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Delações trazem incerteza sobre candidaturas em Minas nas eleições de 2018

As delações premiadas da Odebrecht e da JBS, além da abertura de investigações na Justiça contra peixes grande da política não ficaram restritas apenas no plano nacional, e também caíram como uma bomba sobre a classe política mineira. Diante de tantas acusações, os partidos buscam se descolar de nomes tradicionais e alçar novas lideranças para disputar o Executivo. Além do governador Fernando Pimentel (PT), que deve tentar um segundo mandato, pelo menos quatro nomes ganham peso entre os dirigentes – todos inéditos na campanha estadual.

Após comandar a prefeitura de Belo Horizonte por oito anos, Marcio Lacerda (PSB) é unanimidade entre os socialistas que defendem uma candidatura própria. Em conversa com o Metro Jornal, o ex-prefeito da capital confirmou a preferência. “Falta muito tempo para as eleições, o cenário ainda é incerto tanto na economia quanto na política, mas já possível começar a desenhá-lo. E um ex-prefeito de BH é candidato natural ao governo do Estado”, enfatizou. Conforme Lacerda, o partido já iniciou as discussões. “Vamos ver quais alianças são possíveis construir e o que a população pensa sobre esse atual momento”, contou.

Mas o caminho para Lacerda não é tão simples quanto parece. Contra ele pesa a citação de dois delatores da Odebrecht. Ambos denunciaram o recebimento de vantagens indevidas de R$ 3 milhões pelo político. O pedido de investigação foi enviado à Justiça Federal em Minas e o ex-prefeito negou qualquer irregularidade.

Pelo lado tucano, o desafio é tentar se descolar da imagem deixada por Aécio Neves (PSDB) e os escândalos que envolvem ele e sua irmã. No partido, o discurso é de independência do senador, que foi responsável pela palavra final nas decisões políticas no Estado. Nas duas últimas eleições, ele foi fiador das candidaturas de Pimenta da Veiga, que perdeu no primeiro turno para Pimentel, e do deputado João Leite, derrotado por Alexandre Kalil (PHS). “Nesses últimos anos, vínhamos nos acomodando. E nisso eu culpo o partido como um todo. Talvez por excesso de lealdade, a maioria ficava omissa aguardando uma decisão do Aécio. Em 2014, por exemplo, ele já estava muito focado na disputa presidencial”, apontou o presidente do PSDB em Minas, Domingos Sávio.

O deputado federal garantiu que os tucanos terão candidatura própria, apesar de uma ala do partido defender o nome de Dinis Pinheiro (PP), que na última eleição disputou como vice-governador na chapa encabeçada por Pimenta. “Estamos em um momento novo e precisamos compreender que a população quer uma nova forma de fazer política. A estratégia do partido é voltar para as suas bases e construir um ambiente para resgatar Minas”, explicou Sávio. “O Dinis Pinheiro é um bom aliado, mas não faz parte do PSDB, pelo menos até o momento. Nos temos várias opções, desde o senador Antonio Anastasia até deputados federais e estaduais. Todos são nomes limpos e qualificados”, disse. Deputado estadual por cinco mandatos, Pinheiro também recebeu apoio do presidente estadual do PTB, Dilzon Melo, além de partidos como Solidariedade, o próprio PP e de parte do PSB.

Conforme Domingo Sávio, a situação é difícil para todas as legendas e os tucanos não podem ficar presos a uma ou outra liderança. “Confiamos e esperamos que o Aécio possa se defender, mas o partido continua a sua vida”, diz.

Novas lideranças

Após figurar como uma das novas lideranças políticas no Estado, o prefeito de Betim, Vittorio Medioli (PHS), também vem ganhado força para ocupar Cidade Administrativa. Distante das denúncias de corrupção e visto como técnico, o prefeito tem uma trajetória respeitada no meio empresarial e se fortalece como alternativa. Para interlocutores próximos, Medioli disse que sua preocupação nesse momento é com Betim. No mês passado, o político chegou a se reunir com o vice-governador Antônio Andrade (PMDB), que tem se sofrido constantes desgastes com o Pimentel. Porém, o prefeito ainda é pouco conhecido no interior e faz parte de um partido que tem pouca expressividade no Estado  possui apenas um deputado estadual.

Rompido com PT

Durante uma visita a Uberlândia, no Triângulo Mineiro, Andrade confessou o rompimento da aliança com o governador de Minas. De acordo com o peemedebista, a decisão tem o aval do diretório estadual do partido, do qual é presidente. “Eu não faço parte do governo por vários motivos. Primeiro porque aquilo que nós combinamos durante a campanha não foi cumprido. O Estado está parado, não há desenvolvimento. O governador tem declarado que não fará as reformas que precisam ser feitas e o Estado não cresce, tendo diminuído cada vez mais a importância no cenário nacional”, afirmou.

Investigado na Operação Acrônimo por corrupção e lavagem de dinheiro, além de citado nas delações da Odebrecht e da JBS por ter recebido propina enquanto ministro de Desenvolvimento e Comércio Exterior no governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), Pimentel recebeu críticas do ex-aliado, que citou os impasses políticos e as várias denúncias. “Como vice-governador, tenho que estar preparado a todo momento para assumir o governo e o vice só é bom quando está preparado. Eu estou, se a Justiça assim determinar”, explicou. Posicionamento parecido foi adotado pelo então vice-presidente Michel Temer (PMDB) nas vésperas do impeachment da petista.

O secretário de Estado de Governo, Odair Cunha, viu com estranheza a fala de Andrade. “Nossas relações políticas com o PMDB de Minas Gerais sempre foram sólidas e em prol do desenvolvimento do Estado. Temos posições distintas ao governo Temer que não promove o acerto de contas de Minas com a União, processo fundamental para sanar as contas do Estado e municípios”, alfinetou.

Caso a pressão por uma candidatura independente prevaleça, o nome que ganhou expressão recentemente na cúpula mineira do PMDB é o do deputado federal Rodrigo Pacheco. Figura desconhecida até a eleição para a prefeitura da capital, Pacheco ganhou projeção ao longo da disputa e chegou a ficar em terceiro lugar, com mais de 118 mil votos, vencendo até mesmo o candidato de Lacerda, Délio Malheiros (PSD).

Já o líder do governo na Assembleia, Durval Ângelo (PT), foi enfático sobre Andrade: “pensei que ele já tivesse rompido. Melhor, nunca foi do governo”, declarou. Segundo o parlamentar, Pimentel vai disputar um novo mandato pelo partido. “A última pesquisa mostra que ele é o mais forte. Agora, o Toninho [vice-governador] não fala para ninguém e por ninguém. Ele tem minoria na executiva e no diretório mineiro do PMDB”, acusou.

Desgaste da política

Para o cientista político e pesquisador do Centro de Estudos Legislativos da UFMG, Lucas Cunha, o envolvimento de lideranças com denúncias de corrupção provocou um vácuo político no Estado. “A reputação deles ficou comprometida e, em alguns casos, foi até recomendado o encerramento da carreira política. Isso é muito prejudicial para Minas, uma vez que diminui a credibilidade de toda a classe política”, argumentou.

Conforme o especialista, essa situação pode levar ao fortalecimento de figuras radicais, seja da esquerda ou da direita. “O candidato vem com um discurso salvacionista, de que vai acabar com a corrupção e rejeitar a política. Isso é muito perigoso, já que nela é construído o espaço do conflito e da busca soluções”, finalizou Cunha.

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