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Agora chega, não te faz!

rubem-penzHá uma expressão tão econômica quanto exata – regionalista? – para denunciar um camarada que ousa criar versões maquiadas do passado: não te faz. No caso, “se fazer” engloba muitas nuances. Pode ir de convenientes lapsos, passar por propositais inversões e chegar ao ponto das mentiras deslavadas. Para uma plateia novata, tudo soa como fato, ainda mais quando se capricha no enredo. Maleáveis como barro úmido, esculpimos nossos feitos na tentativa de influenciar a imagem do presente com razoável sucesso. Simples, desde que não haja no grupo um daqueles velhos companheiros de aventuras e desventuras. Aí, a coisa tende a mudar.

Uma cena: no centro das atenções, alguém relata verdadeira epopeia, rica em detalhes sórdidos quando, do nada, um riso impaciente sobressai na assistência. Uma risada falsa como nota de R$ 3. Cheia de segundas e terceiras intenções. A ela, segue o alerta: meu velho, não te faz! Pode ter acontecido de o “velho” em questão ter ultrapassado o limite do bom senso, da lógica, da decência. Foi longe demais. Sinal de alerta: ou ele se redime, contemporizando, ou corre o risco de ser desacreditado. Se o “amigo” contar o que sabe – e o protagonista sabe que ele sabe –, as máscaras caem. Para o bom entendedor, meio desmentido bastará.

Nem mesmo as melhores bênçãos escapam da fatídica lei da adaga e seus dois gumes. É o caso de ter muitos, antigos e próximos amigos, por exemplo. Ao passarmos momentos inesquecíveis por eles acompanhados, compartilhamos vivências e findamos por estabelecer íntima cumplicidade. Então, no severo tribunal do porvir, tanto seremos absolvidos quanto condenados por quem testemunhou nossa história. A eles, especialmente, não deveríamos ousar a ilusão. Ainda assim, vira e mexe, tentamos.

Pensava sobre isso sábado, voltando para casa depois de um ensaio do quarteto jazzístico que há décadas migrou para o patamar de família não consanguínea. Num papo, com essa mesma risada irônica, todos se ameaçaram: cada um tem dos outros um paiol de informações. Ali ninguém pode “se fazer” no mole, sob pena de quebrar o armistício. Depois, mesmo sem eu desejar, veio à memória a imagem dos corredores de Brasília. No staff de representantes, quase nenhum está em primeiro mandato. Logo, são velhos companheiros. Na medida em que ganham protagonismo televisivo, olho seus jogos e dou risada. A data do meu Título de Eleitor já carrega pouca paciência com tanto cinismo. Se voto fosse por escrito, escreveria: agora chega, não te faz!

Rubem Penz é escritor, músico, publicitário, baterista e compositor. Autor de “Enquanto Tempo” e coordenador da oficina literária Santa Sede crônicas de botequim. Seu site é rubempenz.net

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