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Entenda a briga sindical que deixou você a pé

A disputa pelo poder no Sindmotoristas (sindicato dos motoristas e cobradores) é o principal motivo para os dois dias de caos que São Paulo viveu. Liderado pelo ex-presidente da entidade Isao Hosogi, o grupo aproveitou a campanha salarial para tentar enfraquecer a atual diretoria, que assumiu em setembro do ano passado.

Segundo Edmilson da Silva, um dos sete motoristas apontados como líderes do movimento grevista, o motivo da greve é salarial. Ele afirma que o sindicato aceitou o reajuste de 10% oferecido pelas empresas sem consultar a categoria. “Foram apenas 4 mil que votaram na assembleia e nós somos em 37 mil” Queremos pelo menos 15%”, disse Silva.

Para parar a cidade, os grevistas furaram pneus e tiraram chaves de ônibus que ainda estavam circulando. Segundo a SPUrbanus, que representa as empresas de ônibus, cerca de 4 mil coletivos ficaram parados pelas ruas e avenidas da cidade ontem.

O secretário dos Transportes, Jilmar Tatto afirmou que homens armados obrigaram pelo menos 15 motoristas a parar o ônibus e entregar as chaves ontem nas regiões de Grajaú, Valo Velho e Jardim Cocaia, na zona sul, e Cidade Tiradentes, na zona leste.

A disputa pelo poder no sindicato dos motoristas é antiga e se acirrou no ano passado. Em julho, o candidato da oposição José Valdevan, conhecido como Noventa,  organizou o bloqueio de 17 dos 29 terminais de ônibus da cidade.

A eleição para a presidência da entidade, em setembro, foi marcada por cenas de violência. Os dois grupos rivais entraram em confronto. Houve troca de tiros e oito pessoas ficaram feridas.

O MP (Ministério Público) e a Polícia Civil de São Paulo informaram ontem que estão investigando a eventual responsabilidade de sindicalistas, motoristas e cobradores grevistas que pararam ônibus e bloquearam terminais. O MP também instaurou inquérito para apurar se a PM (Polícia Militar) foi omissa por não desbloquear vias e garantir a circulação de ônibus.

O comandante da PM, coronel Benedito Roberto Meira, negou que a corporação tenha sido omissa e disse que policiais foram deslocados para reforçar a segurança nas estações de metrô e da CPTM.

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Análise

Rafael Acaldipani – Professor da Escola de Administração da Fundação Getulio Vargas

‘Justiça e prefeito foram omissos’

A crise enfrentada pelo paulistano nos dois últimos dias é consequência da omissão da Justiça do Trabalho, do prefeito Fernando Haddad (PT) e de seu secretário dos Transportes, Jilmar Tatto. No caso da Justiça, ela já deveria ter se pronunciado sobre a paralisação logo nas primeiras horas. E precisaria punir o Sindicato dos Motoristas e Cobradores. Se há uma dissidência na entidade, como foi divulgado, não é a população que deve pagar por isso.

O passageiro de ônibus não tem nada com as disputas internas da categoria. Prefeito e secretário agem de forma equivocada, mais uma vez, quando transformam uma questão social em caso de polícia. A saída mais fácil na atual crise é culpar a Polícia Militar, questionar por qual razão os policiais não agiram contra os grevistas. O que temos é uma questão política. Ambos tinham a obrigação de monitorar as negociações realizadas entre os trabalhadores e o sindicato patronal. Ter conhecimento da divisão dentro categoria. A bomba, agora, está no colo do prefeito. Nesse quadro, ainda há uma total irresponsabilidade dos líderes do movimento grevista. Por uma disputa interna, eles prejudicam milhares de pessoas, que desejavam voltar para casa ou chegar ao trabalho.Se o objetivo era protestar contra os empresários, teria sido muito mais sensato liberar as catracas, permitir o uso do transporte público sem a cobrança da tarifa.

Essa medida teria sido muito mais inteligente. Todo esse caos é fruto do eterno problema do transporte coletivo. Somos reféns dessas empresas de ônibus, que mantêm suas contas e contratos em uma caixa preta.  Falta coragem para o poder público enfrentar essa situação.   Hoje, os agentes políticos não conseguem enfrentar os empresários, eles operam sem nenhum controle.

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