logo
Homem procura por vagas na região central de São Paulo / Mathilde Missioneiro/FolhapressHomem procura por vagas na região central de São Paulo / Mathilde Missioneiro/Folhapress
Foco 19/04/2021

Desencontro entre dados deixa economia às escuras

Por : Vanessa Selicani - Metro

De um lado, o governo comemora a maior criação de vagas de emprego formal em 30 anos verificada no sistema do Ministério da Economia. De outro, o instituto oficial de pesquisas do país aponta para taxa de desemprego recorde na série histórica iniciada em 2012. Deu para entender em que país estamos?

QUER RECEBER A EDIÇÃO DIGITAL DO METRO JORNAL TODAS AS MANHÃS POR E-MAIL? É DE GRAÇA! BASTA SE INSCREVER AQUI.

A realidade do mercado de trabalho brasileiro tem ficado difícil de ser compreendida com números oficiais desencontrados. Somam-se as discrepâncias os sinais de que a crise foi acentuada neste início de ano com o fechamento de estabelecimentos durante a atual segunda onda da pandemia.

Mudanças de metodologias e alterações provocadas até mesmo pelo novo coronavírus são apontadas por economistas como responsáveis por alterações significativas tanto na Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), como no Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério da Economia.

Ambas as pesquisas são referência para retratar o mercado de trabalho no país, mas possuem métodos diferentes.

O Caged mede apenas empregos com carteira assinada e tem como base os registros obrigatórios das empresas no sistema do Ministério da Economia. Já a Pnad realiza entrevistas em amostra de 211.344 domicílios. As respostas resultam em dados de emprego formal, informal, força de trabalho, renda e pessoas que desistiram de procurar por vagas. Apesar de não comparáveis, ambas apresentavam antes da pandemia trajetórias semelhantes.

Mas as curvas foram para sentidos opostos desde o fim do ano passado. Os dados do Caged de janeiro de 2021, por exemplo, mostram a existência de 39,6 milhões de empregos formais, 255 mil vagas a mais que no mesmo mês de 2020. Já os dados da Pnad Contínua para o trimestre encerrado em janeiro apontam extinção de 3,9 milhões de vagas com carteira assinada no setor privado ante o mesmo período do ano anterior – o IBGE faz comparações móveis entre trimestres.

O descolamento dos índices, na visão de economistas, é motivado por mudança metodológicas do Caged e pela redução nas taxas da pesquisa da Pnad, que precisou ser realizada pelo telefone com a pandemia.
A diretora técnica adjunta do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), Patricia Pelatieri, afirma que as mudanças nas pesquisas preocupam, principalmente em relação ao Caged, e um possível novo adiamento do Censo Demográfico neste ano pode levar o país a ter sérios prejuízos nas estatísticas e planejamento. “Estamos muito preocupados com essa questão dos dados do mercado de trabalho, que limita as comparações. O adiamento do Censo prejudica ainda mais o cenário, já que muitas pesquisas dependem disso. É muito sério esse descaso em relação às estatísticas.”

Caged

A primeira grande mudança ocorreu no Caged a partir de janeiro do ano passado, antes da chegada da pandemia. A coleta das informações passou a ser realizada pelo eSocial, que unificou as informações de 13 sistemas que as empresas antes eram obrigadas a preencher. Com o novo sistema, também passou a ser obrigatória a inscrição de funcionários temporários. O ministério afirma que esses trabalhadores respondem por apenas cerca de 4% do contingente total.

Mas a diretora do Dieese explica que inconsistências em relação ao Empregador Web, que registra solicitações de seguro-desemprego, dão indícios de que empregadores não têm registrado a saída dos funcionários no eSocial. “Além disso, muitas empresas faliram durante a crise e não pagaram as rescisões, e também não sinalizaram no sistema.”

Patrícia afirma que mudanças metodológicas são comuns, assim como ajustes após as alterações. Mas que limitam comparações com o antigo histórico. “Os técnicos do Caged são cuidadosos e sempre publicam as notas pedindo que não se faça a comparação com dados da outra metodologia. O problema é que os secretários e ministros fazem isso, o que causa as suspeitas.”

IBGE

Já as inconsistências apontadas nas pesquisas do IBGE se referem ao aumento de não respostas aos questionamentos após a aplicação via telefone. Pesquisadores do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão ligado ao Ministério da Economia, indica que a redução resultou em dados subestimados de emprego formal no segundo e terceiro trimestres de 2020, com impacto de 0,85 ponto percentual a mais para a desocupação.

“Isso ocorre se a queda não for distribuída uniformemente pela população, levando a mudanças na composição da amostra, de forma a alterar a representatividade de indivíduos com maior ou menor propensão a ocupar um posto de trabalho formal”, diz trecho do estudo. Para os pesquisadores, além da mudança no Caged, a redução da amostra na Pnad também contribuiu para a grande diferença entre os índices.