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Quem observa de fora vê calma e tranquilidade no vai e vem das marés. Mas não se engane, a vida marítima é bem barulhenta e os sons que nós emitimos aqui de fora também interferem no dia a dia de peixes e baleias. E é por isso que a pandemia é vista como uma oportunidade única por cientistas para aprofundar os estudos sobre o tema. A diminuição drástica nas atividades marítimas, tanto de embarcações como em campos de petróleo, vai permitir que os equipamentos captem com mais precisão o que é dito nas profundezas dos oceanos.

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Pesquisadores do mundo todo se uniram no início deste mês para o International Quiet Ocean Experiment, o Experimento Internacional de Silêncio no Oceano, em tradução livre. A América Latina não possui os microfones utilizados pelo grupo, mas a expectativa é que possa contribuir com estudos próprios de acústica.
No Brasil, já existem alguns grupos de pesquisa sobre os sons na vida marinha. O pesquisador Linilson Padovese, professor do departamento de engenharia mecânica da USP, coordena estudos no Lacman (Laboratório de Acústica e Meio Ambiente).

O cientista conta que o objetivo de se escutar os oceanos é descobrir interações na vida marinha, encontrar novas espécies, evitar a extinção dos animais e até garantir a segurança reconhecendo embarcações e pesca ilegal em regiões de preservação ambiental. “O som é o principal sentido e meio de comunicação quando se trata da vida marinha, já que a luz se propaga muito pouco na água, limitando a visão. Além disso, o som se propaga muito melhor na água do que no ar”, explica o pesquisador.

Os pesquisadores trabalham na caracterização sonora dos ambientes marinhos. “Quando falamos em acústica submarina, existem duas grandes áreas. Uma delas é a passiva, que consiste na escuta e análise através dos hidrofones, microfones adaptados para a água. A outra é a acústica ativa, onde os aparelhos emitem um sinal bem preciso e através do eco é possível construir imagens como se fosse o ultrassom que utilizamos na medicina”, explica Padovese. “Em muitos casos, a gravação sonora de um ambiente favorece a identificação de espécies ameaçadas de extinção”, completa.

No Lacmam, o pesquisador e sua equipe criaram metodologias que vinculam algoritmos estatísticos e aprendizado de máquina para estudar o ambiente subaquático. Foi preciso desenvolver seus próprios sensores, chamados Oceanpods, já que não é fácil consegui-los em outros países por limitações militares. Isto acontece porque os sensores podem realizar rastreamentos submarinos importantes nas estratégias de defesa.

Atualmente, existe um projeto para monitorar os golfinhos em Fernando de Noronha (PE), já que lá existe uma comunidade de golfinhos residentes. Já foram instalados também sensores na Ilha de Alcatrazes e na Laje de Santos, no litoral de São Paulo.

Foram gravados durante dois anos a chamada paisagem acústica nesses locais. “O objetivo era desenvolver, instalar a tecnologia e fazer novas descobertas. Foram encontradas embarcações de pequeno e grande porte. O nível de ruído gerado pelas grandes embarcações nos oceanos é uma grande preocupação ambiental. Foram monitoradas as migrações das baleias jubarte e também descobrimos um fenômeno desconhecido: o coro ou canto dos peixes. As espécies se juntam em horários precisos e dominam a região com uma potência sonora que alcança toda a região.”

A captura dos sons

1. Os pesquisadores projetaram um gravador hidrofone eletrônico, chamado OceanPod, que grava os sons em cartões de memória microSD. Ele é colocado no fundo do mar para a pesquisa

2. Como o consumo de energia é muito baixo, os especialistas contam que a pesquisa dura por cerca de dois anos, mas é preciso voltar no fundo do mar de seis em seis meses para coletar as gravações para estudo e trocar equipamentos

3. Instalado no fundo do mar, com tantos animais aquáticos, a expectativa é de que cada vez mais possamos aprender sobre o que se passa embaixo d’água

4. Para o cientista Linilson Padovese, da USP, toda expedição aquática é repleta de surpresas e aprendizados

Abra os ouvidos

Quer ouvir o som dos peixinhos, baleias e crustáceos? O projeto International Quiet Experiment tem um banco de sons da vida marinha que pode ser acessado gratuitamente em www.iqoe.org.


* Com supervisão de Vanessa Selicani.