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Veja os livros cobrados em vestibulares que ajudam a entender o mundo

“Um clássico é um livro que nunca terminou de contar o que tem a dizer”. A afirmação é do italiano Ítalo Calvino, considerado um dos mais importantes escritores europeus do século 20 – morto em 1985. Para o autor de “As Cidades Invisíveis”, sempre estamos em um processo de leitura e releitura dessas obras, pois elas instigam, questionam, ensinam e se insinuam a cada leitura.

Inspirado pela iluminação literária do célebre escritor italiano, Daniel Medeiros, professor de literatura do COC de Atibaia (SP), a pedido do Metro Jornal, recomenda e comenta uma lista de livros que, além de serem leituras obrigatórias para os principais processos seletivos do país, são indispensáveis para pensarmos o ser humano e suas aflições no mundo.

De acordo com o professor, os conselhos fundamentais quando tratamos de obras literárias são: contextualização e intertextualidade. Primeiro, é preciso ler a obra dentro do seu contexto social e político. “A dica aqui é: enfrente a obra”. E, para fazer isso, não basta ler os livros, é preciso analisá-los.

“Feita a leitura, busque entender em qual período histórico e social ela foi escrita, e quais são as características centrais do autor”, sugere Medeiros. Isso, de acordo com o professor, ajuda a evitar o anacronismo.

Uma leitura desatenta, para ele, pode levar a colocar na obra hipóteses que não lhe competem ou conclusões que vão além da sua marca temporal. E tem mais: não esqueça de atentar-se para a intertextualidade.

“Os grandes vestibulares pensam a obra sempre como uma produção que conduz a outros assuntos”, observa o professor. Ou seja, não pense a obra como fechada em si mesma, busque entender como ela dialoga com outras matérias. Por exemplo, o clássico “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, pode trabalhar questões de geografia; “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, pode dialogar com temas da sociologia.

“É importante entender que o conhecimento funciona como ramificações onde todos os assuntos podem se relacionar”, explica Medeiros. “É através desses dois aspectos [contextualização e intertextualidade] que as informações amadurecem, tornando-se conhecimento, e podem ser aplicadas nos vestibulares, nas redações (em forma de estrutura argumentativa) e na vida (como reflexão sobre o viver em sociedade e ser crítico)”, complementa.

Ele adverte ainda que resumos e filmes ajudam, mas não substituem a leitura do texto original e na íntegra.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS – Machado de Assis

O romance é considerado inovador por romper com a narrativa linear da cena literária da época. Na história, contada em primeira pessoa, o narrador conta sua vida depois de morto. “Com fina ironia e destreza de escrita, Machado de Assis traz reflexões sobre a eterna luta entre ser e parecer, essência versus impressão que buscamos causar nos outros”, comenta o professor Daniel Medeiros. A obra completa está disponível em PDF para download gratuito em: http://machado.mec.gov.br.

O CORTIÇO – Aluísio Azevedo

Se em “Memórias Póstumas” temos um panorama da elite carioca do século 19 na figura de Brás Cubas, em “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo (lançado, em 1890), faz, de forma metódica, uma análise do homem do subúrbio do Rio, conta Medeiros. “O personagem central na obra é o próprio cortiço que (de)forma aqueles que ali moram. O livro levanta a discussão sobre a influência do meio sobre o homem”. Essencial para entender o Brasil do século 19.

A CIDADE E AS SERRAS – Eça de Queirós

Em “A Cidade e as Serras”, publicado em 1901, último livro de Eça de Queirós, o personagem Jacinto traz uma hipótese para o tédio do homem moderno, já descrito em obras anteriores do autor (Padre Amaro em “O crime do Padre Amaro”, Jorge em “O Primo Basílio”, ou Carlos da Maia em “Os Maias”). Mostra uma percepção romântica que acompanhou o desenvolvimento tecnológico do início do século 19.

SAGARANA – Guimarães Rosa

A linguagem, os dizeres do sertanejo e o realismo fantástico de Guimarães Rosa fazem desta leitura uma viagem para uma Minas Gerais que todo brasileiro tem enraizada em sua alma, diz Medeiros. “Buscar entender Guimarães é um exercício de tentar se entender”. A dica do professor é prestar atenção nas várias “travessias” existentes nos nove contos que compõem o livro. Da força para a sabedoria, do mal para o bem, da vida para a morte, do natural para o sobrenatural, entre outras. “Guimarães usa o rio como metáfora para as várias margens que precisamos enfrentar durante a vida”.

MAYOMBE – Pepetela

Esse clássico da literatura africana, de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela), publicado em 1980, traz uma análise da Angola dos anos 70. O autor demonstra que, na luta revolucionária, havia uma luta também dentro de cada rebelde, diz Medeiros. “Suas dúvidas, seus ideais que muitas vezes batiam no duro muro da realidade, a aspereza da vida e a esperança de que haveria ali um propósito maior”. Atenção especial para Sem Medo, personagem que faz reflexões profundas sobre o que é “ser no mundo”, e para a floresta, personagem que forma uma nova percepção de homem para uma nova Angola.

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