário, você continua afirmando que bebe quando quer e para quando quer?  

10-Faltou ao serviço, durante os últimos doze meses, por causa da bebida?   

11-Já experimentou alguma vez ‘apagamento’ durante uma bebedeira?  

12-Já pensou alguma vez que poderia aproveitar muito mais a vida se não bebesse?   

Respondendo mais de quatro perguntas com “sim”, a pessoa já pode se considerar alcoólatra, segundo o coordenador do AA.

Olhar cuidadoso para si

Mesmo sem o diagnóstico de alcoolismo, é importante olhar para dentro de si e entender quais incômodos estão presentes e buscar práticas de autocuidado, como aconselha Xavier.

“Intensifique atividades que você gosta de fazer. Pode ser um curso online, um esporte ou qualquer outra atividade. O importante é procurar algo que seja realmente significativo”, finaliza.