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Brasil se prepara para ter a sua moeda digital

O real pode ter uma versão também virtual nos próximos três anos, em tendência já planejada também por outras potenciais mundiais. A proposta com as primeiras diretrizes para o dinheiro virtual brasileiro foi apresentada ontem pelo Banco Central, que desde agosto criou um grupo de estudos sobre o tema.

Apesar de o ambiente digital ser bastante utilizado pela maioria da população em transações com cartões e transferências bancárias, em que cada vez menos se vê o dinheiro físico, a moeda virtual teria a custódia do próprio Banco Central. Os bancos funcionam neste sistema como intermediadores na distribuição, mas não podem, por exemplo, emprestar esses recursos depositados para outros clientes. “O deposito bancário é um passivo do banco. Você coloca o dinheiro no banco e quem tem responsabilidade por garantir aquele dinheiro é a instituição onde está feito o depósito. No caso do real digital, é um passivo do BC, custodiado na instituição”, explicou o coordenador dos trabalhos sobre a moeda digital do BC, Fábio Araújo. 

Ela também é diferente das criptomoedas, consideradas ativos e sem entidade garantidora. As principais vantagens são reduzir custos com o dinheiro físico, facilitar o uso em novas tecnologias e tornar mais fácil transações para o exterior. “O BC vê potencial para a aplicação de novas tecnologias, como smart contracts [contratos inteligentes], IoT [Internet of Things – internet das coisas] e dinheiro programável, em novos modelos de negócio, que aumentem a eficiência de nosso sistema de pagamentos”, explica Araújo. Ainda não está definido se o valor do real físico e do digital serão os mesmos, ou se haverá diferenças em cotações, mas há consenso no BC para que ele possa ser sacado.

A divulgação das diretrizes, que incluem previsão de uso no varejo, ausência de remuneração – o valor não sofre alteração -, e integração com os pagamentos atuais online e futuramente offline, é apenas o início das discussões.

A moeda digital brasileira ainda precisa de meios jurídicos, que levem em conta a proteção de dados e nova legislação cambial, e tecnológicos. A China deve ser a primeira grande nação a ter seu dinheiro digital, atualmente em fase de testes. Os Estados Unidos também já anunciaram início de estudos sobre o tema.

Para o professor de economia da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado) Matheus Albergaria, o Brasil precisa ainda vencer barreiras de desigualdade social. “Veremos cada vez mais iniciativas de empresas e bancos centrais para criar moedas digitais. Contudo, no Brasil, há desafios: a falta de educação financeira do brasileiro médio e o acesso à internet, que não é universal. Mais do que isso, durante a pandemia, fica a dúvida de como a economia brasileira vai reagir aos efeitos adversos da covid-19.”

“A gente está preparando o sistema financeiro para o futuro. Na ‘internet das coisas’, você poderia ter uma geladeira inteligente que monitora o que tem dentro e ela mesmo faz as compras e tudo é certificado com o sistema de criptografia.” 

Fábio Araújo, coordenador da moeda digital do Banco Central

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