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Máscara encontrada em areia de praia / Brian Yurasits/Unsplash
Foco 19/10/2020

Epidemia do lixo: descarte incorreto de máscaras da covid-19 ameaça pessoas e animais

Protetores importantes em nossos rostos, máscaras perdem função e tornam-se ameaça nas ruas, praias e mares; especialistas revelam impactos desta poluição durante pandemia

Além de uma crise sanitária sem precedente no século, 2020 trouxe um novo e inesperado item essencial ao guarda-roupa de todos: as máscaras. Antes limitadas ao uso médico ou em alguns países do leste asiático, elas agora são vistas nos rostos de qualquer um, em qualquer lugar ou ocasião.

Apesar de sua importância para conter a transmissão, este e outros equipamentos de proteção individual também podem se tornar uma ameaça. Quando descartadas sem cuidado, elas não só prejudicam o meio ambiente e colocam em risco os animais, como podem levar a covid-19 para outras pessoas.

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Segundo levantamento da entidade ambientalista internacional Ocean Conservancy, a cada mês de pandemia, o mundo utiliza e joga fora cerca de 129 bilhões de máscaras e 65 bilhões de luvas descartáveis. O aumento súbito na produção de lixo, bem como a dificuldade no manejo de um material potencialmente recheado de vírus, têm gerado uma nova crise.

Em abril, quando a pandemia começava a crescer pelo país, o governo brasileiro comprou 240 milhões de máscaras hospitalares vindas da China. No mesmo mês, o estado de São Paulo encomendou mais 15 milhões destes equipamentos.

A demanda é justificada: o ideal, segundo o doutor em epidemiologia Paulo Petry, da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), é trocá-las a cada duas horas de uso. O tempo de vida destes itens, porém, não acaba ao deixar o rosto do usuário.  As máscaras podem permanecer no meio ambiente por centenas de anos, dependendo dos materiais que a compõem.

Mergulhador recolhe equipamentos de proteção individual descartados no fundo do mar

Mergulhador recolhe equipamentos de proteção individual descartados no fundo do mar

“A margem de tempo para decomposição total é imensa, de dois anos, para materiais menos sintéticos, até 450 anos, no caso de polímeros plásticos”, contam Tiago Bonatelli e Luisa Martins Fagundes, do instituto ambientalista Route Brasil. Isto significa que cada máscara descartada incorretamente pode impactar o ecossistema por séculos: “Muitos mergulhadores já observam o acúmulo de máscaras e luvas no fundo do mar”.

Risco aos animais

Um caso emblemático ocorreu dois dias após o feriado de 7 de setembro, na cidade de São Sebastião, litoral paulista. Uma equipe do Instituto Argonauta de Conservação Costeira e Marinha encontrou um pinguim-de-magalhães morto na areia.

A ave estava muito magra, e uma necropsia revelou uma máscara do tipo N-95 enrolada em seu estômago – o pinguim havia engolido o equipamento, que, em seguida, o impediu de continuar alimentando-se normalmente.

“Animais interagem com os resíduos de duas formas: a ingestão e o emaranhamento”, explica a bióloga Carla Barros, da organização Mar Limpo. “Esses processos levam à morte por intoxicação, obstrução do sistema digestório ou das vias respiratórias e incapacidade de movimento, deixando algumas espécies vulneráveis a predadores.”

Pinguim encontrado com máscara no estômago

Pinguim encontrado com máscara no estômago em São Sebastião, SP

A flora marinha também sofre com acúmulo de lixo. Tiago Bonatelli e Luisa Martins Fagundes relembram que todos os organismos são conectados por relações alimentares: quando um animal ingere um resíduo, como um pedaço de plástico, luva ou máscara, ele deixa de comer as algas do fundo do mar — gerando um desequilíbrio ambiental. “A poluição por acúmulo de resíduos pode alterar o substrato ao se depositar no fundo marinho, destruindo ou alterando o habitat que as algas marinhas crescem”, contam. “Assim como pode gerar barreiras, que prejudicam a passagem de luz solar pela coluna da água, desfavorecendo o crescimento das algas”.

Nesta cadeia de problemas, nem quem vive na superfície fica imune. “Isso é um grave problema”, alerta a bióloga Carla, “uma vez que os plânctons e as algas são os responsáveis pela grande produção de oxigênio na terra”.

Disseminação da doença

Os impactos do descarte incorreto começam muito antes do lixo chegar ao mar. “Alguns estudos indicam que um nível significativo do vírus ainda pode ser detectado na camada exterior da máscara cirúrgica por até sete dias depois do contato”, explica o epidemiologista Paulo Petry.

O risco é maior para profissionais de limpeza urbana e da coleta de resíduos. Mariur Gomes Beghetto, também doutora em Medicina Epidemiológica pela UFRGS, defende que profissionais de coleta e limpeza recebam capacitações, também utilizem equipamentos de proteção e tenham acompanhamento de saúde.

“Na dúvida, é mais seguro tratar todo o lixo recolhido como potencialmente contaminado, uma vez que não é possível discriminar, só olhando, qual embalagem contém descarte de maior risco”, afirma.

Mulher descarta máscara usada no chão

FAÇA SUA PARTE
Existem formas fáceis de garantir que seus resíduos não sigam o mesmo destino das milhares de máscaras e luvas descartadas nas ruas, praias e oceanos ao redor do mundo. Confira algumas dicas de especialistas no assunto:

  1. Tire a máscara pelas alças, sem encostar na parte externa; higienize as mãos antes e depois.
  2. Coloque máscaras descartáveis usadas junto ao lixo do banheiro, que já é considerado “contaminado” para a limpeza urbana. Nunca jogue-as junto ao lixo reciclável!
    Encha o saco de lixo até, no máximo, dois terços da capacidade; quando preenchido, coloque-o dentro de outro saco, e feche tudo com lacre ou nó.
  3. Identifique o saco com uma etiqueta ou caneta, alertando sobre possível perigo de contaminação.
  4. Se houver um caso confirmado de covid-19 em casa, separe todos os resíduos recicláveis por alguns dias antes de entregá-los para coleta; isto possibilita que qualquer vírus existente nos materiais seja inviabilizado antes de chegar a outra pessoa.
  5. Tem caso de covid-19 em casa e mora em condomínio? Vale avisar o síndico, o coletor de lixo ou outro responsável pelas medidas de segurança sobre a chance de infecção pelos resíduos.

*Sob supervisão de Luccas Balacci.