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Escolas de Belo Horizonte têm uma vítima de violência a cada hora

Era um dia normal de aula. Entre cadernos, livros e o quadro de giz, Ana Flávia Ribeiro ensinava sobre números para as crianças do maternal. Do lado de fora, um aluno de oito anos subia as grades de proteção da escola. Devido ao risco de um acidente, a pedagoga foi até o local e insistiu para que o menino descesse. Finalmente no chão, o estudante deu um tapa no rosto da professora. “Foi tão forte que os dedos dele ficaram em mim”, contou.

Em um ambiente onde o respeito deveria prevalecer, esse tipo de cena não é uma excessão. De acordo com dados da Seds (Secretaria de Estado de Defesa Social), pelo menos um caso de violência é registrado por hora nas instituições públicas e particulares de ensino em Minas Gerais.

Entre janeiro e novembro do ano passado, foram mais de 9,3 mil ocorrências nas escolas do Estado. E os crimes cometidos são os mais diversos: agressão, ameaça, lesão corporal, injúria, difamação e calúnia. Por conta do trauma, Ana Flávia precisou se afastar por um ano das salas de aula. O caso,  que aconteceu em uma escola de alto padrão de Belo Horizonte, foi minimizado pela direção, conforme a pedagoga. “Disseram que não podiam fazer nada, já que quem pagava o meu salário era o pai do aluno”, disse.

Para a doutora em antropologia social, Sandra Tosta, a sociedade atual é complexa e exige novas práticas e métodos no ambiente escolar. “As instituições permanecem com uma experiência muito ultrapassada, enquanto os alunos estão vivendo um outro tipo de mundo”, apontou. Conforme a especialista, os professores acabam sofrendo mais por conta do convívio diário e da relação mais próxima. “Com os colegas de sala, os conflitos também existem, mas as diferenças são mais marcantes na relação com o professor”, explicou.

 

Situação no país

Em todo o Brasil, mais de 22,6 mil professores foram ameaçados por estudantes e outros 4,7 mil sofreram atentados à vida dentro das escolas que lecionam, segundo o questionário da Prova Brasil 2015. Outros 12 mil profissionais disseram que estudantes foram encontrados nas dependências da escola com facas, canivetes e até arma de fogo.

A professora Denise Teixeira também passou a fazer parte das estatísticas. “Um estudante partiu para cima de mim e para não ter um problema maior eu o imobilizei. Tive que segurá-lo mesmo”, contou. E a violência não é restrita aos profissionais. A pesquisa, que ouviu 262 mil professores, mostrou que 71% dos entrevistados presenciaram agressões físicas e verbais entre os alunos. “Dentro da sala de aula, um estudante pegou a cadeira e tentou jogar no colega. Eu peguei a cadeira no ar”, comentou Teixeira.

Sandra Tosta aponta que as instituições de ensino deveriam abrir as portas para as famílias e não falar somente sobre os problemas. “A escola precisa mergulhar mais nesse mundo, trazendo para junto de si a tarefa de educar as famílias”, finalizou.

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