logo

As pandemias que assolam o mundo desde o ano 165 com milhões de mortes deixaram marcos de ensinamentos que voltam a ser discutidos agora, com a covid-19. As doenças impulsionaram a estruturação do sistema de saúde e das vacinas como conhecemos hoje.

QUER RECEBER A EDIÇÃO DIGITAL DO METRO JORNAL TODAS AS MANHÃS POR E-MAIL? É DE GRAÇA! BASTA SE INSCREVER AQUI.

O historiador Tiago da Silva Coelho, professor da Unesc (Centro Universitário do Espírito Santo), cita as mudanças na vigilância à saúde no Brasil com a Gripe Espanhola entre 1918 e 1920. “Ali surgiu a ideia de um sistema que levasse em conta não somente a proteção hospitalar, mas também a vigilância sanitária. Ela faz parte de uma série de outros eventos, tão problemáticos e com medidas tão e até mais drásticas como a que vemos hoje, com a covid-19”, conta o especialista. “Também foi na época da varíola que a discussão da vacina obrigatória começou no Brasil”, afirma Coelho.

O mesmo aconteceu com outras doenças. “A febre amarela foi a base da diretoria de saúde pública no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, quando ainda não existia um Ministério da Saúde”, conta Márcia Barros da Silva, professora de história das ciências na USP (Universidade de São Paulo).

A covid-19, que já matou 2,8 milhões de pessoas, não é considerada a mais mortal das pandemias até o momento. Mas gera grande preocupação por seus impactos hoje e consegue ser proporcionalmente mais ameaçadora que doenças como o tifo, a grande peste de Londres e as epidemias de varíolas japonesa e mexicana.

Dentre os episódios ainda mais mortais que a pandemia do novo coronavírus, está, segundo Coelho, a peste bubônica, em meados do século 14. De acordo com o professor, a doença causada por pulgas de roedores dizimou ao menos 10% da população mundial. Hoje em dia, a bactéria que matou 25 milhões de pessoas em quatro anos é muito rara e acomete menos de 15 mil brasileiros por ano. Proporcionalmente, a peste bubônica matava 6,25 milhões de pessoas ao ano. No ritmo atual, a covid-19 tem intensidade menor. Com quase um ano e meio da doença, foram 2,8 milhões de vítimas reportadas.

O novo coronavírus também alcança seu lugar e deixa ensinamentos para a história. “A covid-19 marca o mundo contemporâneo e, diferentemente da gripe espanhola, por exemplo, deixa inúmeras referências documentais como fotos, análises, reportagens e discussões”, analisa Márcia. A esperança é que, com novas tecnologias, outros tempos e, principalmente, com a vacina, logo a covid-19 também fique somente em nossos livros de história.

Linha do tempo das pandemias

Número de mortos:

  • Peste dos Antoninos (165 – 180): 5 milhões
  • Praga de Justiniano (483 – 565): entre 30 e 50 milhões
  • Epidemia de varíola japonesa (735 – 737): 2 milhões
  • Peste Bubônica / Peste Negra (1347 – 1351): 25 milhões
  • Grande Peste de Londres (1348 – 1665): 3 milhões
  • Epidemia de varíola mexicana (1519 – 1520): entre 5 e 8 milhões
  • Cocoliztli (1545 – 1547): entre 5 e 15 milhões
  • Febre Amarela (1800 – 1802): entre 100 mil e 150 mil
  • Cólera (1817 – 1975): entre 3 e 5 milhões
  • Epidemia Europeia de Varíola (1870 – 1875): 500 mil
  • Epidemia Mundial de Varíola (1877 – 1977): 500 milhões
  • Gripe Espanhola (1918 – 1920): 50 milhões
  • Epidemia de Tifo (1918 – 1922): 2,5 milhões
  • Gripe de Hong Kong (1968 – 1970): 1 milhão
  • HIV / AIDS (1981 – Presente): mais de 32 milhões
  • Gripe Suína (2009 – 2010): mais de 500 mil
  • Covid-19 (2019 – Presente): 2,9 milhões

Quarentena: a origem

A palavra vem do italiano “quaranta” e foi inventada em Veneza na época da Peste Negra. O governo, temendo que a doença viesse do mar, determinou que marinheiros que chegavam de viagem ficassem isolados durante 40 dias para não espalhar a doença

O fim dos astecas

Em menos de cinco anos, entre 5 e 15 milhões de astecas perderam a vida na região que hoje conhecemos como o México. Em 1545, os primeiros sintomas da “cocoliztli” começaram a aparecer. Febres, dores de cabeça e sangramentos que saíam da boca, nariz e olhos se tornaram cada vez mais comuns. A morte, após três ou quatro dias, era inevitável. Hoje, a bactéria que acometeu os astecas já é identificada, a Paratyohi C, uma variante da salmonela que não provoca mais vítimas mortais

A máscara do pássaro

Os teóricos acreditavam que a Peste Negra se espalhava através do ar envenenado e, para evitar o contágio, cobriam o rosto com flores. A evolução desse método foi a precursora da máscara médica. Os médicos que cuidavam das vítimas usavam máscaras que tinham a aparência de um longo bico de pássaro, onde perfumes e especiarias eram colocados no “bico”. Além disso, se vestiam de maneira que os protegia da cabeça aos pés. Mais tarde, foi descoberto que a peste era causada por uma bactéria que pode ser transmitida de animais para humanos e também por picadas de pulgas, contato com secreções e superfícies contaminadas