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/ Divulgação/UFPR
Foco 22/10/2020

Presidente Jair Bolsonaro e governadores travam ‘guerra da vacina’

Bolsonaro pressiona e Ministério da Saúde recua na compra de 46 milhões de doses da CoronaVac. Governadores reagem

Em meio à maior pandemia dos últimos 100 anos e que já deixou mais de 150 mil mortos no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro e governadores travam uma “guerra” em torno da CoronaVac, vacina contra a covid-19 que está sendo desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan.

Se na Revolta da Vacina, em 1904, houve uma rebelião popular em oposição ao imunizante contra a varíola, na “Revolta 2.0” – mais de 100 anos depois – Bolsonaro se rebela contra o próprio governo e outras lideranças políticas. Após o Ministério da Saúde fechar acordo com o governo de São Paulo para comprar 46 milhões de doses da CoronaVac na terça-feira, o presidente criticou a ação publicamente ontem, pressionou internamente e fez com que a aquisição da vacina fosse cancelada.

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O secretário-executivo do ministério, Elcio Franco, informou que “não há intenção de compra de vacinas chinesas”, em pronunciamento ontem pela manhã.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), foi o primeiro a reagir pelas redes sociais. “Peço ao presidente Jair Bolsonaro que tenha grandeza e lidere o Brasil para a saúde, a vida e a retomada de empregos. A nossa guerra não é eleitoral, é contra a pandemia. Não podemos ficar uns contra os outros.” Pouco depois, em entrevista, pediu para Bolsonaro mais “sentimento humanitário”.

Doria não fez pressão sozinho. Os governadores são os maiores interessados na CoronaVac, já que a vacina estava prevista para ser inserida no PNI (Programa Nacional de Imunizações), que tem cobertura em todo o território nacional. O acordo entre o estado de São Paulo e o governo federal para a compra das 46 milhões de doses havia sido firmado em uma reunião virtual entre o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e 24 governadores.

O chefe do Executivo do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), afirmou que “os governadores irão ao Congresso Nacional e ao Poder Judiciário para garantir o acesso da população a todas as vacinas que forem eficazes e seguras. Saúde é um bem maior do que disputas ideológicas ou eleitorais”.

Outros oito governadores se manifestaram em suas redes sociais contra a decisão do governo federal. Entre eles estão Renato Casagrande (PSB), do Espirito Santo, Eduardo Leite (PSDB), do Rio Grande do Sul, e Rui Costa (PT), da Bahia.

Por enquanto…

Na fase três de testes, a CoronaVac é considerada a mais segura até aqui entre os imunizantes apresentados. Dos 9 mil voluntários que tomaram a dose no Brasil, apenas 35% tiveram alguma reação, como dor no local da aplicação ou dor de cabeça. Antes da vacinação começar, o imunizante terá de ser aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Afinal, o que foi a Revolta da Vacina?

A Revolta da Vacina, um dos maiores acontecimentos da história do Brasil, ocorreu em 1904, quando a imunização contra a varíola se tornou o epicentro de embates violentos. O médico Oswaldo Cruz, contratado pelo governo para combater a doença, impôs a vacinação obrigatória contra a varíola para todo brasileiro com mais de seis meses de idade. No entanto, políticos, militares de oposição e grande parte da população do Rio de Janeiro se opuseram ao imunizante. Entre 10 e 16 de novembro de 1904, a população saiu às ruas para enfrentar agentes da saúde e a polícia. “Em 1906, o número de mortes por varíola no Rio havia caído para apenas nove. Contudo, dois anos depois, uma nova e violenta epidemia elevou o número de óbitos para mais de 6.500 casos. A revogação da obrigatoriedade cobrava o seu preço”, diz artigo da biblioteca virtual da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).