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Alguns locais com disponibilidade permitem que público escolha o laboratório / Roberto Casimiro /Fotoarena/FolhapressAlguns locais com disponibilidade 
permitem que público escolha o laboratório  / Roberto Casimiro /Fotoarena/Folhapress
Foco 07/06/2021

Postos enfrentam ‘seletividade’ com chegada de novas doses de vacinas contra covid-19

Por : Norah Lapertosa e Vanessa Selicani - Metro

Público prefere tomar a Pfizer e tem receio dos efeitos colaterais da AstraZeneca. Infectologista alerta que todas as vacinas disponíveis são seguras. Momento agora é de optar pela que está disponível nas unidades

Entre janeiro e maio, os brasileiros tinham disponíveis as vacinas CoronaVac, do Butantan, e AstraZeneca/Oxford, da Fiocruz, contra a covid-19. A dose Pfizer/BioNtech chegou no mês passado e o cardápio para as próximas semanas deve incluir também a Janssen, da Johnson & Johnson. Há espaço para a chegada das doses russas e indianas, que tiveram aval da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) na sexta-feira. Já dá para escolher qual tomar?

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A resposta das autoridades sanitárias é uma só: não. Apesar da oferta crescente de novos laboratórios, a quantidade de doses ainda é insuficiente para vacinar toda a população adulta, o que conseguiria frear a disseminação da doença que já matou mais de 470 mil pessoas no Brasil.

Mas o que se tem visto nos postos de imunização em São Paulo é receio por alguns nomes e uma caça às doses da Pfizer. Apesar das dúvidas iniciais sobre a CoronaVac por conta da parceria com um laboratório chinês, a rejeição mais ouvida nos postos é em relação à AstraZeneca. O motivo são os recentes, e raros, casos ainda em estudo de trombose em pessoas que a tomaram. Em visitas a postos de saúde na semana passada, o Metro World News encontrou paciente até com recomendação médica para tomar a Pfizer.

É o caso da funcionária dos Correios Charlene Marjorie Murakami, 39 anos. Ela conta que entrou no grupo da vacina por tomar medicamentos imunossupressores. “Eu não sei se meu médico indicou a vacina da Pfizer pela comorbidade em si. Ele não colocou no pedido, mas recomendou que eu a escolhesse, se fosse possível.” No Centro de Saúde 1, em Pinheiros, ela contou que os agentes ofereceram tanto a AstraZeneca como a Pfizer e que ela optou por esta última.

A empresária Renata Santana, 41 anos, que se enquadra na obesidade entre as comorbidades, também preferiu a Pfizer. “Ouvi falar que a AstraZeneca tem efeitos colaterais indesejados”, explicou. O medo das reações da vacina de Oxford foi citado por outras pessoas em postos visitados pelo Metro.

Com a palavra, a ciência

O diretor da Sbim (Sociedade Brasileira de Imunização), Renato Kfouri, afirma que a preferência por algumas vacinas já era esperada com a chegada de mais laboratórios, mas que, neste momento, deve ser esquecida. “Com tanta gente disputando as vacinas mundialmente, não faz sentido deixar a oportunidade de se imunizar. Vacine-se o quanto antes com a dose disponível para você.”

Kfouri lembra que todos os imunizantes disponíveis têm alta eficiência para evitar sintomas graves da doença, além de serem seguros. “Talvez em uma segunda geração de vacinas, a gente possa estar em novo cenário e discutir qual delas é mais adequada para cada público. Hoje, porém, com o risco que todos nós corremos por conta da alta taxa de transmissão do vírus, não se vacinar é a pior escolha.”

O infectologista explica que os resultados apresentados para a Pfizer realmente são surpreendentes. A eficácia geral do imunizante é de 95%, enquanto a CoronaVac alcança 50,4% e a AstraZeneca, 70%. “Mas as vacinas são novas e os resultados na prática ainda precisam ser observados. A Pfizer é uma vacina mais cara, por exemplo.”

Quanto ao uso da AstraZeneca, Kfouri diz que há mais relatos de reações leves após a aplicação, como dores pelo corpo, do que as outras. Mas que os casos de trombose até agora ainda estão em estudo. “O risco da covid é muito maior, não faz sentido ter medo da vacina. O efeito é raro, semelhante a outros medicamentos já presente no dia a dia, como anticoncepcional e alguns medicamentos para asma.”

No Brasil, a AstraZeneca não é utilizada em grávidas e mulheres que deram à luz recentemente. A decisão foi tomada após um caso em investigação da morte de uma gestante que tomou o imunizante no Rio de Janeiro.

Tira dúvidas

Perguntas respondidas com auxílio da Sbim (Sociedade Brasileira de Imunização) e do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde)

O que significa a eficácia das vacinas?
É a capacidade de uma vacina em prevenir determinada doença. Quando se diz que a Coronavac tem 50,4% de eficácia geral, isso significa que as pessoas que receberam a vacina têm 50,4% menos chance de desenvolver covid-19. Os percentuais são de 70% para a vacina da AstraZeneca e de 95% para a Pfizer. Todas demonstraram eficácia ainda mais alta quando considerados apenas os casos graves da doença, evitando mortes. Os índices são obtidos por meio de grandes estudos clínicos.

Quanto tempo leva para eu ficar imunizado?
O organismo precisa de tempo para fabricar os anticorpos. A estimativa é que o potencial completo da vacina seja atingido em cerca de duas semanas após a imunização. E é importante lembrar que para as vacinas disponíveis no Brasil até agora são necessárias duas doses.

Há casos de pessoas que tomaram vacina e mesmo assim tiveram a doença. Por que isso ocorre?
Isso é possível porque a vacina, em muitos casos, não impede que a pessoa se contamine. Os imunizantes têm se mostrado eficazes para diminuir os casos com hospitalização e mortes. Isso também pode ocorrer pela contaminação alguns dias antes da vacina ou logo nos primeiros dias após a aplicação da dose, antes de desenvolver a proteção. Por isso, é importante continuar com as mesmas medidas de proteção, como o uso de máscara, higienização pessoal e distanciamento social.

O que dura mais: a imunidade causada pela própria covid-19 ou a produzida pelas vacinas?
A proteção pela doença, chamada “imunidade natural”, pode variar de pessoa para pessoa. Como estamos lidando com um vírus novo, ainda não sabemos qual é o tempo de duração. As evidências disponíveis até o momento sugerem que é incomum contrair a doença pela segunda vez. Quando isso acontece, raramente se dá nos 90 dias após a primeira infecção. Já existe estudo demonstrando que a proteção pode durar pelo menos oito meses em grande parte das pessoas que adoeceram. Também não sabemos por quanto tempo as vacinas prevenirão a doença. Mas é importante lembrar que os imunizantes protegem sem os riscos envolvidos no adoecimento.