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Foco 30/04/2015

‘Cães já estavam alterados’, diz cinegrafista atacado durante protesto

Luiz Carlos de Jesus foi mordido por um cão da raça pit bull na parte interna da perna direita, enquanto gravava imagens da confusão | Reprodução/Band

Luiz Carlos de Jesus foi mordido por um cão da raça pit bull na parte interna da perna direita, enquanto gravava imagens da confusão | Reprodução/Band

“Os cachorros já estavam alterados por causa dos barulhos das bombas”, segundo o cinegrafista da Band, Luiz Carlos de Jesus, mordido por um pit bull durante um protesto de professores, em Curitiba, na última quarta-feira. “Parecia que, se soltassem os cães, eles morderiam qualquer um, até mesmo os policiais”, falou durante o programa “Café com Jornal” nesta quinta-feira.

A ação da polícia durante a manifestação, inclusive, pode motivar os professores a processar o governo do Paraná (leia mais abaixo)

O cinegrafista contou que não pode afirmar que os animais receberam ordem para mordê-lo. “Já fiz reportagens sobre esses cachorros e eles são muito bem treinados. Então se eles receberem ordem, os cães vão atacar”.

Luiz Carlos de Jesus foi mordido por um cão da raça pit bull na parte interna da perna direita, enquanto gravava imagens da confusão. Na mesma ação, outro cão do polícia, um pastor alemão, mordeu a mão de um deputado.

Encaminhado a um hospital da região, Luiz Carlos tomou uma injeção antitetânica e foi medicado. Ele deve ficar em repouso para a recuperação, já que este tipo de ferimento não pode ser suturado por causa de bactérias na boca do animal.

 

Caso foi exceção 

Também entrevista pelo “Café com Jornal”, o treinador de animais Jorge Pereira afirmou que o pit bull é um ótimo cão de guarda e o que houve foi uma exceção, uma fatalidade. “Ele foi bem treinado e fez o trabalho, tanto que quando o policial dá a ordem, ele larga a coxa e volta para seu estado de tranquilidade.”

O que aconteceu durante a manifestação, de acordo com Pereira, foi causado pelo raio do cachorro, que estava muito próximo dos cinegrafistas. “Foi uma soma de situações erradas. O cinegrafista entrou no raio do cão, que é a extensão da guia, e acabou sendo atacado porque eles estavam alterados pelo tumulto que acontecia no local”.

Para Pereira, “essa raça é selecionada justamente por não se assustar frente a uma multidão e por ter coragem. Mas o ideal é que não ocorra isso porque, nas manifestações, são pessoas do bem, dos dois lados”.

“O cão é uma arma que deve ser bem manuseada e é importante evitar o confronto com esses animais”, finalizou o treinador.

Mordida potente 

O repórter cinematográfico disse que não conseguia se livrar boca do animal, conhecido por sua mordida potente, que pode chegar a 200 kg. “Minha perna não saia da boca do pit bull e ele só soltou quando o policial deu o comando”, lembrou.

Sangrando muito, o cinegrafista foi carregado para dentro da Alep, onde foi socorrido. Segundo Jesus, o atendente disse que ele deveria “agradecer a Deus”, porque se tivesse sido atingido três centímetros mais profundamente sua artéria femoral teria sido perfurada, com sério risco de morte.

Professores estudam ir à Justiça contra representantes do governo do Paraná

Em greve desde a última segunda-feira (27), os professores da rede estadual do Paraná definem nesta quinta-feira (30) que medidas vão tomar para responsabilizar o governo do estado e o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Ademar Traiano (PSDB), pela ação policial que, na véspera, deixou 170 manifestantes e 20 policiais feridos. Entre as ações avaliadas pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado do Paraná, está acionar a Justiça contra o governo paranaense.

“Ainda estamos tentando absorver o massacre, mas também estamos nos organizando para definirmos nossas próximas ações. É um dia difícil, pois estamos atendendo a feridos, orientando os companheiros que foram detidos e atuando em várias frentes para obtermos as informações e a provas necessárias para os encaminhamentos”, disse a secretária-geral do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado do Paraná, Vanda do Pilar Bandeira.

Vanda disse ainda que o sindicato já está tratando do assunto com integrantes das comissões de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), com o Ministério Público e com a Defensoria Pública estaduais. “Convidamos representantes de organizações e segmentos que defendem os direitos humanos para definirmos uma ação coletiva para denunciar e tomar as medidas judiciais cabíveis contra o governador [Beto Richa], contra o secretário de Segurança Pública [Fernando Francischini] e contra o presidente da Assembleia Legislativa”, acrescentou Vanda, lamentando a postura do governador.

Na quarta (29), o governador do Paraná, Beto Richa, disse, em entrevista coletiva, que os policiais reagiram à provocações de algumas pessoas que estavam na praça. “Sete black blocks foram presos. Os policiais, ao serem afrontados por esses baderneiros e black blocks, reagiram, em uma proteção natural de sua integridade física”.

Para a representante do sindicato, no entanto, o governador poderia ter contido a violência. “Ele não assumiu seu papel de chefe da Polícia. Ele poderia ter parado com toda a violência, que foi extremamente desproporcional. Entendemos a função da polícia de proteger o patrimônio público, mas, em momento algum, ameaçamos esse patrimônio”, afirmou a sindicalista.

Apesar das críticas ao governador e de tornar pública a intenção de acionar a Justiça, o sindicato diz acreditar na via da negociação para derrubar o projeto de lei que altera as normas da previdência pública estadual, aprovado pela Assembleia Legislativa em meio ao tumulto que acontecia do lado de fora, na Praça Cívica.

“Vamos pedir ao governador para não sancionar esta lei. Queremos continuar o debate com o governo, pois a mudança na previdência não contempla todos os servidores e, se aprovada, prejudicará cerca de 30 mil servidores”.

Vários atos de repúdio aos excessos policiais estão previstos para acontecer hoje. Uma primeira concentração aconteceu esta manhã, na Praça 19 de Dezembro, próxima ao Centro Cívico. Outra está agendada para o início da tarde, em frente ao Banco Central.

O Ministério Público do Paraná instaurou procedimento para apurar as responsabilidades por eventuais excessos de policiais na repressão aos professores. Já a Polícia Civil instaurou inquérito para apurar os fatos e a possível participação de pessoas estranhas aos professores no ato e no início do tumulto. A Secretaria de Segurança Pública lamentou o episódio, garantindo ter orientado os responsáveis pela operação para evitar a violência e o confronto.