Esporte

Delegação de refugiados na Olimpíada: heróis em qualquer lugar

Tóquio-2020. Delegação de refugiados conta com 35 atletas de diversas nacionalidades. Apesar de recente, time já tem a medalha de ouro no quesito superação


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Forçados a deixar suas casas para trás, eles nadam, correm, levantam peso e compartilham com o mundo inteiro não só o talento esportivo, mas também aquilo que pode ser ainda mais precioso, que são suas histórias de superação. De ao menos dez nacionalidades diferentes, 29 pessoas carregam em si o emblema que marca suas participações na Olimpíada de Tóquio 2020: a delegação de refugiados.

A participação em Tóquio, no entanto, acontece depois de uma estreia histórica e emocionante na Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. De lá para cá, o time cresceu e participa de 12 modalidades. Ao todo, o COI (Comitê Olímpico Internacional) oferece suporte e apoio a mais de 55 atletas em situação de refúgio reconhecidos pelo ACNUR (agência das Nações Unidas para refúgio), mas destes, 35 foram selecionados por um sistema de classificação por desempenho. Além dos 29 atletas olímpicos, o time conta com seis esportistas paralímpicos.

A advogada Priscila Caneparo, professora de direito internacional e direitos humanos da UniCuritiba, explica que a segunda participação da delegação de refugiados vai muito além da competição esportiva.

“A participação de atletas refugiados nas Olimpíadas e Paraolimpíadas é de extrema representatividade para aqueles que foram forçados a deixar seus países devido a guerras, violações de direitos humanos e perseguições. A equipe dos refugiados reverbera em uma busca de reconstrução, de oportunidade de terem uma vida melhor com mais dignidade, sendo que, segundo o próprio ACNUR, é um marco também para a consolidação de dois Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, quais sejam, o Objetivo 3 (saúde e bem-estar) e o Objetivo 10 (redução das desigualdades)”, contou a professora.

Até o final de 2020, o ACNUR conta que mais de 82,4 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas por questões de perseguição, conflito, violência, violação de direitos humanos ou eventos que perturbam seriamente a ordem pública. Entre elas, estão cerca de 26,4 milhões de refugiados, e quase metade deles tem menos de 18 anos.

Quem são os refugiados?

Segundo o ACNUR (braço das Nações Unidas para pessoas em situação de refúgio), qualquer pessoa que deixou sua terra natal por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas pode receber o status de refugiado

No Brasil, a lei brasileira de refúgio nº 9474/1997 segue a Convenção de 1951, que inaugurou o Estatuto dos Refugiados e a Declaração de Cartagena de 1984, que ampliou as definições anteriormente previstas em 1951

Qual a diferença entre refugiados e apátridas?

O ACNUR e o Estatuto dos Apátridas definem que “toda a pessoa que não seja considerada por qualquer Estado, segundo a sua legislação, como seu nacional” é apátrida. Ou seja, uma pessoa apátrida não tem nacionalidade de nenhum país. Isso pode acontecer por diversas razões, incluindo a discriminação contra determinados grupos étnicos ou religiosos, ou com base no gênero. Os refugiados possuem nacionalidade, mas foi preciso deixar seu país.

82,4 milhões
de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas por questões de perseguição, conflito, violência, violação de direitos humanos ou eventos que perturbam seriamente a ordem pública

26,4 milhões
de pessoas se encontram em situação de refúgio no mundo

Muito além de atletas

Conheça os membros da delegação e os caminhos que os levaram até aqui

Yusra Mardini, 23 anos, nadadora

Hoje moradora de Berlim, na Alemanha, Yusra deixou a Síria em 2015 em virtude dos impactos da Guerra no país natal. Ela embarcou em um bote rumo à Europa com outras 18 pessoas, mas durante o trecho, o motor falhou. Para garantir a sobrevivência de sua família e outras pessoas do barco, Yusra nadou durante três horas no mar aberto e impediu que a embarcação afundasse.

«O vento soprava forte e nosso barco se chocava contra as ondas. A luz estava indo embora. Sara e eu éramos nadadoras experientes, mas outros no barco não. Nos revezamos na água para deixar o barco mais leve, ajudando-o a enfrentar as ondas, a fim de evitar que ele afundasse. Pedimos ajuda, mas ninguém veio (…) Todos nós estávamos igualmente com medo. Mas todos estávamos igualmente desesperados para escapar da violência que deixávamos para trás.”

Farid Walizadeh, lutador, 24 anos

No Afeganistão, ainda bebê, Farid perdeu o pai e ainda no primeiro ano de vida, foi abandonado pela mãe. Em uma entrevista ao jornal português Visão, contou que ficou com uma mãe adotiva até os 7 anos, quando ela morreu vítima de tuberculose. Logo depois, foi vendido por um “tio” a uma rede de tráfico humano e foi obrigado a ir caminhando do Afeganistão a Turquia com outras 200 pessoas. Passando pelo Paquistão e Irã com fome, frio e dificuldades de avançar a pé pelas montanhas, o grupo foi reduzindo e Farid era a única criança. Ao chegar à Turquia, foi detido com 2kgs de cocaína. “Pensei que era açúcar”, contou Farid ao jornal português.

«Vi pessoas serem mortas e gente a desistir de viver, atirando-se de penhascos, nas montanhas. Eu não. Eu, miúdo, ia sempre à frente, sempre a andar para chegar a um destino. O meu destino (…) Quero receber uma medalha. É por isso que luto todos os dias.”

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