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Negros são mais da metade dos empreendedores do Brasil, mas racismo persiste; ‘cansei de responder que o dono da minha própria clínica sou eu’

Reconhecimento é um dos principais desafios enfrentados pela população afro que abre um negócio no País

O racismo mora nas perguntas aparentemente mais inofensivas. «Cansei de ouvir ‘que horas o doutor chega’ dentro da minha própria clínica de odontologia. Precisei colocar os meus certificados na parede para deixar claro que o dono sou.» O relato é do dentista Sairon Quadros, de 40 anos, um dos 13,8 milhões de empreendedores negros no Brasil que ainda têm que provar sua posição dia após dia.

Segundo estudo do Sebrae a partir da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) Contínua, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os negros representam 51,6% dos donos de negócios do País. Os dados são do quarto trimestre de 2020.

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Ainda de acordo com o levantamento, houve um aumento da participação dos negros donos de negócios na comparação do quarto trimestre de 2020 com o período que marcou o pico dos efeitos da pandemia da covid-19 na economia, o segundo trimestre do ano passado. A alta representou 930 mil novos empreendedores afro.

Apesar dos números, é certo dizer que a população negra ainda não está acostumada a se enxergar nos lugares em que merece estar. «Os pretos me perguntam se eu sou dentista mesmo, se eu fiz faculdade», conta Quadros.

Se há o estranhamento do próprio grupo, por parte dos brancos, infelizmente, ofensas são bem comuns. «Certa vez, uma paciente disse que não seria atendida por mim, nas palavras dela, um king kong. Mas o racismo não vem só pela fala. É possível senti-lo no olhar. Algumas pessoas não entendem o quão privilegiadas são por terem menos melanina na pele», diz Quadros.

O dentista, natural do sul do País, têm duas clínicas odontológicas, a primeira delas inaugurada em 2018. Ambas estão localizadas na periferia de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. A ideia é atender a população mais carente – composta justamente por negros. Além disso, 90% dos funcionários são afrodescendentes.

«O propósito da minha iniciativa também está em mostrar que há opções para todos. Quero revelar para as pessoas que têm a mesma origem que a minha que tem como seguir caminhos diferentes, que há sim dentistas pretos, por exemplo. Muitos têm sonhos, mas por conta das dificuldades, acabam sucumbindo», aponta Quadros.

Incentivo que faz a diferença

Em meio à pandemia, o empreendedorismo afro cresceu, como mostram os dados da Pnad, do IBGE. Com a falta de postos de trabalho, muitos viram na abertura do próprio negócio a única forma de sustento possível e, a partir disso, um desafio a mais pela frente: como usar a internet como meio de divulgação e venda?

Nesse contexto, a relação públicas Luciana Marcelino e o publicitário Diego Lucas Barbosa lançaram a Chave Preta, uma agência de marketing digital cujo objetivo é fomentar o empreendedorismo preto, ajudando quem precisou se reinventar no mundo online de uma hora para outra.

Para Luciana, o maior desafio do empreendedor negro é o reconhecimento. «No geral, quando se encontra um profissional preto em um mesmo ambiente que um branco, tende-se a concluir que ambos tiveram as mesmas oportunidades, mas isso não é verdade. O olhar em cima do preto é sempre mais criterioso. Ele sempre tem que fazer mais, como se tivesse que justificar aquele lugar. A necessidade de estar sempre se provando gera um desgaste muito grande.»

Além de posicionar as marcas na internet, a Chave Preta oferece uma espécie de mentoria ao empreendedor que a procura. «Trabalhamos com uma parcela da população que muitas vezes nem sabe onde quer chegar. Por isso, fazemos uma pesquisa de mercado e ajudamos nosso cliente a traçar planos e a entender a concorrência, assim como seus pontos fortes e fracos», explica Luciana.

A relações públicas esclarece que o objetivo da agência é trazer à luz aqueles que por muito tempo ficaram nas sombras, porém sem segregar os demais. «Aplicamos uma estratégia de marketing cheia de ancestralidade, fazendo questão de evidenciar as cabeças pretas por trás daquele negócio.»

Outra meta da dupla de comunicadores é formar uma rede de contatos profissionais negros, conectando quem precisa de determinado serviço à mão de obra especializada. «Costumamos dizer que a chave para o seu negócio, aquela porta que precisa ser aberta, pode sim ser preta», diz Luciana.

Para quem quer entrar no mercado, a RP dá uma dica valiosas, verdadeira chave para o sucesso: deixe claro no que você é bom. «É muito comum o preto não reconhecer seu próprio valor. Pois se dê o devido valor e saiba cobrar pelo trabalho. Entenda seu segmento e descubra como se relacionar com o seu cliente», aconselha.

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