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‘Omitia ser mãe para ser contratada’; especialistas analisam sexismo em processos seletivos e ensinam como agir

Mercado de trabalho ainda discrimina mulheres; empresas podem ser penalizadas por lei, mas é preciso reunir provas

Mulheres ainda sofrem discriminação no mercado de trabalho

“Em todos os processos seletivos que participei na vida me perguntavam se eu tinha filhos. Era quase como querer saber meu nome”, diz a bacharel em Comunicação Social Amanda (nome fictício). Hoje aos 32 anos e mãe de dois meninos - um de 12 e outro de 4 anos -, ela conta que por diversas vezes conseguiu perceber a expressão do entrevistador mudar quando respondeu sobre sua família.

Cansada de receber diversos “nãos” no início da carreira, Amanda adotou o que chama de “mecanismo de defesa”. “Passei a omitir que era mãe até que, finalmente, fui contratada. Identifiquei que meu filho era visto como um empecilho e, para não perder oportunidades, fingia que ele não existia”, conta.

A estratégia, porém, não funcionou por muito tempo. Certa vez, a criança precisou passar por uma cirurgia e não teve jeito: Amanda precisou contar a verdade para sua supervisora. “Ela me questionou o por que não havia contado sobre o meu filho antes e eu expliquei que tinha medo. Fui mandada embora 15 dias depois, sob a justificativa de que minha área estava passando por cortes.”

Anos depois, já em outra empresa, Amanda vivenciou mais uma experiência ruim. “Eu e minha coordenadora ficamos grávidas na mesma época, eu do meu segundo filho. Quando fomos contar a novidade para a dona da agência, ela ‘virou uma onça’ e disse que não iria contratar mulheres nunca mais”, lembra.

Na empresa em que trabalha hoje, todos sabem que a comunicadora é mãe de duas crianças. Antes de ingressar no atual emprego, atuou um tempo como freelancer, o que deu a ela mais autonomia. Foi nesse período que se descobriu na carreira e, ao mesmo tempo, recuperou o orgulho da maternidade. “Não quero mais que meus filhos sejam um ‘problema’, e antes era exatamente assim que eu os via em termos profissionais.”

As situações enfrentadas por Amanda, infelizmente, são bem comuns. Ainda hoje, em pleno 2022, muitas empresas optam por contratar mulheres sem filhos ou mesmo homens. A prerrogativa implícita é que a maternidade faz da mulher uma funcionária menos comprometida - o que não passa de sexismo, ou seja, pura discriminação baseada em gênero.

A desigualdade de gênero no mercado de trabalho é retratada em um levantamento divulgado em março de 2021 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que aponta que 54,5% das mulheres com 15 anos ou mais integravam a força de trabalho no País em 2019. Entre os homens, esse percentual foi 73,7%.

“Apesar de o mercado de trabalho estar evoluindo cada vez mais, infelizmente ainda temos casos de empresas que perguntam a mulheres em processos seletivos sobre filhos e até mesmo descartam boas candidatas por isso. Essa prática viola princípios de inclusão e ética profissional”, afirma Patricia Suzuki, CHRO do site de empregos Catho. “As questões que avaliam a aderência do candidato com a cultura organizacional devem ser aplicadas a todos os avaliados. Escolher um grupo de candidatos específicos, nesse caso mulheres, para fazer certas perguntas pessoais pode ser percebido como discriminatório quando não aplicado para outros grupos”, completa.

Cammila Yochabell, CEO da Jobecam, plataforma de recrutamento e seleção, afirma que perguntar sobre filhos é uma conduta machista. “Nesse caso, o fato de ser mulher já é um fator de diferenciação e possivelmente exclusão por parte do recrutador. Ou seja, ele acaba subtraindo as habilidades e os aspectos técnicos da profissional e deixa em primeiro plano a condição da mulher como uma característica eliminatória”, explica.

Como as empresas deveriam se portar

A conduta ideal de todas as corporações, segundo Patricia, seria avaliar a candidata da perspectiva de aderência cultural e conhecimento técnico. “Vale colocar para a quem está concorrendo à vaga se tem algo pessoal que gostaria de compartilhar, quando genuinamente houver interesse em conhecer um pouco mais sobre a potencial colega de trabalho”, diz.

Admitir que o sexismo existe e buscar ferramentas para eliminá-lo é, segundo Cammila, a saída. “Deve-se buscar a capacitação da equipe recrutadora e, claro, evitar ao máximo perguntas com esse teor. Uma ferramenta que ajuda nesse processo é o currículo oculto e entrevista às cegas. Em ambas as situações o recrutador não identifica o gênero da pessoa”, afirma a CEO da plataforma, que atua, justamente, com processos seletivos inclusivo.

“Tudo começa com os valores que a empresa possui e que vão além da fase de recrutamento. Se uma empresa vive e preza pela equidade, o processo seletivo seguirá os mesmos princípios. Empresas que buscam prosperar por muitos anos já entenderam que uma cultura forte é a base de tudo para atrair e reter as pessoas certas”, avalia Flavia Queiroz, head de vendas da Matchbox, HRtech especializada em soluções de employer branding. “Se a empresa ainda não está nesse ponto a dica é: revise valores, estabeleça processos e ofereça treinamentos constantes para todos os que participam de processo seletivos, sobre o que são vieses inconscientes e como se desprender deles. É importante que o acesso às oportunidades sejam ‘iguais’”, orienta.

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Mulheres podem adotar determinadas condutas diante de perguntas desconfortáveis

A CHRO da Catho diz que as candidatas podem, sim, se recusar a responder perguntas que as deixem desconfortáveis ou ainda perguntar sobre a relação da questão com os requisitos para a vaga em questão. “Se negar a responder alguma pergunta do processo seletivo é uma opção em casos extremos em que possa haver algum traço de assédio. Nesse caso, é recomendado que além de não responder as perguntas a candidata desista do processo seletivo, afinal se na entrevista a empresa já tem condutas inaceitáveis não deve ser o local em que ela queira trabalhar.”

Já na visão da head da Matchbox, se negar a responder uma pergunta exige cautela, uma vez que a atitude poderia gerar uma interpretação errada sobre a personalidade da candidata. “A vida de quem concorre à vaga não pode ser um mistério para a empresa, assim como a cultura da empresa não pode ser um mistério para o candidato. Só assim a empresa e o gestor poderão se preparar para a realidade que terão no dia a dia da área. As perguntas devem ser respondidas naturalmente, com tranquilidade e segurança e, na sequência, se deve questionar como é a cultura da empresa”, aconselha.

“Quando participamos de uma entrevista de emprego, muitas vezes nos sentimos vulneráveis, afinal queremos a oportunidade de trabalho e precisamos nos vender para o contratante. Mas não precisamos aceitar todas as questões que são feitas”, aponta, por sua vez, a CEO da Jobecam. “É muito importante termos em mente que o respeito precisa prevalecer e, da mesma forma que o candidato necessita da oportunidade de trabalho, a empresa necessita de um profissional qualificado para trabalhar. É uma troca. Portanto, ao se deparar com questões preconceituosas, sugiro não entrar em embate com o entrevistador, mas sim sugerir que a pergunta está desconfortável por se tratar de algo que não trará benefícios nas entregas do dia a dia.”

Alternativas no Judiciário

Ivandick Cruzelles Rodrigues, professor de Direito do Trabalho e da Seguridade Social da Universidade Presbiteriana Mackenzie, alerta que as empresas podem ser penalizadas judicialmente se fizerem distinção entre homens e mulheres em suas entrevista de emprego. “A decisão de contratar ou não alguém deve ser tomada com base nas características da vaga e do candidato estritamente. Qualquer outro tipo de condição que se questione fora dessas habilidades técnicas e comportamentais constituem pratica discriminatória”, esclarece.

O especialista cita a lei número 9.029, de 1995. Logo no artigo 1º se estabelece que “é proibida a adoção de qualquer prática discriminatória e limitativa para efeito de acesso à relação de trabalho, ou de sua manutenção, por motivo de sexo, origem, raça, cor, estado civil, situação familiar, deficiência, reabilitação profissional, idade, entre outros, ressalvadas, nesse caso, as hipóteses de proteção à criança e ao adolescente previstas no inciso XXXIII do art. 7o da Constituição Federal”.

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“Se a empresa deixa de contratar alguém por essas razões, ela pode sofrer ação indenizatória, assim como se demitir pelas mesmas condições. Nesse caso, o trabalhador pode pedir a sua reintegração ou eventual indenização por dispensa discriminatória junto à Justiça do trabalho”, aponta Rodrigues.

O gestor que eventualmente mandar o funcionário embora ou impedir sua contratação tendo em vista critérios discriminatórios pode, inclusive, ser preso. Isso porque o artigo 2º estabelece crime nessas circunstâncias. A detenção pode variar de um a dois ano, ressalta o professor.

É preciso, contudo, reunir provas, o que é a parte mais complicada do processo, uma vez que a discriminação precisa ser manifestada de alguma forma. Hoje o Poder Judiciário aceita prints de WhatsApp, conversas em outros meios digitais e gravações, desde que não produzidas por terceiros. “Então se a pessoa foi chamada para a entrevista, gravá-la e em algum momento o entrevistador disser que ela não será contratada por uma questão de sexo ou raça, por exemplo, esse elemento pode ser usado como prova. Porém dificilmente alguém vai para uma entrevista de emprego achando que algo assim vai acontecer.”

Luz no fim do túnel

Patricia, da Catho, afirma que as empresas estão se conscientizando mais sobre questões importantes, mas ainda há um caminho longo a ser percorrido tanto para colaboradoras mães quanto mulheres no geral. “É importante que as empresas tenham um posicionamento para promover a inclusão, construindo um mercado de trabalho mais unificado, menos sexista e com oportunidades e salários iguais para todos”, defende.

Para Flavia, da Matchbox, o mercado tende a passar por muitas mudanças e adaptações. Hoje já está mais flexível em relação a horários, a diferentes realidades de vida e mais empático do que tempos atrás. “O papel da mulher tanto na família quanto no mercado de trabalho precisa ser ressignificado, assim como o do homem nesse mesmo contexto. Para que o sexismo deixe de ser pauta, precisamos construir empresas que entendam sua responsabilidade social na busca pela equilíbrio entre equidade, igualdade e justiça”, conclui.

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