'Preocupante’, diz infectologista da Unicamp sobre adiamento da volta às aulas em SP

Segundo especialista, o país precisa procurar saídas próprias para a pandemia, já que não aprendeu com a experiência do resto mundo

Por André Vieira - Metro World News

Com a justificativa de que é preciso ter “ainda mais segurança”, o governo do estado decidiu adiar a expectativa de retomada das aulas presenciais nas escolas públicas e privadas de São Paulo em meio à pandemia do novo coronavírus. Inicialmente prevista para 8 de setembro, a volta está planejada para ocorrer agora só a partir de 7 de outubro.

Infectologista da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, Raquel Stucchi diz ver o adiamento “com muita preocupação” – primeiro porque enxerga condições para a retomada, desde que protocolos sejam seguidos, e também pelo papel social da escola.

“O retorno não é só a volta da atividade de aprendizagem. Significa o retorno do convívio, da interação social e, para algumas famílias, a garantia de alimentação adequada para as crianças.”

A infectologista disse que a discussão – que tem movimentado autoridades, profissionais e os pais dos alunos – tem sido centrada na experiência dos europeus, mas que o Brasil, “em nenhum momento, se aproveitou das lições do que se fez de certo ou errado lá fora”.

Raquel afirmou que o retorno das aulas na Europa se deu “com a curva [de casos de covid-19] lá embaixo” e que essa condição não deverá se repetir no Brasil. Além disso, lembrou que o país flexibilizou a economia com a curva em ascensão, o que também não se viu no exterior.

“Se flexibilizamos a economia à la Brasil, devemos planejar o retorno das aulas à la Brasil também. Nesse mês de agosto, já seria o momento do planejamento do que é necessário para a retomada das escolas públicas e privadas.”

A infectologista afirmou que o retorno é possível desde que regras sejam seguidas. “E não acredito que falte verba para isso na rede pública, que deve voltar ao mesmo tempo que a rede privada.”

Além dos protocolos básicos de higiene e distanciamento, Raquel diz que é preciso dar aos pais o poder de decidir se querem ou não levar os filhos à escola e que a aprovação seja automática.

“O retorno deve ser por grupos e sempre com o mesmo grupo de alunos, pois caso um apresente sintomas, dá para saber o grupo que ele pertence. Se misturar, perdemos a capacidade de rastrear.”

Segundo Raquel, o que favorece a transmissão é a “aglomeração”, independentemente de ser uma escola ou não, por isso que o rodízio de entrada e saída das turmas e também das atividades dentro da escola é fundamental para o retorno seguro.

“Quem ainda está em casa nessa quarentena são as crianças e os adolescentes. Os adultos estão há semanas saindo para trabalhar. Então, elas já tiveram contatos eventuais com o vírus que os adultos possam ter trazido para a casa”, disse a infectologista.

Retomada presencial das aulas exigirá uma readaptacão de toda comunidade escolar, professore,s colaboradores e alunos, como essa garota da imagem, que usa máscara e mochila nas costas. Freepik

Volta em setembro será opcional

Embora preveja o retorno das aulas presenciais só em outubro, o governo vai permitir que as instituições que estiverem em regiões na fase 3-amarela há mais de 28 dias possam reabrir no dia 8 de setembro. Esse retorno será opcional e deve ser feito em consulta com a comunidade escolar – e ainda vai depender da decisão de cada cidade. O governo tem chamado essa abertura inicial de fase 1, e vai permitir apenas atividades de acolhimento, para recuperação e para exercícios físicos, entre outros, e deve priorizar os alunos que têm dificuldade para fazer as tarefas remotas ou que estejam com problemas emocionais. Segundo o secretário de estado da Educação, Rossieli Soares, as escolas estaduais estão preparadas para voltar. Foram comprados 12 milhões de máscaras, 300 mil face shields, 10 mil termômetros e 10 mil totens de álcool em gel. Os alunos também receberão kits individuais de higiene. 

Poucos países reabriram

O tema de reabertura das escolas tem rendido debates e polêmicas no mundo inteiro. Com exceção de alguns poucos países que nunca chegaram a fechar as escolas, como a Suécia, poucos também reabriram totalmente os colégios, como Austrália e França. A maior parte segue com o serviço suspenso. Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), 1 bilhão de alunos (60% do total) está sem aulas presenciais.

A Europa voltou a ter aumento de casos, mas não se sabe com certeza se há relação com o retorno parcial dos colégios, já que as escolas fecharam novamente para férias e restaurantes e praias estão abertos.

Nos Estados Unidos, estados como Nova York e Flórida retomarão aulas presenciais, mas cidades como Los Angeles e San Diego continuarão com ensino remoto.

“Estamos diante de uma situação de extrema complexidade”, classificou a representante da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) no Brasil, Marlova Noleto. “Quanto maior o tempo que os alunos passarem fora da escola, maior o risco de eles não voltarem. Mas claro que precisamos salvar vidas.” Metro com Estadão Conteúdo

Transmissão entre crianças é mais baixa

Estudos de casos na China, Austrália, Finlândia, Irlanda e Espanha indicam que as crianças não transmitem o novo coronavírus tanto quanto os adultos.

As pesquisas fazem referências diretas às escolas, com títulos como “a criança não é culpada” e concluem que as instituições de ensino têm baixo risco de contaminação.

Foi baseada em levantamentos dessa natureza que a Sociedade Americana de Pediatria pediu o retorno às aulas nos Estados Unidos.

Na Irlanda, seis crianças e adultos contaminados com covid-19 foram monitorados por 14 dias. Eles tiveram contato em escolas com mil outras crianças e cem adultos. Ninguém foi infectado.  Metro com Estadão Conteúdo

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