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Pediatra defende volta das escolas pelo bem da infância

“Não podemos aceitar que o processo de reabertura das escolas ignore os danos que o isolamento social tem imposto às crianças”, diz a pediatra Talita Rizzini

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), autorizou ontem a reabertura das escolas públicas e privadas da capital a partir do dia 7 de outubro somente para atividades extracurriculares. A decisão quanto ao retorno das aulas regulares, porém, foi adiada para o dia 3 de novembro, e vai depender, segundo o prefeito, da realização de novos inquéritos sorológicos, que analisam o número crianças e adolescentes que testaram positivo para a covid-19.

A decisão não é consensual e tem contrariado muitos especialistas que defendem a reabertura das escolas para aulas regulares (e não apenas extracurriculares).  Talita Rizzini, coordenadora de pediatria do Hospital Leforte, em São Paulo, é uma delas. Ela questiona por que a escola continua fechada, se bares, restaurantes, praias, parques e outros ambientes, que permitem aglomeração, já estão autorizados a funcionar.

«Muitos dizem que não é seguro voltar às escolas, mas isso contraria a tendência mundial de reabertura segura, com implementação de protocolos de higiene e vigilância constante», afirma a médica. Para ela, voltar para a escola não deve ser uma obrigação, mas sim «uma opção que seja tomada com responsabilidade e com toda individualização que a situação merece».

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Para aqueles que planejam só levar os filhos à escola quando houver a vacina, ela avalia que a vacina não estará disponível em larga escala este ano. «E talvez não esteja nos próximos anos, porque por mais que exista um esforço global para o desenvolvimento de vacinas eficazes e seguras, a variável que determina essas características é o tempo – e esse ainda não conseguimos adiantar.»

Para a pediatra, adiar a reabertura das escolas prejudica as crianças de diferentes níveis de renda e condições sociais – daquelas em situação de vulnerabilidade econômica, que estão perdendo um período sensível de aprendizagem, à criança com deficiência, que além de ter suas terapias lentificadas ou mesmo paralisadas tem muito menos oportunidades de socialização e inclusão. «Há ainda as crianças que passam o dia em frente à TV ou tablet e têm apresentado distúrbios de humor, de apetite e de sono, porque os pais, sobrecarregados, não conseguem suprir as necessidades de atenção e afeto«, ressalta Talita.

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Este ano, o Estatuto da Infância e da Adolescência (ECA) completou 30 ano, e a pediatra avalia que falta muito para que o Estado e sociedade entendam e tenham internalizado a compreensão de que investir na infância é investir no futuro.

«Falo como pediatra, mãe e cidadã, em defesa da infância. Não podemos aceitar que o processo de reabertura não leve em conta as consequências que o isolamento social tem imposto aos indivíduos que correspondem a um quinto da população. O voto consciente nas eleições previstas para novembro pode mudar a realidade de muitas crianças. E sempre tenho esperança de um futuro melhor. Pelas crianças e para as crianças», conclui  Talita.

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