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Estilo de Vida 27/04/2021

Aulas presenciais: danos psicológicos às crianças são maiores que os riscos de se expor à pandemia?

Especialistas da psicologia apresentam opiniões diferentes em relação ao retorno de atividades escolares presenciais

Por : Amanda Nunes Moraes - Canguru News

O isolamento social, sem dúvidas, gera diversos prejuízos psicológicos para todos, incluindo as crianças. É cientificamente comprovado que os pequenos ficaram muito desestabilizados devido à pandemia. Segundo um levantamento feito em Xianxim com 320 crianças e adolescentes, os efeitos psicológicos mais imediatos da quarentena são: dependência excessiva dos pais, desatenção, preocupação, falta de apetite, agitação, pesadelos e problemas de sono. Este último tem sido um conflito muito recorrente e alarmante. De acordo com um documento do Núcleo Ciência pela Infância, há inúmeras evidências da influência do sono no desenvolvimento cognitivo e emocional. 

Mas, apesar da questão psicológica ser um fator preocupante, muitos pais se questionam se isso é motivo o suficiente para afrouxar as medidas de distanciamento e retomar as aulas presenciais. Este é um debate bastante complexo, até mesmo os profissionais da área da psicologia apresentam opiniões muito diferentes sobre o assunto.

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A necessidade da socialização

Para Lidia Nakamura, psiquiatra da infância e da adolescência do Centro Psiquiátrico Interdisciplinar (CENPI), em São Paulo, as atividades escolares presenciais devem ser retomadas. Lidia apontou que a escola tem um papel fundamental na formação da criança, que vai além do pedagógico: “É lá que elas vão viver experiências que contribuirão para o desenvolvimento de suas competências sócio-emocionais, e isso é muito precioso. Os danos psicológicos como consequência do isolamento social podem de fato ser muito extensos.  A volta às aulas, com os cuidados necessários, deve ser priorizada, desde que se cumpram as recomendações”. Porém, como o Brasil ainda se encontra em um período pandêmico extremamente crítico, ressaltou que nenhum lugar fora de casa é completamente seguro e que é compreensível que algumas famílias ainda estejam receosas a respeito da aula presencial.

Outra especialista que apresenta posicionamento semelhante ao de Lidia é Cristiane Reyes, psicóloga clínica e educacional de São Paulo, coautora de “Autoestima de A a Z”. Cristiane acha que a escola é fundamental para reduzir os danos psicológicos dos pequenos durante a pandemia: “As crianças precisam de socialização, precisam de escola. De forma geral, elas sentiram e ainda sentem muita falta das aulas presenciais”, diz. Segundo Cristiane, uma recomendação para as famílias, independente da escolha, é mostrarem-se seguros sobre a decisão para não transmitirem seus medos e ansiedades para os pequenos.

Também ressaltou que é preciso analisar os diferentes aspectos que podem interferir no cotidiano da criança. “Depende muito do contexto em que ela está inserida, da rotina da família, dos estímulos oferecidos”, indica. A psicóloga educacional afirmou que, mesmo que algumas crianças tenham a possibilidade de ficar mais próximas dos pais ou familiares quando estão em casa, essa não é a realidade de todos.

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Importância da responsabilidade coletiva

Já Fabíola Freire Melo, doutora em psicologia da educação e professora da PUC-SP, opõe-se ao retorno imediato das aulas presenciais. Embora também se preocupe com os danos psicológicos que a pandemia está gerando, não acha que seja suficiente para expor-se ao risco de ser contaminada: “O princípio maior para pautar o retorno da escola é a vida. O ponto de partida dessa decisão não pode ser os prejuízos psicológicos individuais”. Para ela, é preciso pensar em todos que seriam afetados pela retomada das aulas, não só alunos, mas também professores e funcionários. “É difícil de ensinar para as crianças, mas elas precisam aprender sobre a responsabilidade coletiva necessária para este momento que estamos vivendo. Esse também é o papel da educação”, defende.

De acordo com Fabíola, é possível buscar interação entre as crianças, mesmo que de forma remota. Os professores estão se adaptando ao modelo digital e buscando criar dinâmicas de aula mais efetivas. Além disso, para a doutora, seria muito mais danoso para as crianças precisarem lidar com perdas de pessoas que podem estar relacionadas com a reabertura das escolas.

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Sergio Luís Braghini, psicólogo e professor docente na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), também concorda que a retomada das aulas presenciais não deve ser priorizada. “A criança assintomática pode transmitir o vírus a outros. E qual é o dano psicológico que essa criança vai sofrer ao imaginar que talvez a avó dela tenha morrido e foi ela que transmitiu?”, questiona. O professor reforçou que mesmo que ela não compreenda isso no momento, devido à idade, os efeitos e a culpa de ter sido responsável pela morte de alguém próximo serão devastadores para a criança a longo prazo.

Outro ponto importante são as consequências que a contaminação do coronavírus podem trazer para quem for contaminado: “Danos psicológicos nem sempre são permanentes. Danos causados pelo vírus podem ser permanentes. Eu prefiro tratar de danos psicológicos do que de sequelas irreversíveis. A Fapesp já fala sobre a necessidade de se criar protocolos para os sequelados de Covid-19”. O psicólogo ressaltou que o vírus apresenta impactos duradouros e graves. Segundo ele, 55% das pessoas infectadas têm problemas cardíacos. “Achar que os danos psicológicos causados pela pandemia são maiores que o risco de se expor é uma premissa equivocada”, completa Sergio.

Canguru News preparou uma lista com 10 tópicos que são utilizados por pais, educadores, profissionais da saúde e outros especialistas para justificar ou criticar o retorno presencial neste momento. Leia mais sobre o assunto aqui.

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