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Na ONU, Jair Bolsonaro exibe seu ‘Brasil diferente’

Contrariando a tese de diplomatas, Jair Bolsonaro (sem partido) não fez ontem às Nações Unidas um discurso moderado e voltou a direcionar suas falas para sua base política no Brasil, se preparando para a campanha eleitoral de 2022. Como tradição, o líder brasileiro é o primeiro a discursar na Assembleia Geral da ONU. Já nos primeiros momentos da fala que durou 13 minutos, Bolsonaro defendeu que apresentaria à Assembleia um “novo Brasil”. Para o presidente, antes de seu governo, o país estava “à beira do socialismo”.

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“Venho aqui mostrar o Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisão. O Brasil mudou e muito depois que assumimos o governo em janeiro de 2019”, disse Bolsonaro. “O Brasil tem um presidente que acredita em Deus, respeita a Constituição, valoriza a família e deve lealdade a seu povo”, afirmou aos líderes.

Além de dialogar com seus apoiadores, o presidente também aproveitou para “vender” o país, que nas suas palavras tem “tudo o que o investidor procura”. Bolsonaro disse que o Brasil “tem um dos melhores desempenhos entre os emergentes” e usou como exemplo de sucesso as privatizações feitas pelo governo em aeroportos. E preferiu ignorar as taxas recordes de desemprego. 

Já sobre o meio ambiente, Bolsonaro optou pela defesa do país como uma nação que preserva a Amazônia e afirmou que 14% do território brasileiro é composto por reservas indígenas. Estes povos, segundo o presidente, “cada vez mais desejam utilizar suas terras para agricultura”.

Apesar do discurso ter contrariado as expectativas da ala moderada do governo, o professor de economia e relações internacionais da Ibmec-SP, Alexandre Pires, avalia que a fala foi muito bem calculada.

“[O discurso] presta conta à comunidade internacional, principalmente na questão ambiental e agrícola ao tentar rebater as acusações de que o país não preserva. Ele pontuou a visão de mundo dele.” 

Visto como um negacionista no combate à pandemia de covid-19, Bolsonaro se defendeu ao dizer que quase 90% dos brasileiros receberam ao menos uma dose do imunizante, mas criticou a implementação do passe sanitário – medida adotada pela maioria dos líderes presentes – e voltou a defender o tratamento precoce, e não comprovado, contra o novo coronavírus.

Para o professor, a fala de Bolsonaro destoou do discurso das outras delegações. “Não só pela defesa de tratamentos alternativos contra a covid-19, mas também a reticência com a imunização.”

Checagem dos fatos

Presidente brasileiro fez afirmações falsas em discurso na ONU

“As manifestações de 7 de Setembro foram as maiores 

da história”

Falso. O Instituto Datafolha apurou que as manifestações de 2016, pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, levaram 500 mil pessoas às ruas. Já no 7 de Setembro, a SSP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo), estimou que 125 mil pessoas foram à avenida Paulista.

“O Brasil está há 2 anos e 8 meses sem nenhum caso concreto de corrupção”

Falso. Ao menos dois casos de corrupção envolvendo integrantes do Poder Executivo são investigados atualmente pela Polícia Federal. 

“As grandes queimadas são consequências inevitáveis da alta temperatura local, somada ao acúmulo de massa orgânica em decomposição”

Falso. Nesta declaração, o presidente omitiu a principal hipótese apontada pelas investigações: que os incêndios são criminosos.

Diário de viagem (e de polêmicas) da comitiva brasileira

Visita indesejada

Antes da Assembleia Geral, o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, disse sobre Bolsonaro, que não está imunizado contra a covid-19: “Se você não quer ser vacinado, nem venha”.

Peraí, Biden, vamos limpar aqui antes

Depois de Bolsonaro, o próximo a discursar foi o presidente dos EUA, Joe Biden. Como o líder brasileiro não está vacinado, a equipe de limpeza não só higienizou o púlpito como trocou o microfone.

Marcelo Queiroga, segundo infectado

O ministro da Saúde,  Marcelo Queiroga, testou positivo ontem para a covid-19, informaram fontes do governo. O médico é o segundo caso de coronavírus entre membros da comitiva brasileira durante a viagem aos EUA e ficará de quarentena no país. Mais cedo esta semana, ele foi alvo de polêmica  ao mostrar o dedo do meio para manifestantes que teceram críticas ao governo de Jair Bolsonaro.

Sabe aquele  gesto, com o dedo médio?

Integrante da comitiva, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, reagiu assim diante de manifestantes que gritaram ofensas sobre o governo brasileiro em Nova York.

Der Spiegel (Alemanha)

“Dezenas de chefes de estado vão à Nova York, incluindo o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, com a sua notória recusa à vacinação”

Mídia internacional

The New York Times (EUA)

“Não vacinado e desafiador, Bolsonaro se contrapõe às críticas em discurso na ONU”

The Washington Post (EUA)

“O líder não vacinado do Brasil parece quebrar o ‘sistema de honra’ da vacina das Nações Unidas durante o discurso”

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