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/ Campinas (SP), 16/07/2021 - Inflação-SP - Movimentação em açougue na região central de Campinas, interior de São Paulo, nesta sexta-feira (16). A inflação para as proteínas vai superar a marca de 10% este ano, após já ter disparado em 2020. O aumento previsto para 2021 está bem acima da estimativa para a inflação oficial (IPCA), de 5,9%. (Foto: Luciano Claudino/Código 19/Folhapress) / Campinas (SP), 16/07/2021 - Inflação-SP - Movimentação em açougue na região central de Campinas, interior de São Paulo, nesta sexta-feira (16). A inflação para as proteínas vai superar a marca de 10% este ano, após já ter disparado em 2020. O aumento previsto para 2021 está bem acima da estimativa para a inflação oficial (IPCA), de 5,9%. (Foto: Luciano Claudino/Código 19/Folhapress)
Foco 08/09/2021

O alto preço da inflação que todos pagam

Por : Vanessa Selicani - Metro

A taxa é a maior dos últimos 20 anos, de acordo com o IBGE. E a dificuldade dos brasileiros pagarem as contas básicas se torna um dos grandes empecilhos para a retomada econômica do país. Entenda os reflexos

1 – Sai cerveja, achocolatado e cereais e entram os empanados

A alternativa para todas as classes sociais foi mudar o cardápio em casa para compensar os preços altos. Pesquisa realizada pela consultoria em dados Kantar mostra que os brasileiros focaram no básico para o prato, como manter o arroz e feijão, e cortaram supérfluos. A carne vermelha, 31% mais cara, deu espaço aos empanados e congelados, que estrearam em 3,4 milhões de lares neste ano.

Para os mais pobres das classes D e E, com salários de até R$ 1,6 mil, o jeito foi tirar o achocolatado. A pesquisa indica que a classe média deixou de comprar cereais como aveia e amido de milho. Já entre os mais ricos, com renda familiar acima de R$ 7,2 mil, quem deu adeus à geladeira foram as cervejas.

2 – Para muita gente, o jeito é não comprar. E o varejo já sente o efeito

Mas por mais que se façam substituições para equilibrar o orçamento, para muita gente o jeito é realmente deixar de comprar com preços tão altos. E o resultado já atrapalha vendas nos supermercados, farmácias e lojas em geral. 

A queda de 1,7% nas vendas do varejo em junho surpreendeu as projeções do mercado. O índice do IBGE vinha de duas altas seguidas. E tanto o instituto de estatística como a própria CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) reconhecem o peso da inflação neste cenário. “Hoje, o país vive um momento de inflação alta, primeiro item que vai recair demasiadamente sobre a cadeia. Mesmo com mais pessoas nas ruas, consumindo, os ganhos serão menores”, disse o presidente da CNC, José Roberto Tadros.

As vendas nos supermercados, que se mantiveram mesmo nos piores momentos da pandemia, também caíram entre maio e junho (-5,12%), mostrou índice da Abras (Associação Brasileira de Supermercados). No mesmo período, o preço da cesta de produtos pesquisado pela entidade subiu 1,34%, alcançando R$ 662,17. O valor já consome mais da metade do salário mínimo, hoje em R$ 1,1 mil. Na comparação com junho de 2020, a alta é de 22%

3 – Empréstimos ficam mais caros com a alta da taxa básica de juros

Não é só seu bolso que sabe que a inflação é um problema. A alta dos preços entrou na mira da equipe econômica do governo. A principal arma neste momento para tentar frear o movimento é aumentar a Selic, a taxa básica de juros. Ela passou de 4,25% para 5,25% ao ano em agosto, quarto aumento seguido. Sem sinais de que a inflação possa ser controlada, principalmente com as altas geradas pela crise hídrica, a expectativa é que alcance até 7% neste ano.

A lógica é que aumentar os juros encarece o crédito e ajuda a desestimular o consumo. Desta forma, há menos dinheiro circulando, o que desacelera a inflação. Mas juros mais caros são também um balde de água fria para quem procura dinheiro para investir ou aos que pensavam em aproveitar a maré de taxas baixas para adquirir um imóvel.

E o salário… anda bem longe da inflação

Por um lado, os preços sobem no maior ritmo dos últimos 20 anos e atrapalham o consumo. Do outro, o salário dos trabalhadores não acompanha esse ritmo.

Com empresas ainda bastante afetadas pela pandemia de covid-19, os reajustes salariais da maioria neste ano têm ficado abaixo dos quase 9% de inflação acumulada. Ou seja, o custo de vida subiu, mas seus ganhos não acompanharam e você perdeu poder de compra.

Pesa também contra os trabalhadores as chances de negociação reduzidas com a baixa oferta de emprego.

Apenas 22,9% das negociações salariais tiveram aumento real entre janeiro e julho, ou seja, foram maiores que a inflação. Os dados do boletim Salariômetro, da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) revelam que, em 50,5% dos acordos, o reajuste ficou abaixo do índice de inflação. Outros 26,6% empataram. A pesquisa leva em consideração o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), índice de inflação das famílias entre um e cinco salários mínimos. Neste caso, o acumulado em 12 meses já ultrapassa 9,85%.

5 – Economia não anda se as pessoas param de comprar

Quando as famílias não consomem, a economia não anda. E o melhor retrato disso foi a retração de 0,1% no PIB (Produto Interno Bruto) do segundo trimestre. No período, o consumo das famílias teve variação zero, estagnada, contribuindo para o resultado ruim. O item representa 65% da composição do PIB.

“Apesar dos programas de auxílio do governo, do aumento do crédito a pessoas físicas e da melhora no mercado de trabalho, a massa salarial real vem caindo, afetada negativamente pelo aumento da inflação. Os juros também começaram a subir. Isso impacta o consumo das famílias”, explica a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis.

A análise da especialista é que, mesmo com o avanço tímido dos empregos, a desvalorização dos salários ante a inflação tem impacto grande no poder de compra dos brasileiros.