Estilo de Vida

Ex-morador de rua formado em direito ganha teto, coordena biblioteca em Porto Alegre e sonha em voltar a advogar

Enquanto organiza os novos exemplares da biblioteca, o idoso com nome de escritor e olhar de poeta narra uma história digna dos grandes romances que o cercam.

Repleta de reviravoltas, amores, decepções, triunfos e fracassos, a vida de Jorge Amado Ribeiro Soares, 64 anos, é daquelas que dariam um livro.

Formado em direito e inscrito na OAB/SP (Ordem dos Advogados do Brasil, seccional de São Paulo) sob o número 84.739, ele viveu nas ruas de Porto Alegre por seis anos – entre 2007 e 2013. A situação mudou após o Metro Jornal contar sua história, numa reportagem veiculada há cinco anos, em abril de 2012. Atualmente, Jorge Amado tem um teto, coordena um acervo de livros e alimenta o sonho de voltar a advogar.

“Quero trabalhar na área social. Ajudar, principalmente, quem está vivendo nas ruas. Aqueles que não veem seus direitos básicos sendo respeitados”, ressalta o advogado, graduado em uma das mais importantes faculdades privadas de São Paulo, a Mackenzie, em 1985.

O homem de aparência simples e vocabulário rebuscado trilhou um caminho de sucesso profissional desde cedo. Morando na capital paulista, trabalhou como projetista industrial em multinacionais exploradoras de petróleo entre 1976 e 1989. Em 1990, sua estabilidade financeira começou a ruir. A causa foi o início da Guerra do Golfo. “A empresa em que eu trabalhava na época tinha muitos negócios no Iraque, que ficaram estagnados por causa do conflito. Vários funcionários foram demitidos, inclusive eu. Foi o início da queda”, conta.

A queda, a rua e o lar
Nos anos seguintes, teve diversos empregos, inclusive como advogado – porém, nenhum duradouro. Veio a separação da mulher, com quem teve uma filha, hoje com 24 anos. Em 1995, se viu obrigado a trocar São Paulo por Viamão, para cuidar da mãe, que estava com câncer.

Em solo gaúcho, não conseguiu bons empregos. Após a morte da mãe, se viu obrigado de novo a deixar a casa onde os dois viviam. Então, novamente, veio o desemprego, mas desta vez Jorge Amado já tinha mais de 40 anos. Sem renda, não pôde mais pagar aluguel, nem voltar para São Paulo. Depois, passou a morar de favor na casa de amigos. Por fim, perdeu aquilo que deveria ser um direito básico de todo cidadão: o teto. “No dia 18 de agosto de 2007, eu fiquei na rua”, relata Jorge Amado.

Atualmente, Porto Alegre conta com 17 moradores de rua que têm ensino superior completo. Desses, cinco também têm pós-graduação. Os números fazem parte de um estudo realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em parceria com a Fasc (Fundação de Assistência Social e Cidadania). Nos últimos cinco anos, o número de pessoas vivendo nas ruas da capital aumentou 69,6%. Em nove anos, o crescimento foi de 75,2%.

“O caso do Jorge Amado é a prova de que a ida para a rua não é necessariamente questão de miséria. Traumas familiares ou de ordem afetiva também podem afetar drasticamente a condição social de um indivíduo”, explica a pedagoga e técnica social Patrícia Mônaco, do Serviço de Abordagem Social da Fasc.

Felizmente, esta triste realidade já faz parte do passado de Jorge Amado. “Na época, a reportagem do Metro repercutiu bastante. Eu dormia no Albergue Municipal há cinco anos. Quando não tinha vaga, ficava na rua. Mas pouco depois da matéria, consegui uma vaga no Abrigo Madalene, onde fiquei por mais de dois anos. Em 2015 vim para cá e minha qualidade de vida mudou drasticamente”, conta.

O advogado está vivendo na Casa Lar para Idosos, um abrigo administrado pela Fasc e pelo Centro de Educação Profissional São João Calábria. Localizado em um vasto terreno no bairro Vila Nova, na zona sul da capital, o lugar abriga atualmente 23 idosos, segundo sua assistente social, Larissa Teixeira.

Livros, yoga e meditação
Logo após acordar, às cinco da manhã, Jorge Amado medita por uma hora em seu quarto. Mais tarde, pratica yoga no pátio da Casa Lar. Durante o dia, visita bibliotecas de Porto Alegre em busca de livros para serem doados.

Leitor assíduo, foi dele a ideia de criar uma biblioteca no abrigo, para suprir sua necessidade de ler diariamente e para incentivar a leitura entre seus colegas. Hoje, a coleção de livros de Jorge Amado já conta com 1.725 exemplares.

A eclética seleção de livros reúne obras de alguns dos maiores escritores da história – de Stephen King a Fiódor Dostoiévski, passando por Moacyr Scliar e Charles Bukowski, entre outros.

No ano que vem, Jorge Amado completará 65 anos e poderá se aposentar. Com o dinheiro, sonha em financiar sua volta à advocacia, para lutar pelos direitos daqueles que sobrevivem sem um teto. Pessoas como os protagonistas do clássico “Capitães de Areia”, escrito pelo seu xará, Jorge Amado. Na obra, o escritor baiano humaniza um grupo de jovens que vive nas ruas de Salvador.

Resta torcer para que o Jorge Amado gaúcho consiga cumprir seu objetivo, para encerrar a obra de sua vida com um final feliz.

Tags

Últimas Notícias


Nós recomendamos