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A independência financeira e o sucesso profissional são objetivos cada vez mais almejados pelas mulheres. Porém, a vontade de ser mãe pode deixar alguns planos para trás. Graças ao avanço da ciência, o relógio biológico não é mais um impedimento para realizar o sonho da maternidade.

Em 2013, a criopreservação – que consiste no congelamento de óvulos – deixou de ser uma técnica experimental e passou a ser considerada eficiente para a preservação da fertilidade.

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No passado, optar pelo procedimento poderia ser visto como um sinal de dificuldade para a mulher, por não ter encontrado um parceiro. Hoje, o método ganha outros significados, ao representar liberdade e a possibilidade de dedicar-se à vida profissional.

Especialistas afirmam, inclusive, que essa é a nova revolução feminina, que encontra paridade apenas no surgimento da pílula anticoncepcional, em 1960. Um levantamento da Huntington Medicina Reprodutiva mostra um aumento na procura pela técnica de 40% entre julho a dezembro de 2020, comparado ao mesmo período do ano anterior.

Os dados da empresa encontram coro nos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística):  cada vez mais, aumenta a quantidade de mulheres que decidem ser mães após os 35 anos. Entre 2009 e 2019 – relatório mais atual do órgão –, aumentou em 63,6% o número de mães entre 35 e 39 anos. O instituto revela ainda que, entre os 40 e 44 anos, a alta no número de partos foi de 57% e, entre 45 e 49 anos, o aumento foi de 27,2% em uma década. Já entre as mulheres com mais de 50 anos, o crescimento foi de 55% neste período.

Segundo Thais Sanches Domingues Cury, médica especializada em reprodução humana do grupo Huntington, há inúmeros motivos que justificam o aumento da procura pelo congelamento de óvulos. “Além da possibilidade de poder ter filhos mais tarde, a pandemia também contribuiu para este crescimento. O procedimento exige repouso e, com muitas pessoas trabalhando de casa, há mais tempo para se dedicar às consultas de acompanhamento”, explica.

No entanto, é importante estar ciente que o método não tem 100% de eficácia. “Apesar do congelamento não ser uma garantia de gravidez, a medicina está muito avançada e as chances de sucesso são cada vez maiores”, argumenta Thaís.

Deu certo com a arquiteta Karen Koutaka, de 44 anos, que congelou os óvulos aos 36. Cinco anos depois, ela deu à luz sua primeira filha. Em seguida, veio o segundo. “Valeu a pena esperar. Acho que cada pessoa tem o seu momento e a vantagem do método é que você tem mais domínio sobre o seu tempo. Tive a tranquilidade de escolher a melhor hora para ser mãe”, contou.

A investidora Nádia Sá, de 36 anos, ainda não tem filhos, mas os quer algum dia. Ela já tinha o congelamento de óvulos em seus planos, porém o ritmo de trabalho a impedia de colocá-lo em prática. “Eu não sei ainda quando estarei pronta. A chegada da pandemia e a possibilidade de trabalhar em home office deram oportunidade de concretizar o meu sonho de congelar meus óvulos e me planejar até a hora certa.”

A criopreservação atrai também mulheres que optam pela inseminação com um doador, que pode ter sua identidade preservada. Mulheres homossexuais também têm buscado congelar os óvulos para escolher quando e como querem constituir suas famílias.

A diretora de arte Gal Maia (nome fictício), de 37 anos, foi uma das adeptas do procedimento. “Eu precisava me preparar para isto. Tenho uma parceira mais jovem, podemos escolher até mesmo quem irá gestar os nossos filhos”, explicou.

Para este ano, a SBRA (Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida) acredita que a demanda pelo congelamento de óvulos seja ainda maior. “Temos trabalhado muito na conscientização e divulgação a respeito de idade e fertilidade. Esse aumento aconteceu e seguirá, impulsionado pelas dificuldades da pandemia”, observou a presidente da entidade, Hitomi Nakagawa. “As pessoas passaram a refletir mais sobre a realização de sonhos e a finitude da vida. Além disso, estão aproveitando este período para planejar suas famílias.”

5 coisas que toda mulher precisa saber sobre criopreservação

Como é feita a coleta?
O procedimento consiste em captar os óvulos e submetê-los ao processo de vitrificação. Eles são colocados em nitrogênio líquido, substância que reduz a temperatura a -196ºC em poucos minutos, e então armazenados. A paciente inicia um tratamento de indução da ovulação, a partir de remédios utilizados por cerca de dez dias. Os óvulos são avaliados e apenas os maduros e de boa qualidade são congelados.

Para quem é indicado?
Mulheres que não podem, ou não desejam, uma gravidez no momento ou em um futuro próximo. A maior parte das pacientes têm entre 30 e 35 anos.

Há garantia de engravidar?
A técnica não garante a gestação futura. Ela mantém a viabilidade dos óvulos na época em que foram criopreservados, com as suas respectivas chances de gravidez naquele momento. Por exemplo: aos 35 anos, a cada sete óvulos há em média dois embriões aptos, com chances de gravidez que variam de 50% a 60%.

Qual é o preço?
O procedimento custa de R$ 12 mil a R$ 30 mil dependendo do número de injeções necessárias. Há empresas que financiam este valor em até 60 vezes.

Qual é a diferença para o congelamento de embriões?
Para que haja o congelamento de óvulos, é preciso apenas a coleta da mulher em idade fértil e saudável. Já os embriões são os óvulos fertilizados com espermatozoides do parceiro ou doador.


*Com supervisão de Luccas Balacci e Wilson Dell’Isola.