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Foco 26/10/2020

Mas afinal, como as eleições dos EUA afetam o Brasil?

Política externa. Ter um bom relacionamento com outros países é tema primordial entre governos. Seja para acordos comerciais ou facilitar mudanças, veja como tudo isso está em jogo

No próximo dia 3, o mundo se volta para saber quem será o próximo presidente dos Estados Unidos. Isto porque a maior economia global continua influenciando mercados.

Entre democratas ou republicanos, pode ser que as relações comerciais com Brasil mudem um pouco. O professor de relações internacionais da PUC-SP e FAAP David Magalhães diz acreditar que, se a reeleição do republicano Donald Trump não for confirmada, algumas pautas se agravem para o governo do presidente brasileiro Jair Bolsonaro.

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“Toda a política externa de Bolsonaro é ancorada no eixo de relações preferenciais com a figura de Trump, nem mesmo o governo norte-americano, mas sim com a figura pessoal de Donald Trump. Então, uma vez que o presidente americano pode sair do poder e a oposição chegar à Casa Branca, isso pode implicar em um asfixiamento e isolamento da política externa brasileira no sistema internacional bastante significativo”, disse.

O cenário se confirma também na opinião da professora de relações internacionais Luiza Mateo. “Uma vitória de Joe Biden [candidato democrata] pode significar um desafio para a ala ideológica do bolsonarismo, que olha para os Estados Unidos como um parceiro privilegiado, fazendo concessões unilaterais e replicando posicionamentos de política externa de Trump, com relação à OMS (Organização Mundial da Saúde) e à China, por exemplo.”

Políticas migratórias

Já para os brasileiros que gostariam de morar nos Estados Unidos, quem ocupará a Casa Branca também decidirá como será o processo burocrático. De acordo com Felipe Alexandre, advogado especializado em imigração e fundador da AG Immigration, a tendência é de que o atual presidente seja mais duro com os latinos.

“Se Trump ganhar a eleição, sabemos que ele tem sido duro com a imigração. A maior parte do seu rancor tem sido direcionado às pessoas que chegam no país através da fronteira e solicitando asilo. Dessa maneira, Trump continuará com muita burocracia. O tempo de resolução dos casos tem alta recorde.”

“Agora, se o Joe Biden ganhar, vamos vê-lo revertendo muito dessas políticas e burocracias. Espero e acho que ele vai reduzir o tempo de resolução dos casos. Acho que vai ser um ambiente mais flexível e mais generoso”, aposta o advogado.

Os impactos

Em entrevista ao Metro World News, o cientista político e professor da FGV Guilherme Casarões explica quais são os impactos das eleições norte-americanas para a política externa brasileira.

“As eleições dos EUA serão o principal divisor de águas para a política externa do governo de Jair Bolsonaro. Uma vitória de Trump será duplamente celebrada em Brasília: ela representa o triunfo não só da estratégia de alinhamento incondicional a Washington, mas também do modelo populista de extrema direita que chegou ao poder ao redor do mundo.

Até aqui, Bolsonaro fez apostas arriscadas na relação com os EUA, realizando concessões unilaterais em troca de promessas incertas, e demonstrando lealdade incondicional ao presidente Trump, chegando a militar abertamente por sua reeleição. Isso, claro, pode ser recompensado num segundo mandato do norte-americano, mas não há qualquer garantia de que esses benefícios venham.

Até aqui, as sinalizações dos EUA mostraram poucos resultados concretos. Por outro lado, a simpatia declarada por Trump, além das posições polêmicas sobre temas como meio-ambiente e a pandemia, certamente afastarão nosso governo de uma eventual presidência de Joe Biden. Nenhum mandatário brasileiro tinha buscado interferir tão abertamente em eleições estrangeiras como Bolsonaro. A

menção de Biden à Amazônia no primeiro debate eleitoral, em tons pouco elogiosos, foi um importante sinal de que os EUA, sob o partido democrata, não vai tolerar desmandos ambientais. Semanas mais tarde, Biden chegou a dizer que mudanças climáticas são uma ameaça existencial aos EUA, o que pode, inclusive, colocar Brasília e Washington em rota de colisão. Para evitar que isso aconteça, é bem possível que Bolsonaro modere o tom de sua até então estridente e controversa política externa”.

Voto indireto guarda o resultado até o último segundo

Apesar do candidato democrata Joe Biden liderar as pesquisas eleitorais norte-americanas, ainda existe a chance de Donald Trump, candidato republicano, se reeleger. Isto porque as eleições dos EUA não usam a contagem absoluta de votos como padrão definitivo. Por lá, o voto é indireto e quando o eleitor deposita sua cédula, ele está destinando seu voto a um delegado, que o representará no Colégio Eleitoral.

Proporcional à população, cada estado norte-americano possui uma quantidade de delegados. A Califórnia, por exemplo, totaliza 55. Já o Maine, quatro. Dessa maneira, os presidenciáveis nos EUA dependem de conquistar, estrategicamente, ao menos 270 de 538 delegados distribuídos entre os estados.

“Para vencer a eleição presidencial, o candidato precisa de ao menos 270 delegados, o que faz com que as eleições sejam definidas estrategicamente pelos estados mais populosos e por aqueles que variam historicamente entre o voto democrata e republicano, os swing states”, explica a professora de relações internacionais Luiza Mateo.

“Em geral, a apuração é rápida por estado, mas a massiva votação por correio neste ano deve alterar o cronograma”, completa.

*Com supervisão de Vanessa Selicani