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Foco 05/09/2021

Orientação sexual e identidade de gênero ainda são motivo de confusão; entenda o assunto

Especialista explica diferenças e o que significa a sigla LGBTQIAP+.

Assuntos ligados ao universo LGBTQIAP+ são cada vez mais discutidos na sociedade como um todo. Apesar de muito avanço ao longo dos anos, falar de sexualidade ainda é um verdadeiro tabu e muitas dúvidas, principalmente quando envolvem essa comunidade, não são facilmente esclarecidas. Um exemplo é que grande parte das pessoas ainda não sabe diferenciar orientação sexual de identidade de gênero.

O Metro World News conversou com Márcia Rocha, a primeira advogada transexual a ter o direito de usar o nome social na carteirinha da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e que hoje integra a Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero do órgão em São Paulo. Além disso, ela é empresária, fundadora e coordenadora do Projeto TransEmpregos, pós-graduada em Educação Sexual e tem um assento no Comitê de Direitos Sexuais da Associação Mundial para a Saúde Sexual.

A especialista explicou como podemos entender o que é a identidade de gênero e qual a diferença com a orientação sexual, sem mistérios.

“Identidade de gênero é como você se sente enquanto homem, mulher ou outra coisa. Ninguém é igual a ninguém. Cada mulher se sente e se entende de uma forma única, nunca vai ser como a outra mulher. Aquilo que ela entende como ser mulher é algo só dela e com os homens é a mesma coisa. Existem mulheres que são mais delicadas, outras mais esportivas e tem aquelas gostam mais de tudo o que é ligado ao universo masculino. Já existem aqueles homens que são mais calmos, outros mais brigões, outros mais desligados. Ou seja: a identidade de gênero é a essência de cada um, características individuais, algo único de cada pessoa”, afirma.

Segundo Márcia, a pessoa se caracteriza como trans quando ela não se identifica com o sexo biológico, ou seja, é quando o indivíduo não se sente enquadrado no seu sexo de nascimento.

“A definição da APA [American Psychological Association – sigla em inglês para Associação Americana de Psicologia] para transgênero é: qualquer pessoa que não se sinta enquadrada no gênero correspondente ao seu sexo biológico. Ou seja, sexo é aquilo que a gente nasce, na maioria das vezes homem ou mulher. Mas, ao longo da vida, nem sempre a pessoa se identifica com esse gênero e se reconhece de outra forma. Aí ela é trans”, explicou.

Já a orientação sexual tem relação com o desejo, mas nem sempre existe um padrão como, por exemplo, homens são apenas atraídos por mulher e vice-versa. Segundo Márcia, esse universo tem muitas possibilidades e, por isso, acaba não sendo facilmente entendido.

“Orientação sexual é no sentido de bússola mesmo, é para onde aponta o seu desejo. Pode ser para homem, mulher, para os dois, para nenhum dos dois, múltiplo, pansexual. É o que você gosta, o que te atrai. Mas a sociedade e a maioria das religiões têm a mania de querer padronizar as coisas, dizendo que só pode a relação e atração entre homem e mulher. E não é assim que funciona. Eu mesma me considero uma travesti lésbica, pois já me relacionei com homens, mas o que me atrai mesmo são as mulheres. Tanto que hoje estou com a minha terceira companheira. Então, não existem regras, não existe certo e errado”, afirma.

Márcia Rocha é especialista em sexualidade e integrante da Comissão de Diversidade da OAB-SP
Arquivo pessoal
Márcia é especialista em sexualidade e integra a Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB-SP

A especialista diz que, na maioria das vezes, as pessoas trans sentem atração pelo gênero oposto ao que elas se identificam, mas nem sempre isso é uma característica dominante.

“Tem homens que gostam de homens, tem mulheres que gostam de mulheres, tem aqueles que gostam de travestis, outros que não gostam de nada e de ninguém e estão felizes assim. Quando se fala em sexualidade, não existem padrões. A ciência observa a sociedade e entende o que existe no mundo. Assim, acabamos tendo aquilo que definimos como gays, lésbicas, pansexuais, etc. Isso apenas para que possamos entender as possibilidades, mas não temos como taxar que cada pessoa só pode se enquadrar em apenas uma dessas categorias, pois muitas vezes esse leque pode ser maior e a pessoa também mudar a orientação sexual”, destaca.

Mas o que significa a sigla LGBTQIAP+?

A advogada explicou o que significa cada letra da sigla LGBTQIAP+ já que, até mesmo na própria comunidade, muitos ainda ficam na dúvida ou não se sentem enquadrados em um determinado grupo.

Veja abaixo:

  • L: Lésbicas (mulheres que gostam de mulheres, incluindo trans)
  • G: Gays (homens que se sentem atraídos por homens, incluindo trans)
  • B: Bissexuais (pessoas que se sentem atraídas tanto por homens quanto por mulheres)
  • T: Transgêneros (travestis, mulheres trans e homens trans)
  • Q: Queer (identidade de gênero em que a pessoa não se enquadra nem como homem e nem mulher, é o não binário)
  • I: Intersexo (é a pessoa que nasce biologicamente sem sexo definido, não é homem, nem mulher)
  • A: Assexual (é a pessoa que não tem desejo nem por homem, nem por mulher. Não tem sexualidade. Não tem vontade de fazer sexo, mas se sente bem assim)
  • P: Pansexual (é aquela pessoa que sente atração sexual múltipla, por homens, mulheres, objetos, por coisas, etc)
  • +: Sigla usada para todas as pessoas que não se sentem enquadradas nas demais letras.

Márcia diz que um ponto importante a ser destacado é o das pessoas que se enquadram no intersexo, já que elas nascem biologicamente sem um sexo definido.

“A gente sabe que os meninos são caracterizados pelo cromossomo XY, já as meninas pelo XX. Mas e quando a pessoa nasce com o último par XXY, por exemplo? Muitas podem ter tanto o sistema reprodutor feminino quanto os órgãos genitais masculinos. Então, nesses casos, normalmente o médico pergunta aos pais o que eles querem, menino ou menina e acabam definindo como aquela criança será criada. O problema é que nem sempre a identidade de gênero dela será a mesma que foi escolhida. Então, hoje se luta pelo direito que esses bebês sejam registrados com gênero neutro, não binário, para quando crescerem eles mesmos possam escolher”, explica.

Além disso, Márcia explica porque muitas pessoas passaram a usar pronomes neutros quando querem se referir ao público LGBTQIAP+. “Nos últimos tempos passaram a usar TodEs, TodXs principalmente para as pessoas não binárias e as queers. Eu prefiro usar o @, pois acho que engloba muito mais gente. Nem todos gostam, enfim, mas no geral, esses pronomes neutros são sim usados com frequência na comunidade”.

Barreiras e oportunidades

Apesar do assunto estar cada vez mais em pauta em diversos ramos da sociedade, Márcia diz que os transgêneros ainda enfrentam muitos preconceitos, começando dentro de casa, mas depois também na escola, na vida profissional. A mudança nas leis que criminalizam a homofobia e também que garante o nome social nos documentos já são grandes avanços para diminuir essas barreiras.

“Hoje você vai o cartório e muda o nome, mas, na prática, ainda há resistência em alguns locais. Mas por determinação do CNJ [Conselho Nacional de Justiça], os cartórios têm que fazer essa mudança. O que pode ser alterado é o prenome, não o sobrenome. Mas isso já é um grande avanço para a pessoa. Além disso, hoje, muitos passaram a ter medo de discriminar, sabem que homofobia é crime. Então as coisas têm melhorado”, afirma.

A advogada explica que as barreiras encontradas, normalmente, variam de acordo com a aparência da pessoa. “Tem aqueles trans que chamamos de passáveis, pois convencem. Você não sabe se é homem ou mulher, de fato. Você olha para a pessoa e não faz ideia que ela é trans. Agora, no meu caso, olham e sabem que sou uma travesti. Eu não quis mudar de nome, pois essa é a minha luta, não quero esconder que sou trans. Mas eu fui a primeira a conseguir ter o direito de usar meu nome social, em 2017. Hoje, assino meus processos com meus dois nomes, Márcia Rocha e o nome de batismo embaixo. Quero sempre garantir essa visibilidade”, conta.

Mas foi na questão do mercado de trabalho que Márcia percebeu que muitos transgêneros ainda ficavam de fora na hora das contratações. Então, em 2014, ela se uniu a colegas, como a atriz Maitê Schneider, a cartunista Laerte Coutinho e a psicanalista Letícia Lanz, e criaram a plataforma TransEmpregos, que visa estreitar o caminho entre os trabalhadores e as empresas.

Sem fins lucrativos, a plataforma é usada por grandes empresas como Carrefour e IBM. Em seu primeiro ano, a TransEmpregos viabilizou a contratação de uma única pessoa trans. Em 2020, foram 707.

“Hoje já passamos de 1,2 mil empresas parceiras cadastradas. Mesmo na pandemia, sentimos que houve muita contratação online, pois as empresas foram conscientizadas e querem ter trans nos seus quadros. Contamos com mais de 24 mil trans inscritos que buscam uma oportunidade”, conta.

Márcia explica que o serviço é gratuito tanto para quem quer anunciar a vaga, quanto para quem quer se candidatar. “Está havendo uma mudança muito positiva não só em relação à população LGBTQIAP+, mas às mulheres, negros e outros”, avalia Márcia.