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Foco 17/07/2021

‘Me tiraram tudo de uma vez’: entenda como a pandemia tem afetado a saúde mental dos adolescentes e como ajudá-los

Conheça a história do garoto de 16 anos que foi diagnosticado com uma forte depressão, mas que está superando a doença com apoio e tratamento

Os impactos da pandemia da covid-19, sejam eles físicos, mentais ou emocionais, definitivamente não poupam ninguém. Um estudo coordenado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em parceria com a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) revelou que 48,7% dos adolescentes brasileiros têm sentido preocupação, nervosismo ou mau humor com frequência.

Intitulado “ConVid Adolescentes – Pesquisa de Comportamentos”, a pesquisa ouviu no segundo semestre do ano passado 9.470 adolescentes entre 12 e 17 anos. O cenário mostrou não ser, de longe, o mais saudável. O percentual de jovens que não fazia 60 minutos de atividade física em nenhum dia da semana antes da pandemia era de 20,9% e passou a ser de 43,4%. Setenta por cento dos brasileiros de 16 a 17 anos passaram a ficar mais de quatro horas por dia em frente às telas, além do tempo das aulas online. Além disso, 23,9% daqueles entre 12 e 17 anos começaram a ter problemas relacionados ao sono e 59% sentiram dificuldades para se concentrar nas aulas a distância.

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Nesse contexto, o surgimento de doenças, infelizmente, era de se esperar. Um dos acometidos foi o adolescente V.S.*, de 16 anos, diagnosticado em 2020 com uma grave depressão.

“No começo eu negava ajuda. Só depois de alguns meses, já muito mal e sem conseguir sair da cama, eu percebi que estava doente”, conta o jovem.

V.S. não era um menino deprimido antes da chegada do novo coronavírus. Muito pelo contrário: tinha uma agenda repleta de atividades, como futebol, academia, muay thai e cursos. “De um dia para o outro, fechei os olhos e, quando abri, simplesmente não tinha mais nada. E foi aí que eu entrei em desespero. Na primeira semana, eu estava todo feliz com a ideia de não precisar ir para a escola, mas na segunda, eu já eu não conseguia lidar com aquela rotina. Era horrível para mim. Me tiraram tudo de uma vez.”

O adolescente lembra dos pensamentos que tinha em sua pior fase. “Eu me sentia um inútil, um peso para a minha família. Não tinha vontade de viver. Tentava de todas as formas ser forte, mas não conseguia. Simplesmente chorava muito.”

Tudo piorou, segundo V.S., quando o namoro que tinha chegou ao fim. “Foi o que acabou comigo. Ali eu estava no fundo do poço. Eu mesmo queria me internar em uma clínica, mas minha mãe não concordou. Ela me levou ao psiquiatra e ao psicólogo e fui me tratando com remédios e terapia. Cheguei a ir umas três vezes para o hospital com crise de pânico. Era desesperador”, conta.

Hoje, ainda em tratamento, o adolescente diz se sentir bem melhor graças aos profissionais que têm cuidado de sua saúde e, principalmente, a sua mãe. “Se eu não a tivesse, hoje eu não estaria aqui. Por isso, aconselho que quem está passando por essa situação procure apoio. Quem pede ajuda é mais forte do que quem não pede e acha que vai conseguir lidar com todos esses sentimentos sozinho”, garante.

Atenção aos sentimentos

Rawpixel.com/Freepik/Divulgação

A psicóloga e conselheira do Conselho Federal de Psicologia Marina de Pol Poniwas explica que cada um dos adolescentes tem sentido a pandemia e o isolamento social imposto por ela de uma maneira distinta, o que vai depender de cada história de vida e do contexto cultural em que se está inserido. Porém, estresse, medo, incerteza, desgaste emocional, saudade, irritação, insônia, mudanças de humor e dificuldade de concentração figuram entre os sintomas comumente observados.

A especialista afirma que é preciso prestar atenção aos sentimentos e emoções, mas as ações decorrentes dessa observação devem ser ponderadas. “O sofrimento não pode ser negligenciado, mas também não pode ser sempre ‘patologizado’. O momento atual tem produzido dificuldades para todos e não se pode sair medicando todo mundo sem critério.”

Segundo Marina, a tristeza em um contexto pandêmico é normal. Deixa de ser, porém, quando medos e preocupações começam a aparecer de forma contínua, impactando o cotidiano. “Um exemplo de algo que extrapola o comum é quando os pais saem para trabalhar e o filho sofre, chora. Outros alertas seriam alterações no apetite, insônias ou pesadelos, sinais persistentes e exacerbados”, esclarece.

A chave para manter um certo equilíbrio em meio às tribulações do presente é o acolhimento. “É preciso criar espaços de escuta para crianças e adolescentes, mas não apenas pensando na linguagem verbal. Se eles não quiserem falar, o simples fato de estar ao lado deles – respeitando seus limites e deixando o espaço aberto para ajudá-los – já é acolhimento. Isso vai fazer com que se sintam à vontade para buscar ajuda no momento certo”, explica.

Ainda de acordo com Marina, esse papel deve ser dividido entre pais, iniciativas públicas e escola, que na volta às aulas presenciais precisa estar preparada para ir muito além do ensino das disciplinas tradicionais. “É interessante criar condições para que os alunos possam se expressar e comunicar suas emoções, seja através do diálogo ou até mesmo da dança ou do teatro”, sugere.

Passo a passo em busca do bem estar

Jcomp/Freepik/Divulgação

Pode-se dizer que nenhum aspecto relacionado à saúde mental é simples. A complexidade do ser humano faz com que não exista uma receita mágica para a cura ou mesmo para prevenção de determinados males.

No entanto, alguns hábitos, quando implementados no dia a dia, aumentam significativamente o bem estar dos indivíduos. E isso vale para adolescentes, adultos e até mesmo idosos.

Confira as dicas do psiquiatra geral Breno Serson para buscar um estado de equilíbrio:

  • mente sadia, corpo sadio: pratique atividade física regularmente e afaste de vez o sedentarismo. “O ideal é o equivalente a 30 minutos de caminhada por diz”, recomenda;
  • deixa o sol entrar: se exponha à luz matinal por 15 minutos diários. “Procure tomar sol logo que levantar. Ele regula o relógio biológico.”;
  • você é o que você come: se alimente de forma saudável e não abuse do delivery. “Este é o momento da comida caseira. Tome um café da manhã de verdade e almoce um prato convencional”, aconselha o psiquiatra;
  • paz de espírito: dê atenção a sua vida espiritual. Yoga e meditação são boas opções;
  • limite as telas: a luz de computadores, tablets e celulares atrapalha a qualidade do sono. “Duas horas antes de dormir coloque uma luz mais baixa, uma música tranquila, deixe o chat de lado. Se desconecte.”;
  • Faça o bem: abuse da solidariedade, faça compras para quem não pode sair e ajude como puder aqueles que precisam;
  • Filtre o que consome, em todos os sentidos: evite ficar o tempo todo exposto a conteúdos que te façam mal. “Se afaste um pouco e busque contato com amizades, por exemplo”, finaliza Serson.

*O nome do entrevistado foi preservado.