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Metro Jornal ‘entrevista’ o mosquito transmissor da dengue; entenda

Em entrevista ao Metro Jornal, Aedes Aegypti, o mosquito transmissor da dengue, explica que a culpa não é dele, mas da falta de medidas para evitar surto da doença: ‘Estamos mais resistentes’ *

Faz mais de 20 anos que uma antepassada sua concedeu a primeira entrevista de um mosquito à imprensa  (13 de janeiro de 1991 à Folha de S. Paulo). O que mudou de lá para cá?

Nossa, passou tanto tempo assim? Continuo transmitindo quatro tipos de dengue, e todos eles podem ser graves. O mais perigoso é o hemorrágico, mas  só uma pessoa que já pegou a doença uma vez pode ter dengue hemorrágica. Nosso ciclo de vida é curto. As fêmeas, como eu, que transmitem a doença, vivem entre 30 e 45 dias. Nesse tempo, podemos contaminar até 300 pessoas.

A sra. parece mais forte. Tomou anabolizante?

Estamos mais resistentes aos venenos. Isso acontece com todas as pragas. As pessoas também nos ajudam quando deixam água parada.

Como um inseto de meio centímetro consegue nocautear – ou até mesmo matar – um ser humano?

É o vírus que baqueia as pessoas. Daí o corpo fica mole e doendo, principalmente cabeça e olhos. Depois vêm a febre, náuseas e a falta de apetite. Mas essa é a versão mais branda. Se a pessoa começar a vomitar e ter diarreia, é preciso procurar um médico urgentemente.

Por que a sra. faz isso?

Mas eu não criei a doença, só a transmito! Se pico uma pessoa que está infectada, passo adiante ao picar uma outra. Se a pessoa estiver desconfiada, deve evitar tomar medicamentos com ácido acetilsalicílico, como a aspirina, pois eles coagulam o sangue e podem causar sangramentos.

Quais as suas preferências? Mulheres, crianças, idosos?

Qualquer ser com sangue serve. Galinha, codorna e até macaco, se estiver disponível.

O que a diferencia de outro primo seu, muito popular, o Culex pipens, mais conhecido como pernilongo?

Sou tigrada e possuo manchas brancas e pretas das pernas até as antenas.

Outra questão que nos intriga: a sra. sempre preferiu aparecer em épocas chuvosas e quentes. E esta definitivamente não é a situação. O que aconteceu de diferente este ano?

Realmente preferimos temperaturas mais altas e com muita água. Mas no frio, desde que ele não seja muito severo, continuamos zanzando por aí.

Onde gosta de morar?

Qualquer água parada, por menor que seja. E sem inimigos naturais como peixes, aranhas, sapos, pererecas…

Rios e córregos a agradam?

Os rios e córregos não são bons porque favorecem nossos inimigos naturais, e também porque nos levam para outros lugares, nem sempre muito amigáveis…

E o que a sra. acha de uma casa com piscina?

Um horror! Detesto! Piscinas tratadas contêm cloro, que mata as larvas.

Ah! Sabemos que a sra. tem uma predileção meio sinistra por cemitérios…

Os cemitérios são ideais porque os vasos de flores acumulam água limpa. Não tenho medo de fantasmas.

Já falamos de seus pontos fortes. Chegou a hora das fraquezas. O que a deixa mais fraca e a afugenta?

Qualquer substância que  roube oxigênio, como borra de café ou bicabornato de sódio. Também não suporto água sanitária ou água com cobre. O metal impede a sobrevivência das minhas larvas.

Inseticidas comuns a afetam de alguma maneira?

Todos nos afetam. A sorte é que afetam o homem também. O homem precisa selecionar o inseticida que não lhe prejudique, o que acaba nos salvando.

A sra. é mais do dia ou prefere uma baladinha à noite como o pernilongo?

Não trabalho à noite. Meus horários preferidos são 10h e 16h.

Como mantê-la longe?

Gosto de ficar perto de sangue e de conforto. Se as pessoas evitarem deixar água parada em pneus, vasos e até tampinhas, conseguem me manter à distância. Odiamos quando borrifam veneno nas casas.

Pretende viajar em breve ou deve permanecer por mais um tempo aqui?

O clima tropical do Brasil me agrada muito. O aumento da produção do lixo também. Só irei embora se a população se conscientizar, né?

* Consultoria do professor Octavio Nakano, especialista em controle de pragas.

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