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Pandemia representou impacto gigante na educação / Rivaldo Gomes/FolhapressPandemia representou impacto gigante na educação / Rivaldo Gomes/Folhapress
Foco 28/10/2020

Eleição municipal: Os desafios que o novo prefeito de São Paulo vai encarar

Com 12 milhões de habitantes em 1,5 mil km2, São Paulo é a maior metrópole da América Latina e tem desafios tão grandes quanto a sua dimensão. O próximo prefeito, que será eleito com seu voto em 15 de novembro, terá de administrar uma cidade ainda sob os impactos da pandemia do novo coronavírus e com todos os seus desdobramentos. Além disso, é claro, terá de buscar soluções para os velhos problemas de sempre. Veja abaixo algumas das questões que o futuro ocupante do Edifício Matarazzo vai encarar de frente.
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SAÚDE

A saúde quase sempre aparece em primeiro lugar nas pesquisas de opinião sobre quais são os maiores problemas da capital. E essa pandemia colocou o sistema público à prova. No auge do novo coronavírus, em maio, seis hospitais municipais chegaram a ficar sem vagas de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Depois, houve uma queda na ocupação e a situação foi normalizada, mas os reflexos estão longe de acabar. Muitos dos impactos para a saúde da população em função da covid-19 ainda estão por vir – o que vai exigir mais investimento. “Haverá pressão adicional de pessoas que desenvolveram problemas nessa pandemia e vão demandar atendimento de médio e longo prazo”, afirmou o professor de gestão pública da FGV (Fundação Getulio Vargas) Gustavo Fernandes. A tendência de envelhecimento da população (os idosos já são 15% dos moradores da capital) também se mostra como um desafio, pensando na saúde preventiva. “Mais pessoas vão precisar de acompanhamento porque estão ficando mais velhas, mas muitas delas não podem pagar por saúde, já que é um serviço caro.”

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SEGURANÇA

A segurança pública é dever do estado, que é quem controla as polícias, por exemplo, mas o seu bom funcionamento depende de ações diretas e indiretas que são tomadas pelos municípios. A pandemia do novo coronavírus também afeta a segurança pública, principalmente nos seus aspectos mais sociais. O Instituto Sou da Paz criou uma agenda para os candidatos à Prefeitura de São Paulo com seis eixos. Um deles sugere direcionar a GCM (Guarda Civil Municipal) para atender as áreas com maior incidência criminal. Outra proposta mostra que é possível coibir a violência contra a mulher ampliando a rede de creches, assim como criar alternativas de lazer na periferia é uma forma de afastar o jovem da violência. “Estamos habituados a pensar a segurança pública como problema de polícia, um tema cuja influência dos municípios é baixa. É justamente o contrário: estudos comprovam que políticas urbanas de atenção à saúde, educação e moradia tem papel fundamental na prevenção da violência”, disse o gerente do Sou da Paz e coordenador da agenda, Felippe Angeli.

HABITAÇÃO

O centro da capital é exemplo dos extremos da habitação. Nas mesmas calçadas onde dormem famílias sem teto também se erguem prédios cujo metro quadrado vale até R$ 12 mil. Corrigir o desequilíbrio entre o custo da moradia e o valor que a população pode pagar, sobretudo a de baixa renda, é um desafio. “A cada melhoria que a prefeitura leva, o preço sobe. Isso foi escandaloso nos últimos 10 anos e tem jogado a população pobre para a periferia da periferia”, disse a urbanista  Erminia Maricato. A crise econômica trazida pela pandemia só fez piorar. A capital tem 369 mil domicílios precários, como favelas e cortiços, e 207 mil famílias cadastradas em busca de uma habitação. Nos últimos quatro anos, 12,2 mil moradias populares forem entregues – o que é insuficiente para atacar o deficit. Para o urbanista Walter Caldana, o modelo dos programas precisa ser revisto. “No Brasil, investimos em casa barata feita em terreno barato, mas longe da infraestrutura urbana. Precisamos de outros instrumentos, como fazer regularização fundiária, ocupar áreas centrais e facilitar o financiamento.”

EDUCAÇÃO

Alguns dos debates mais intensos e polêmicos sobre os efeitos da pandemia se deram na educação. Quase nada foi resolvido e muitas das questões ficarão como desafios para o novo prefeito. Uma das perguntas é se a infraestrutura das escolas vai garantir que alunos e professores não se contaminem na volta às aulas. A obrigatoriedade do ensino remoto trouxe dúvidas sobre a sua eficácia e descortinou a dificuldade de acesso, já que 40% dos mais de 1 milhão de alunos da rede municipal nem sequer tem internet domiciliar. A crise econômica também está fazendo com que mais alunos saiam da rede privada e peçam vaga na rede pública. O número de transferências cresceu 28% entre abril e junho nas escolas da prefeitura. “As redes precisam estar preparadas para isso, pois haverá um aumento muito rápido da demanda em todas as etapas”, disse o coordenador do Todos Pela Educação, Ivan Gontijo. Outro aspecto agravado pela crise é o abandono escolar. “Os alunos mais vulneráveis deverão buscar o mercado de trabalho para aumentar a renda das famílias, mas as escolas precisam identificá-los e fazer com que fiquem.”

MOBILIDADE

O distanciamento social e as restrições impostas pela pandemia trouxeram, em um primeiro momento, uma imagem bem perto do ideal da mobilidade na capital, com trânsito leve e transporte público confortável, mas isso já passou, pois o relaxamento da quarentena tem feito a cidade retomar o seu ritmo normal. O que ficou são os desafios que a pandemia escancarou. O uso da bicicleta aumentou e também o número de entregadores que a utilizam, o que reforça a necessidade de ciclovias mais conectadas. “O desafio é avançar com essa rede e ir para as periferias”, disse a cicloativista  Aline Cavalcante. Com home office e o medo da contaminação, o transporte público perdeu passageiros e, com isso, caiu a arrecadação, o que aumenta o custo para o governo. A prefeitura, que esperava gastar R$ 2,2 bilhões com subsídios para as empresas de ônibus, deve fechar 2020 com despesas de R$ 3,7 bilhões. “A grande questão é o financiamento do transporte público, já que custa muito caro mantê-lo com poucos passageiros”, disse o engenheiro de transporte Cláudio Barbieri.