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Dinheiro também é assunto de criança; saiba quando e como inserir a educação financeira na vida dos pequenos

Especialista dá dicas de como abordar o tema logo cedo e, assim, contribuir para adultos com hábitos mais saudáveis

Você é capaz de lembrar quando o assunto dinheiro entrou na sua vida? Segundo pesquisa Ibope Inteligência, encomendada pelo banco C6 Bank e divulgada em 2020, apenas 21% dos brasileiros das classes A, B e C com acesso à internet tiveram educação financeira durante a infância.

O que há alguns anos parecia tabu, hoje é um direito. A educação financeira está prevista na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), o que significa que passou a ser obrigatória no currículo dos ensinos infantil e fundamental das escolas públicas e privadas do País. Os ganhos da medida? Futuros adultos mais conscientes, responsáveis e empoderados.

«Esta inclusão foi um marco importante. Ter tido acesso a este conteúdo na escola teria feito uma enorme diferença positiva na minha vida adulta e na de muitas pessoas com quem converso a respeito», afirma a cientista contábil Juliana Vasconcelos Lima, criadora do projeto Bendito Cofrinho.

A escola, claro, tem papel fundamental. Porém, cabe também aos pais e responsáveis a missão de normalizar as discussões em torno do dinheiro dentro de casa, desfazendo a ideia de que “dinheiro não é coisa de criança”.

Nesse contexto, Juliana lembra que o ensino através do exemplo é fundamental. «É importante estar sempre atento a suas atitudes em relação ao dinheiro, pois elas serão copiadas por seus filhos ainda que de forma involuntária. Além disso, converse sobre o trabalho, explicando que é dele que vem o sustento», aconselha.

Quando introduzir o assunto?

A especialista diz que a partir dos 3 anos de idade já é possível começar a tocar em alguns pontos relacionados à educação financeira. Isso porque, por mais que ainda não haja a noção de valor estabelecida, a criança já apresenta comportamentos associados ao consumo.

O assunto pode vir à tona, por exemplo, quando ela quiser que os pais comprem um lanche. «Se o filho percebe que sempre que solicita algo, ele consegue, automaticamente entende que ‘está fácil’, é só pedir. Então é preciso explicar que naquele dia tudo bem comprar aquela comida, porque a mamãe e o papai têm dinheiro, mas que não vai ser assim toda vez. Ou até mesmo se não houver condições naquele momento, deve-se explicar a razão da negativa», afirma.

E a mesada: dar ou não dar?

Juliana se diz a favor da concessão da mesada para os filhos, contanto que ela esteja dentro da realidade financeira da família. Não basta, porém, apenas colocar o dinheiro na mão da criança. «É necessário ensinar a importância de economizar para realizar nossos desejos. Portanto, estimule-a a guardar uma parte do valor que receber para um objetivo específico, como comprar um brinquedo mais caro, por exemplo.»

Se a mesada não for uma realidade possível, a orientação é ensinar o filho a guardar as moedinhas que ganhar ou encontrar pela casa. «Note que aqui o hábito de poupar que está sendo criado vale muito mais do que a quantia em si e será essencial para uma boa relação com sua renda própria no futuro. O cofrinho é um bom aliado nas duas hipóteses.»

Crianças podem ensinar os pais?

A tendência natural é que os pequenos sigam o modelo familiar, mas, ao ter contato com a temática fora de casa, não é incomum que levem algumas provocações para o próprio lar.

«É como uma criança que aprende segurança no trânsito e sempre adverte o adulto que não usa cinto. Ainda que o aprendizado da criança não tenha impacto na vida financeira de sua família, com certeza terá na vida dela própria quando crescer. Desta forma, estamos quebrando um ciclo de eventuais comportamentos negativos que ela viria a reproduzir», aponta Juliana.

Percepção de maus hábitos levou à iniciativa

Juliana trabalha há alguns anos em instituições bancárias. A ideia de criar o Bendito Cofrinho veio quando notou que boa parte das pessoas consome produtos bancários de forma prejudicial a elas mesmas.

«Percebi que muitas não leem sobre o que contratam, se endividam por mau uso do cartão de crédito, querem poupar e investir dinheiro, mas não mudam seu comportamento como consumidor para gastar menos etc. É plenamente possível ensinar finanças pessoais para um adulto, mas é mais difícil, pois envolve a mudança de um comportamento», pontua.

Assim, o projeto nasceu com o objetivo de trazer o tema à rotina de forma leve desde cedo. «A maior parte dos nossos hábitos são desenvolvidos com base no que nos é apresentado ao longo da vida, principalmente na infância. A educação financeira infantil leva conceitos simples, mas fundamentais para uma boa relação com o dinheiro, e o benefício de ter acesso a esta informação desde pequeno é crescer com a percepção dessa importância e, com isto, desenvolver boas práticas financeiras», finaliza.

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