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A guerra contra o vírus é intensa, com mais de 200 mil mortos em um ano. As armas são muito poucas. O medo de se contaminar é constante, e traz o distanciamento das pessoas amadas. Mas elas são guerreiras e prometem força até o fim pela profissão que amam.

O pelotão da saúde contra a covid-19 é marcado por rostos femininos. De acordo com levantamentos das redes pública e privada, cerca de 70% dos trabalhadores presentes nos leitos de pacientes com o vírus são mulheres. Só no sistema municipal de São Paulo são 61,5 mil profissionais femininas na luta direta pela vida dos infectados. A representatividade é grande principalmente por conta das enfermeiras e técnicas em enfermagem.

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A coordenadora da Câmara Técnica de Atenção à Saúde do Conselho Federal de Enfermagem, Viviane Camargo, conta que a presença delas é histórica na profissão, com 87% de prevalência feminina. “A mulher tem isso de cuidar, algo socialmente construído. Nós buscamos por muitos anos valorização e o fato de sermos mulheres interfere em não ser prioridade. A pandemia trouxe a importância da enfermagem de uma forma bastante grande. A gente espera que  tenha mais reconhecimento e que isso seja transformado em questões concretas, com salários mais dignos.”

Ela afirma que muitas profissionais precisam trabalhar em mais de um local para conseguir arcar com os custos de vida, o que aumenta o grau de riscos de contaminação pela covid-19. O salário médio das enfermeiras é de R$ 3.100 e as auxiliares recebem o mínimo, de R$ 1.100.

Outra questão preocupante é o psicológico durante a pandemia. “O relato que temos é de que muitas se revezam nas equipes para ter alguns minutos de choro durante o expediente”, afirma Camargo.

Dia a dia em uma UTI

Dia a dia em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) que recebe pacientes com covid-19

A enfermeira intensivista do Hospital Geral de Itapecerica da Serra, Sônia de Jesus Santana, 41 anos, conta que as sessões de pranto para descarregar a pressão são necessárias quando a tensão aperta. Além de conviverem com as mortes diárias pela covid-19, o que também aperta o coração das profissionais é o medo de se contaminar e infectar os familiares. “Consegui visitar meu pai apenas uma vez no ano e com um esquema especial. As pessoas sabem que estamos na linha de frente e têm medo. Na minha equipe, tem muita gente que precisou se afastar da família também.”

Ela é responsável sozinha pelos cuidados da filha de 4 anos. “Meu maior medo é de ser intubada e morrer antes de dizer que gostaria que minha filha fosse criada pelos meus pais. Fico pensando nela sozinha no mundo.”

Com o fechamento das escolas e creches, alguns poucos hospitais pensaram em esquemas para as profissionais com filhos, segundo o Conselho Federal de Enfermagem. O Sírio-Libanês, que dispõe de uma creche gratuita há mais de dez anos para todos os funcionários, montou estratégia especial.

A gerente médica do CCIH (Centro de Controle de Infecção Hospitalar) do Sírio-Libanês, Maura Salaroli de Oliveira, conta que o atendimento das cerca de 200 crianças entre quatro meses e quatro anos exigiu medidas extras de biossegurança.

“Consideramos esse serviço como essencial para permitir que as profissionais de saúde continuassem trabalhando”, conta a especialista ao dizer que testes de coronavírus são oferecidos às crianças sintomáticas.

A enfermeira Tatiana Herrerias diz que a filha, de 4 anos, frequenta a creche do hospital e sente a alta demanda do trabalho da mãe durante a pandemia. “Quando dou plantão aos finais de semana, é nítido o reflexo nela. O quanto ela sente a falta e percebe que eu não consigo dar atenção ou porque estou no trabalho ou estou cansada.”