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Enfermeira Mônica Calazans, 54 anos, recebe a primeira dose da CoronaVac / Paulo Guereta/Photo Premium/FolhapressEnfermeira Mônica Calazans, 54 anos, recebe a primeira dose da CoronaVac / Paulo Guereta/Photo Premium/Folhapress
Foco 27/03/2021

Duas vezes mais brancos do que negros são vacinados contra a Covid-19 no Brasil

Levantamento divulgado pela Agência Pública revela que racismo estrutural interfere até mesmo na imunização

Até o momento, brancos foram mais vacinados contra a Covid-19 no Brasil do que negros, revela levantamento divulgado pela Agência Pública. O comparativo, divulgado neste mês, levou em conta 8,5 milhões de pessoas que receberam a primeira dose dos imunizantes.

Atualmente há cerca de duas pessoas brancas para cada pessoa negra vacinada. Segundo o estudo, no Brasil há 3,2 milhões de indivíduos que se declararam brancos e que receberam a primeira dose da vacina. Já entre pessoas negras, esse número cai para pouco mais de 1,7 milhão.

O levantamento veio à público no último dia 15. Até aquela data, 3,66% da população branca havia sido imunizada contra 1,48% da parcela negra.

Para Olinda do Carmo Luiz, membro do GT Racismo e Saúde da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) e professora da faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), o principal fator que explica essa disparidade é o racismo estrutural.

“A elaboração e a implantação das políticas sociais, as práticas institucionais e a herança histórica e cultural atuam de forma simultânea e articulada para favorecer um grupo racial – os brancos – em prejuízo constante de outros – os negros e indígenas. Esta dinâmica excludente pode ser observada nos indicadores sociais e de saúde”, afirma.

Olinda atenta para o fato de que no Brasil os negros ganham menos, sofrem mais com o desemprego, têm menor escolaridade e com muita frequência vivem em condições habitacionais insalubres e distantes dos centros urbanos.

“Embora inaceitável, é esperado que toda a estrutura para a vacinação reflita a histórica exclusão da população negra”, diz.

A professora afirma ainda que adotar como critério exclusivo de vacinação a idade mais avançada constitui um exemplo de como o racismo estrutural reforça e reproduz a desigualdade racial.

“Na medida em que a população negra tem maior prevalência de doenças e morre mais e mais cedo, sua expectativa de vida é menor. Isso significa que nossos idosos são proporcionalmente mais brancos que o restante da população. Parece lógico vacinar as pessoas mais idosas por seu maior risco de morte quando infectadas pela Covid 19. No entanto, boa parcela dos idosos é composta por aqueles com condições que os levaram a maior longevidade: melhor renda, melhor educação e maior acesso aos serviços de saúde. Estes idosos são proporcionalmente mais brancos”, explica Olinda.

Mortalidade também é maior entre negros

Negro
Freepik/Divulgação

A disparidade na hora da vacinação alcança um cenário ainda mais grave: a maior parte dos casos e das mortes por Covid-19 ocorrem em negros. Mais de 89 mil pessoas negras morreram no Brasil pela doença desde o início da pandemia, de um total de 260 mil casos confirmados. O número de mortes entre negros é cerca de 10% a mais que entre brancos.

Os dados também apontam que a quantidade de pessoas que morreram em relação a quem tinha a doença foi maior entre negros que entre brancos: 92 óbitos a cada 100 mil habitantes em negros, para 88 em brancos.

“A população negra está exposta ao desemprego, às ocupações precárias, à baixa renda e à pouca escolaridade. Com isso, as pessoas negras não conseguem ficar em isolamento e precisam se expor mais a situações de risco”, afirma a especialista. “Entre tantos males, o racismo estrutural acarreta também a maior prevalência na população negra de hipertensão arterial, diabetes, insuficiência renal, entre tantas outras comorbidades, que agravam a doença”, completa.

Desafios impostos pela desigualdade

O levantamento feito pela Agência Pública chama a atenção para uma série de desafios, a começar pela necessidade de mais dados sobre a temática.

De acordo com Lorena Barberia, professora do Departamento de Ciência Política da USP, coordenadora científica da Rede de Pesquisa Solidária em Políticas Públicas e Sociedade e membro do Observatório Covid-19 BR, ainda há informações incompletas em todos os Estados sobre raça e cor dos indivíduos vacinados, conforme revela nota conjunta divulgada pela Open Knowledge Brasil em parceria com várias instituições da sociedade civil.

“O levantamento da Agência Pública reforça nossa chamada para maior transparência e maior esforço na coleta de dados sobre raça e cor dos indivíduos sendo vacinados”, aponta Lorena. Segundo ela, em posse de mais materiais do tipo será possível pensar em formas de garantir maior equidade na cobertura vacinal.

Para a professora, outro desafio importante é entender a fundo os planos de imunização nacional e locais.

“Precisamos estar muito preocupados e avaliar se as prioridades nestes planos de dar cobertura prioritária a determinados grupos vulneráveis estão sendo cumpridas. Um exemplo é a cobertura vacinal das comunidades quilombolas”, atenta.

Por fim, Lorena diz considerar importante debates sobre a falta de prioridades para trabalhadores terceirizados de hospitais, do setor de limpeza e segurança, por exemplo.

“Estes grupos não foram considerados na primeira etapa da vacinação em algumas regiões do País e são pessoas extremadamente expostas e por isso deveriam subir na prioridade da fila”, afirma a professora.