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Quadrinistas repaginam São Paulo e contam como imaginam uma cidade melhor

A cidade de São Paulo, que completa amanhã 463 anos, começou o ano com o novo prefeito, João Doria (PSDB), dando o pontapé inicial em sua administração vestido de gari. Com sua equipe, ele tem ido às ruas para arrumar calçadas e apagar pixações e grafites, ações de seu programa Operação Cidade Linda. De carona na data, e aproveitando o ambiente de mudanças, a reportagem do Metro Jornal foi perguntar para especialistas: Afinal, como fazer uma cidade melhor? A resposta veio rápido: antes de tudo, é preciso reduzir a desigualdade e melhorar a qualidade de vida. Sem isso, jamais chegaremos lá.

Mas garantir qualidade de vida para a população de uma metrópole com o tamanho e a complexidade de São Paulo não é uma tarefa simples. “A cidade é dividida em 32 prefeituras regionais (as antigas subprefeituras) e 96 distritos, sendo que em 36 deles não há acervo de livros disponível para adultos, em 60 não temos centros culturais, em 59 não existem museus e em 31 não há leitos hospitalares disponíveis”, observa o pesquisador Américo Sampaio, da rede Nossa São Paulo.

O tamanho da população também complica o cenário. Cada prefeitura regional tem em média mais de 350 mil moradores, isso representa uma proporção que é maior do que 99% das cidades brasileiras (o Brasil tem 5.571 municípios). Na opinião do pesquisador da Rede Nossa São Paulo, a gestão de São Paulo, não pode ser igual à gestão de outras cidades brasileiras. “Precisamos descentralizar e dar mais poder de decisão à população. É assim que acontece nas principais metrópoles do mundo.”

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Outro ponto importante no debate é a diversidade da população, aponta o advogado Henrique Frota, do Instituto Pólis. “Estamos tratando de uma amplitude de grupos e classes sociais, com muitas diferenças em relação às suas identidades, desejos e necessidades”. Para ele, a questão está em quais interesses a gestão da cidade irá valorizar e atender. “São Paulo hoje atende mais significativamente a apenas uma parcela dos seus moradores.”

‘Gestão deve ser local’, defende pesquisador

A região onde você vive, mora ou trabalha determina a qualidade do seu acesso à infraestrutura da cidade, serviços públicos e equipamentos básicos de saúde, educação e cultura. “Para a maioria dos paulistanos, a cidade reproduz a dinâmica da exclusão e fornece péssimas condições de vida”, afirma o pesquisador da Rede Nossa São Paulo, Américo Sampaio.

O que a sociedade pode fazer, segundo ele, é atuar politicamente nas regiões onde mora ou trabalha, se articulando em grupos para pressionar o poder público para que as diferentes regiões da cidade tenham um funcionamento digno dos equipamentos e serviços públicos.

“Isso pode ser feito cobrando a prefeitura e acompanhando o trabalho dos vereadores, reduzir a desigualdade é dever do legislativo”, afirma o especialista.

Na área da gestão municipal, Sampaio defende a descentralização da governança e das políticas públicas. “Nas principais cidades do mundo, como Londres, Paris, Tóquio ou Nova York, a gestão cotidiana dos serviços básicos, como saúde, educação, cultura, esporte, lazer e assistência social, acontecem localmente e não nas secretarias de governo.”

“O conhecimento que as pessoas têm de seu bairro devem ser usados na gestão”, concorda o vereador José Police Neto (PSD). A sociedade participa de debates, é preciso fazer parte das decisões.”  

Repaginando a metrópole

Neste aniversário de São Paulo, desenhe uma cidade mais linda. Para celebrar o aniversário de 463 anos a capital paulista, o Metro Jornal convidou quadrinistas para repaginar a metrópole e contar como imaginam a cidade melhor.

João Pinheiro – 35 anos, autor de diversas HQs, entre elas o ‘Carolina’ (editora Veneta)
“Sonho com uma cidade em que os direitos humanos sejam respeitados. Onde todos sejam vistos como cidadãos de fato e não como meros consumidores. Uma urbe que seja convidativa para todos, independentemente de classe social, raça ou religião. Com acesso irrestrito à música, poesia, literatura, cinema, esporte… Direito à moradia, mobilidade, saúde, educação, lazer e a tudo o que diz respeito à vida com dignidade. Só então poderemos debater em pé de igualdade e caminhar em direção a uma sociedade mais justa e sensível à realidade vivida em nosso país.”

João Pinheiro

Paulo Caruso – 67 anos, cartunista e chargista, autor da série ‘Avenida Brasil’, sobre a política brasileira

“São Paulo que é vista como uma cidade fria, cinzenta e desumana. Na verdade, é constantemente reflorestada e povoada de sentimentos acolhedores para os mais distintos públicos, venham de onde vierem, são muito mais acolhidos por aqui do que em qualquer outro lugar deste imenso país. O que pode torná-la melhor é justamente não deixarmos de equilibrar a proporção entre o verde e as construções, preservar seus parques e florestas e expandir para outros espaços que ao longo do tempo vão se degradando. Outra preocupação é com os moradores de rua, um exército de abandonados que nos angustia só em refletir sobre sua condição. O que podemos fazer para melhorar é humanizá-la cada vez mais.”

Pablo Caruso

Alexandre de Maio – 38, autor de Desterro, em parceria com o escritor Férrez
“São Paulo seria muito melhor se a arte de rua tivesse mais espaço e toda a cidade fosse colorida, e as pessoas só vão se sentir mais seguras quando a periferia tiver a mesma atenção e infraestrutura que o centro expandido.”

Alexandre de Maio

Mauricio de Sousa – 81 anos, criador da Turma da Mônica
“Que tal a cidade melhor começar por um parque bonito, bem cuidado, cheio de crianças alegres, felizes?”

Mauricio de Souza

Carolina Ito – 24 anos, autora do blog Salsicha em Conserva
“Para mim, cidade linda é cidade segura, onde a mulher pode andar pelas ruas sem medo e contar com o respaldo de instituições públicas, caso sofra algum tipo de violência. Infelizmente, andar pelo centro de São Paulo, sobretudo à noite, é uma tarefa que envolve muita insegurança e medo para as mulheres.”

Carolina Ito

Paulo Stocker – 51 anos, criador do personagem Clovis
“Para se ter uma cidade melhor teríamos que ter seres humanos melhores. Educação, saúde, alimentação, transporte, cultura e lazer são o mínimo necessário para se ter qualidade de vida. A mobilidade, a acessibilidade, lugares de convivência. A prevenção ao invés do remendo. A arte se colocando entre o cinza dominante.”

Paulo Stocker

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