logo
/ Freepik: reprodução
Estilo de Vida 03/06/2021

Pandemia piora distúrbios de sono de crianças autistas

Mudanças de rotina e comportamento no isolamento social influenciaram na qualidade de sono de crianças autistas, diz pesquisa

Por : Amanda Nunes Moraes - Canguru News

A pandemia, sem dúvidas, gerou diversos impactos que, de alguma forma, abalaram o psicológico de toda a população. De acordo com uma pesquisa inédita divulgada pelo Instituto do Sono, uma população que foi bastante afetada foram as crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). A pesquisa apontou que houve uma piora na qualidade de sono, pois antes da pandemia, 48% dessas crianças e adolescentes precisavam dormir no quarto dos pais. Agora, esse percentual subiu para 60,4%. Outro problema relatado foi o fato de elas permanecerem acordadas por mais de 30 minutos ao longo da noite. Antes da crise sanitária, esse risco era 3,8 vezes maior em crianças com autismo do que naquelas sem esse transtorno. Com a pandemia, o risco é 4,6 vezes maior.

A pesquisa envolveu 319 crianças e adolescentes, da faixa etária de 0 a 18 anos, e foi feita digitalmente. Desse total, 106 apresentavam transtorno do espectro do autismo, 53 possuíam a síndrome de Cri du Chat (CDC) e 160 não tinham nenhuma questão neurológica. De origem genética, a síndrome de Cri du Chat é rara e afeta 1 em cada 50.000 nascidos vivos. Ela resulta da falta de um pedaço do cromossomo 5, que leva a um atraso neuropsicomotor significativo. Inclusive, em maio, considerado o mês da síndrome de Cri du Chat, o Instituto do Sono publicou um gibi explicativo sobre a CDC (link disponível ao final do texto).

A partir dos resultados obtidos, foi constatado que os 3 grupos apresentaram 1,7 vez mais chance de despertar à noite durante a pandemia. Já os grupos com síndrome de Cri du Chat e com autismo, apresentaram 2 vezes mais chances de precisar ter alguém junto no quarto na hora de dormir, em comparação com o grupo sem nenhuma questão neurológica. Sem exacerbação na pandemia, as crianças com a síndrome rara apresentaram 4 vezes mais chances de despertar ao longo da noite.

Leia também: Conheça V.E.R.A.: a assistente virtual que contribui para o diagnóstico precoce do autismo

Problemas de sono de crianças autistas

Crianças e adolescentes com autismo já são mais propensas a terem dificuldade para dormir. Estudos apontam que a insônia atinge uma prevalência alta, de até 86%, sendo 2 a 3 vezes maior do que em crianças sem esse transtorno. De acordo com a Professora Doutora Sandra Doria Xavier, que coordenou a pesquisa do Instituto do Sono, um dos motivos para isso é a presença de genes que controlam o relógio interno das crianças. Além disso, elas também têm uma alteração no metabolismo da melatonina, um hormônio que atua na regulação do sono. Outro fator são as disfunções sensoriais que as crianças podem apresentar. O contato com o travesseiro, com a roupa da cama ou algum barulho, podem ser alguns dos mecanismos que fazem com que não seja tão fácil que as crianças autistas peguem no sono, segundo a especialista.

Elas são muito ligadas à rotina, mas a crise sanitária desestruturou seu cotidiano. “A pandemia chegou de supetão e sem aviso prévio. Essa rotina totalmente diferente traz muitas consequências para crianças que já têm mais suscetibilidade de ter distúrbio de sono”, diz Sandra Doria. Com o isolamento social, os pequenos ficaram sem as terapias, sem escola, com desajuste de horários e com diferentes demandas, o que, sem dúvidas, interferiu na qualidade de sono. “Encarar uma nova rotina com desafios diferentes aos quais elas não estão acostumadas, não é fácil para essa população”, aponta.

Além da insônia, também é comum que as crianças com autismo tenham um longo despertar durante a noite, ou vários despertares, ou até um despertar precoce de manhã, de acordo com a especialista. Os efeitos da falta de sono parecem ser mais intensos em crianças autistas e resultam numa piora acentuada em seu comportamento. “A privação de sono modifica o comportamento de crianças e adolescentes com autismo, provocando agressividade, irritabilidade, desatenção e hiperatividade, o que pode abalar ainda mais o cotidiano das famílias”, completa a Professora Doutora Sandra Doria.

Leia também: Projeto da USP que estuda o autismo pede doações para continuar suas pesquisas

É preciso ter uma higiene de sono

A médica explica que é essencial que os pais reorganizem a rotina das crianças o quanto antes. Caso contrário, esta piora nos distúrbios de sono pode durar a longo prazo. “É importante estipular metas, planejar o que os pais vão fazer com o filho em cada horário do dia e mostrar para ele, muitas vezes usando recursos visuais, para que ele entenda a sequência em que as coisas vão acontecer no dia. Essa orientação da perspectiva ajuda ele a se organizar no tempo e no espaço diante de uma mudança súbita de rotina”, diz. 

Mesmo que os pais não consigam retomar a rotina exatamente igual ao período anterior à pandemia, Sandra Doria reforça que precisam estabelecer um cronograma e se comprometer a ele. Por exemplo, não tem problema que a criança durma em um horário novo, desde que durma todos os dias na mesma hora.

Também afirmou que é fundamental manter uma higiene de sono, isto é, hábitos para auxiliá-las a pegarem no sono. Confira as recomendações da Professora Doutora Sandra Doria para ajudar as crianças autistas a dormirem melhor:

  • Determinar uma rotina clara;
  • Evitar alimentos energéticos, como a cafeína, Coca-Cola, chá preto, chá mate, depois da hora do almoço, ou após às 14h;
  • Evitar fazer refeições próximas ao horário de dormir. Se a criança estiver com fome, oferecer um alimento leve;
  • Fazer atividades físicas de manhã ou de tarde;
  • Diminuir a rotina do filho no período da noite, realizando apenas atividades calmas, relaxantes, com menos barulho e menos luminosidade.

Link para acessar o gibi “Dona Ciência”, do Instituto do Sono, sobre a síndrome de Cri du Chat: https://institutodosono.com/dona-ciencia-edicao-28/

Leia também: Autismo: vídeos ensinam pais a trabalhar estímulos e habilidades nas crianças com o transtorno

Quer receber mais conteúdos como esse? Clique aqui para assinar a nossa newsletter. É grátis!