‘Setor privado fará em 5 anos o que público fez em 20 ao negro’, diz José Vicente

Reitor da Universidade Zumbi dos Palmares e líder do Movimento AR vê revolução com ações afirmativas nas empresas

Por Vanessa Selicani - Metro World News

Polêmicas em processos seletivos de órgãos e universidades públicas desde 2000, as ações afirmativas para negros alcançam neste ano também o setor privado. A mais audaciosa delas veio do Magazine Luiza no mês passado, ao iniciar seu programa de trainees voltados apenas para negros. A ação foi denunciada por discriminação a outras raças ao Ministério Público, e o órgão precisou vir a público legitimar o programa.

Na liderança das novas práticas para incluir o negro está o Movimento AR, coordenado pelo reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente. O grupo surgiu em junho, um mês após a morte do norte-americano George Floyd, sufocado pelo joelho de um policial branco e que acendeu a fagulha de movimentos pela vida negra em todo o mundo com suas últimas palavras: “Eu não posso respirar”. Em entrevista ao Metro World News, Vicente conta o que tem sido feito para reduzir diferenças sociais entre negros e brancos.

O que é o Movimento AR e por que foi criado?
Vamos completar 90 dias de vida. A preocupação central era o profundo grau de exclusão do jovem negro, seja no mercado de trabalho, no espaço cultural e social, além da relação com a polícia. Tínhamos o caso dos nove meninos levados a morte pisoteados no baile funk em Paraisópolis, na cidade de São Paulo [em dezembro do ano passado]. É grande o número de jovens negros mortos pela polícia.

Tudo isso tinha chegado numa situação que nosso grupo de professores, núcleos de estudos e grande parte das instituições de direitos humanos se colocaram preocupados. O discurso de ódio é muito intenso no governo. Com isso, aumentou o grau de hostilização e violência e o jovem negro é o principal alvo. Dentro de uma perspectiva de 12 milhões de desempregados, quase 70% são negros. A compreensão era a seguinte: se a gente não se levantar para denunciar e construir uma agenda para minimamente atacar os focos dessas ações, seremos coniventes.

Os números são terríveis: cerca de 70% dos jovens que abandonam as escolas no ensino médio são negros. Coincidentemente, quando começamos as interlocuções ocorreu o episódio George Floyd. O que estava caminhando ganhou o reforço da opinião pública e criou necessidade de posicionamento.

O que significa o nome Movimento AR?
Movimento AR, Nós Queremos Respirar. Ele partiu do pressuposto de que temos um joelho invisível que está na jugular de todo negro neste país. E esse joelho se manifesta na ação da polícia, no racismo estrutural, no ambiente de trabalho, da cultura. Logo, para alcançarmos esse objetivo de ser país com tratamento igualitário, seria necessário tirar esse joelho do pescoço do negro e permitir que ele respirasse.

Quais são as propostas?
São 10 ações, que vão desde o fim da violência policial, mercado de trabalho, qualificação de pessoas e instituições sobre as dimensões do racismo, implantação da história do negro em sala de aula. Também pensamos em cidades que contemplem o negro. Em vez de derrubar estátuas, colocar as dos negros também. Ao mesmo tempo criar fundo para poder minimamente ajudar os jovens.

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O que já tiveram de efetivo?
Ao longo de três meses, nas interlocuções com as empresas e instituições, tivemos algumas vitórias. Pequenas, mas significativas. Primeiro foi fazer com que grande parte da sociedade civil se colocasse de pé a favor do tema. Até então, números sempre estiveram aí e ninguém se levantava da cadeira. Segundo, estimulamos também o ambiente empresarial a revolucionar suas atitudes.

A ponto de chegarmos ao caso da Luiza Trajano, que faz parte do movimento. Ela é a madrinha, praticamente. Tanto o Magazine Luiza como Google, Ambev, todas essas empresas que lançaram medidas a favor do negro, são as que já discutiam com a gente. Cobrávamos que elas precisavam dar o exemplo para a mudança. Com tudo isso, nos últimos 90 dias, Brasil sofreu transformação no tema que nunca havia acontecido.

Esperavam movimento forte de questionamento sobre o programa do Magazine Luiza?
A gente esperava porque o ambiente político está muito contaminado com esse olhar de que o governo precisa ser generalista, ter agenda de costume, com recorte educacional focado em meritocracia e total ignorância de qualquer reivindicação de minorias.  Já se sabia que os bolsonaristas teriam posicionamento contrário.

Mas era esperado também que grande parte dos brasileiros sairia em defesa. Esse tema é requentado, de se discutir racismo, oportunidade, se é justo, legítimo. O debate foi feito 20 anos atrás. Disso resultaram as ações afirmativas, as cotas. O Supremo já disse que é constitucional.

Esse movimento entre as empresas deve continuar?
Agora, Magazine Luiza construiu um paradigma. Só se pode falar em inclusão a partir de ação objetiva no limite do Magazine Luiza. Qualquer coisa fora disso já está atrasado. Ele ergueu a régua e depois um conjunto de outras empresas veio atrás. A Bayer anunciou também, a Vivo. Mais 30 outras empresas saíram em anúncio público apoiando a medida. O Magazine Luiza definiu o novo normal.

O país agora deu um salto e vai andar muito mais rápido. Porque as conquistas até aqui se devem a esforço do governo no espaço público. O ambiente privado tinha ficado em cima do muro. Mas a gente não tinha dúvidas que, o dia que as empresas entrassem para essa agenda, a gente mudaria o país. Foi o que aconteceu. O que mudamos em 20 anos com o governo, vamos andar em 5 anos, 10 vezes mais com as ações afirmativas no setor privado.

Por que Brasil não se indignou com a morte de um negro como ocorreu nos EUA?
Somos país estruturado na violência. Nossa gênese é a violência, matar os índios e escravizar os negros e subjugar a mulher, a negra, a indígena, a imigrante. Na maioria das vezes, com omissão do estado e referendado pela família. Se constituiu um ecossistema em que a violência é a força predominante.

O que você diria para pessoas que não reconhecem o movimento negro?
Diria para que tivessem a honestidade de seguir o pressuposto da validade da verdade. Que é o seguinte: contra os fatos, não há argumentos. Olhe ao seu redor. Nós somos um povo miscigenado de negros e brancos. Veja quantos negros estão ao seu lado. Se não tem nenhum, temos problema muito grave. Segundo, um dos processos de maior valor foi a conquista científica.

Ela comprova pelas estatísticas a distorção e manifestação desse racismo. As pesquisas de todas as instituições no mundo dizem que há grupos sociais que se colocam como superiores. Em síntese, leia os sinais da vida e também o que diz a ciência.

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