Guedes prevê novo auxílio, mas com cortes no orçamento

Pandemia. Ministro diz que ajuda emergencial será necessária se imunização for lenta e mortes não baixarem. Bolsonaro apoia compra de doses por empresas, mas laboratório descarta venda

Por Metro com Estadão Conteúdo

O governo federal acredita que a vacinação contra a covid-19 vai dar confiança para que a economia “não deixe de funcionar”. As palavras são do presidente Jair Bolsonaro, em fala ontem para o setor financeiro.

Mas caso a imunização tenha ritmo lento e as mortes pelo vírus continuem em alta, o ministro da Economia, Paulo Guedes, informou que sua equipe tem plano para retomada de pagamentos de auxílio emergencial. Para isso,  porém, teria de adotar novamente o “orçamento de guerra”, com cortes severos em vários setores do governo, incluindo funcionalismo público e reajustes indexados. Bolsonaro e Guedes participaram ontem de live promovida pelo banco Credit Suisse.

“Estado de guerra é não ter reajuste para o funcionalismo por dois anos, [ter] pisos bloqueados, acabou essa coisa de subir automaticamente”, disse Guedes, sem especificar a quais mínimos se referia. Na PEC (Proposta de Emenda Constitucional) do Pacto Federativo, o governo já chegou a propor a desvinculação de pisos de gastos em saúde e educação. “Tem que fazer o 3D [desindexação, desvinculação, desobrigação]”, acrescentou.

O ministro ponderou que, apesar da possibilidade de retomar as ajudas, é preciso haver contrapartida para equilibrar as contas, uma vez que o país já elevou drasticamente sua dívida no ano passado para bancar as despesas de combate à pandemia. Na projeção do ministro, a dívida terminou 2020 em 90% do PIB (Produto Interno Bruto).

“A classe política tem que assumir responsabilidade pelo orçamento. Se ela apertar botão vermelho da emergência, não é pegar dinheiro e sair correndo. Tem que pagar o custo da guerra [adotando medidas]”, afirmou. O governo federal pagou no ano passado, entre abril e dezembro, auxílio mensal nos valores de R$ 600 e R$ 300 para 68 milhões de trabalhadores informais de baixa renda.

Apesar da fala do ministro, Bolsonaro reforçou o compromisso do governo com os gastos públicos. “Não vamos deixar que medidas temporárias relacionadas com a crise se tornem compromissos permanentes de despesas. Nosso objetivo é passar da recuperação baseada no apoio ao consumo para um crescimento sustentado pelo dinamismo do setor privado.”

Adotando tom diferente de declarações em que questionou a eficácia da vacina e disse que não tomaria as doses, o presidente destacou a importância da imunização para a economia. “Brevemente estaremos entre os primeiros lugares [de países que mais vacinam] para dar mais conforto à população, segurança a todos e de modo que a nossa economia não deixe de funcionar.”

Bolsonaro disse também que apoia o desejo do setor privado de comprar 33 milhões de doses da vacina da AstraZeneca. Metade delas seria aplicada de forma gratuita em trabalhadores das corporações e a outra parte seria doada ao SUS (Sistema Único de Saúde).

Mas o laboratório disse ontem não ter condições de atender as empresas. “No momento, todas as doses da vacina estão disponíveis por meio de acordos firmados com governos e organizações multilaterais ao redor do mundo, incluindo o Covax Facility [consórcio coordenado pela Organização Mundial da Saúde], não sendo possível disponibilizar vacinas para o mercado privado.” A AstraZeneca é pressionada por países europeus após atraso na entrega de doses.

Benefício fez inadimplência cair

Estudo elaborado pela empresa de análise de crédito Boa Vista afirma que o auxílio emergencial contribuiu diretamente na queda de pagamentos com datas de vencimento atrasadas em mais de 15 dias no segundo semestre de 2020.

Em abril do ano passado, os atrasos chegaram a 25,8% para beneficiários do auxílio. Em outubro, essa parcela caiu para 18,3%. Entre aqueles que não receberam o benefício, o valor caiu de 17,7% para 15,6%.

“Com o consumo desacelerado, por conta das medidas de isolamento e restrições ao comércio, e a renda de parte das famílias auxiliada pelo benefício, o segundo semestre de 2020 teve queda nos atrasos de pagamentos entre os beneficiados pelo auxílio”, disse o responsável pelo levantamento, Flavio Calife.

Ele defende que o cenário “pode voltar a mudar em 2021 com o fim do benefício”.

O estudo conclui também que o auxílio colaborou no pagamento de dívidas bancárias, o que teria sido responsável pela recuperação do crédito.

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