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Medo de retomar vida social mesmo após vacinação é comum; especialistas ensinam como vencer a barreira com responsabilidade

Depois de um longo período de isolamento, há quem sinta dificuldade em voltar a encontrar amigos e familiares; apoio pode fazer toda a diferença

A relações públicas Beatriz Castro, de 26 anos, já tomou as duas doses da vacina contra a covid-19, mas não se sente preparada para encontrar parentes e amigos como costumava fazer antes de março de 2020. «Ainda não consegui ‘virar a chavinha’ na minha cabeça. Ficamos tanto tempo isolados que agora tenho receio. Adquiri traumas e manias», diz.

Após um longo período de saudade, ela se permitiu voltar a ver os avós e uma tia, mas mediante uma série de protocolos. «Vou sempre de máscara, não abraço e faço distanciamento. Se alguém me oferece algo para comer é um desespero. Tiro a máscara por segundos e já a coloco de volta correndo.»

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Ao longo de toda a pandemia, Beatriz viu apenas uma amiga, também com todos os cuidados possíveis. A opção mais confortável para ela ainda é a chamada de vídeo.

Para a RP, hoje é inimaginável ir um restaurante, apesar da liberação do governo. «Fico com medo de que aconteça algo comigo ou com as pessoas. Sei, porém, que esta é uma preocupação muito mais minha do que dos outros», afirma.

O receio de Beatriz impacta o próprio corpo. «Se preciso ver alguém, fico com uma série de neuras em seguida: começo a tossir, sinto coriza e já penso que estou doente.»

Ela conta que imaginava que quando a vacina finalmente chegasse fosse se sentir bem diferente, mais segura – o que não aconteceu. Contudo, sabe que precisa começar a flexibilizar sua quarentena, uma vez que logo deve voltar ao trabalho presencial de vez. «Já estou preparando a minha mente e tentando absorver a energia das pessoas que estão mais tranquilas, o que não quer dizer que vá abrir mão dos cuidados, afinal a pandemia não acabou. O vírus está aí e deve ficar para sempre.»

A também relações públicas Thaís Cardoso, de 26 anos, compartilha dos mesmos medos que a amiga Beatriz. As duas têm se apoiado neste momento em que sentem que boa parte dos colegas já está em uma outra fase. «A maioria está na rua, encontrando amigos. Do meu círculo social, apenas duas pessoas estão como eu. No meio do isolamento, me sinto isolada. Parece que há uma pressão social para que se deixe de cumprir as normas», diz.

Thaís também já completou a imunização, mas segue sem ver seus entes queridos. Recentemente encontrou uma única amiga em um parque, por considerar um local mais seguro. Eventualmente vai a uma ou outra loja de rua, mas por pura necessidade. Shoppings ainda estão fora de cogitação.

A jovem conta que já esteve em situações que abalaram bastante seu emocional. Uma delas foi a ida justamente a uma loja na companhia do pai e da mãe, onde um coquetel era servido. «As pessoas bebiam e comiam enquanto escolhiam móveis, e aquilo foi aterrorizante para mim. Só conseguia pensar que havia colocado meus pais em perigo e me senti culpada por dias», lembra Thaís, que pré-pandemia levava uma vida social ativa, de saídas constantes e viagens quase todos os fins de semana.

Para ela, a vacinação dá um certo alento, porém não é o único fator a ser considerado. «Acho que só vou conseguir me permitir quando realmente notar índices expressivos na melhora das hospitalizações e no números de mortos. Me refiro a taxas expressivas de verdade. Não quero comparar as atuais a novembro do ano passado, e sim a fevereiro de 2020. O problema é que não sinto que temos políticas que colaborem com esse cenário», aponta.

Pós-graduanda em Direitos Humanos, a jovem tem um olhar crítico quanto à condução da pandemia por parte das autoridades. «Nossas medidas restritivas não foram efetivas e sinto que a sociedade ainda não está preparada para uma volta total», avalia. «Entendo a necessidade de o comércio reabrir para que as pessoas voltem ao trabalho, mas não concordo com a forma como as restrições deixaram de existir. Penso que governadores e prefeitos deveriam ter fornecido condições para que as pessoas ficassem em casa no máximo possível», completa.

Na visão da RP, além da grande parcela de responsabilidade dos políticos, é preciso considerar também o descaso por parte da população, que despreza o uso de máscara, vai a festas sem o menor cuidado e tem contato com diversas pessoas ao mesmo tempo. «No fundo, falta empatia. Existem aqueles que não se importam em impactar a vida do outro em prol apenas de sua própria diversão, de um prazer momentâneo.»

Com a palavra, a psicóloga

A situação enfrentada pela amigas é bem comum e já recebeu até nome: atrofia social. Trata-se, basicamente, da dificuldade em reconstruir uma rotina fora de casa após longo período de isolamento social. Terapias e ferramentas de autoconhecimento podem ajudar – e já são parte, inclusive, da vida de Beatriz e Thaís.

Para a vice-presidente do Conselho Federal de Psicologia, Anna Carolina Lo Bianco, criar rótulos não ajuda. O que resolve, sim, é apoio.

«Quem está com muito medo deve ser incentivado. É preciso que as pessoas ao redor mostrem o lado rico do contato com o outro, sempre com os devidos cuidados, claro. A retomada é difícil, mas temos que ter coragem e encorajar quem ainda não a tem», afirma a especialista.

Anna explica que a vida social é de extrema importância e que sua ausência trará, a longo prazo, um prejuízo enorme. «A vida presencial é uma vida muito mais rica e criativa.»

A psicóloga reforça que sentir medo é normal, uma vez que todos, sem exceção, de alguma forma tiveram experimentaram o sofrimento durante a pandemia. O que não se deve, na opinião de Anna, é deixar-se abater por esse sentimento. «A gente tem que respeitar quem está com dificuldade para voltar à rotina anterior – e isso vale para as empresas, que devem agir com flexibilidade. Mas o que a gente não pode é incentivá-la», alerta.

Encontrar grupos em que os indivíduos se encaixem é muito importante nesse processo. «Amigos que compartilham da mesma consciência vão respeitar o uso de máscara ou mesmo a negativa a um convite quando algo em um evento específico não deixar a pessoa confortável», acredita.

O que já pode e o que ainda não pode, segundo a medicina

A infectologista Raquel Stucchi, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, explica que quem já tomou as duas doses da vacina contra a covid-19 e quer aos poucos retomar a vida social deve sempre usar máscara facial, mesmo em ambientes abertos e entre pessoas imunizadas. Só está permitido tirá-la no momento de colocar a comida ou a bebida na boca. «Se for permanecer em um ambiente com muita gente e fechado por mais de 15 minutos, a recomendação é usar máscara com maior poder de filtração, como a PFF2 ou a N95», completa.

Higienizar sempre as mãos e, na medida do possível, manter o distanciamento também são regras que não caíram.

Abraços, infelizmente, ainda não estão liberados mesmo entre os vacinados, ainda mais tendo em vista a circulação da variante Delta. É importante ter em mente que todos estão sujeitos à contaminação, mesmo que de forma branda. Além disso, pessoas imunizadas podem infectar quem não está protegido.

Raquel esclarece que o conceito de aglomeração contempla três ou quatro pessoas de fora de um núcleo de convívio diário, o que já exige máscara, distanciamento e higiene frequente das mãos.

Testes rápidos também são interessantes e recomendados antes de reuniões com parentes e amigos. «O objetivo, contudo, é impedir que alguém que esteja com covid e não saiba frequente o local. Deve ficar claro que o exame não serve para liberar o uso de máscaras. Uma pessoa pode ter um teste negativo hoje e positivar amanhã», alerta a médica.

Ainda de acordo com a especialista, um lugar seguro para frequentar é aquele mais próximo de um ambiente aberto, com ventilação natural e onde se conte com capacidade reduzida do número de pessoas.

Raquel diz que a medicina entende o prejuízo emocional trazido por todas as restrições de circulação, falta de abraço e impossibilidade de ver o rosto de alguém querido. Contudo, este não é o momento de relaxar. «Sofre-se ainda mais cada vez que é preciso internar ou intubar alguém ou ainda comunicar a família sobre um falecimento. Os tempos foram muito difíceis, e não queremos que eles voltem. Por isso, precisamos ter cuidado», finaliza.

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