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Os taxistas sabem

mario-sergio-duarteMuito frequentemente ando de táxi pela cidade. Com a crescente dificuldade para estacionar e o medo de andar de ônibus pela histórica insegurança dos transportes coletivos, onde a chance de ser assaltado é muito grande, racionalizo meus dilemas sobre desperdício e poupança no conhecimento que me propiciam os diálogos com os taxistas.  Não é um serviço que possamos dizê-lo barato, afinal.

Aprende-se muito numa viagem de táxi. Ou melhor, sabe-se muito. Eu atualizo minhas impressões sobre o sentimento de segurança da população pelo o que me dizem os motoristas de táxi. Levando passageiros para todos os cantos, é ouvindo suas histórias, observando e mesmo vivenciando as tragédias diárias do Rio, que eles se transformam na categoria profissional que melhor disputa com a polícia o conhecimento sobre as “temperaturas” da criminalidade.

Pode parecer estranho, mas sei mais da sensação das pessoas com a segurança hoje do que quando fui comandante-geral da PM. Naquela época, eu vivia mergulhado em estatísticas e informações da Inteligência. Isso me dava um panorama até muito realista sobre a criminalidade e seus reflexos. Mas, embora fosse fundamental para o planejamento, tínhamos limitações em saber dos efeitos no campo subjetivo do nosso trabalho. Ou seja: pouco conhecíamos do maior ou menor temor do crime nas pessoas.

A partir de setembro de 2011, quando deixei o comando da PM e os cartões de telefone das cooperativas passaram a enfeitar minha geladeira, disputando espaço com retratinhos de aniversariantes e contatos de farmácia, passei a saber que o transporte de usuários de drogas às bocas de fumo havia diminuído sensivelmente. Era fácil aos motoristas reconhecer um comprador de drogas. Com indisfarçável comportamento, sempre deixavam transparecer suas intenções já no anúncio do destino da corrida. Aqueles agora andavam escassos.

Fiquei sabendo, por exemplo, que levar ou buscar moradores nas favelas já não os inquietava, porque os traficantes não estavam tão ostensivos mesmo em favelas não pacificadas. Essa era uma preocupação que lhes atormentava nas corridas das madrugadas.

Conheci, também, que as vias expressas (Linhas Amarela e Vermelha, principalmente) já não eram seus bichos-papões, como foram em passado recente, com assaltos e arrastões.

Eu continuo me deslocando de táxi na maior parte das vezes, deixando o carro em casa. Ainda me rende bastante conhecimento sobre a segurança. As narrativas dos motoristas é que não têm sido tão tranquilizadoras. Eles voltaram a temer os arrastões, os tiroteios nas favelas e os assaltos, que tanto haviam escasseado.

Os criminosos botaram sua bandeira na praça outra vez. Os taxistas sabem disso isso. Eles transportam gente, conhecimento e notícia.

O coronel Mário Sérgio Duarte, autor do livro “Liberdade Para o Alemão – O Resgate de Canudos”, escreve às quartas-feiras no Metro Jornal do Rio de Janeiro.

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