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Os microssapinhos menores que uma moeda e típicos do Brasil – e que ainda estão sendo descobertos

Pesquisador da Unicamp acaba de descrever a 22ª espécie do tipo, e estima-se que haja mais uma dezena de novos tipos a serem identificados; eles vivem em grandes bandos e, pelo menos aparentemente, não são excessivamente afetados pelo desmatamento.

De sua mais recente expedição a campo, em Andaraí (BA), na Chapada Diamantina, em novembro de 2016, o pesquisador Felipe Andrade regressou a seu laboratório na Unicamp (SP) com a 22ª espécie documentada de microssapinhos tipicamente sul-americanos – que proliferam sobretudo no Brasil e que ainda não são plenamente conhecidos dos cientistas.

A Pseudopaludicola florencei é descrita pela primeira vez em artigo prestes a ser publicado no periódico científico Zootaxa, e Andrade descobriu que ela se difere das demais espécies de seu gênero por ter pernas mais curtas, uma quantidade diferente de pares de cromossomos, um canto de notas mais rápidas e um tamanho ainda mais diminuto do que muitas de suas «colegas»: os machos florencei têm entre 12,8 mm e 14,8 mm, ou seja, são menores do que uma moeda de R$ 1.

Algumas espécies chegam a ter tamanho inferior a uma unha do dedo mindinho humano.

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As pseudopaludicolas – como é chamado esse gênero de sapos minúsculos – despertaram nos últimos anos a atenção de pequenos grupos de cientistas por serem uma fauna tipicamente brasileira parcialmente inexplorada: é possível que existam pelo menos dez espécies ainda não documentadas, esperando para serem descobertas.

«Só nos últimos oito anos, foram encontradas 12 novas espécies, o que é muito surpreendente», diz Andrade, que já prepara, em sua tese de doutorado, a descrição de mais duas espécies e analisa os dados de uma terceira, para confirmar se ela é, de fato, nova.

Isso se deve tanto ao maior interesse dos cientistas quanto aos avanços tecnológicos na análise.

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«A princípio, conseguia-se fazer só a análise da morfologia (aparência e tamanho) desses animais», explica Ariovaldo Giaretta, professor-associado da Faculdade de Ciências da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

«Hoje, conseguimos também gravar os cantos (dos sapos para estudo acústico) com equipamentos digitais, fazer uma análise molecular cada vez mais rápida e barata e integrar essas três bases de dados para identificar novas espécies. A maior limitação atualmente é tempo e dinheiro para viagens. Mas não será surpresa se chegarmos a um número de 30 ou 35 espécies identificadas de pseudopaludicolas

Áreas abertas

As pseudopaludicolas costumam habitar áreas abertas, como pastos, em vez de florestas fechadas. É um gênero que surgiu e se diversificou exclusivamente na América do Sul, principalmente no Brasil, por causa do tamanho do país e da diversidade de biomas adequados para esses bichinhos – particularmente a Caatinga, o Cerrado, os Pampas sulistas e algumas áreas do Pantanal.

Os sapinhos provavelmente preferem essas áreas porque a ausência de coberturas florestais densa permite que o sol bata diretamente sobre as poças de águas rasas que eles habitam – as quais, mais quentes, acabam tendo mais algas para alimentar os girinos das espécies.

Curiosamente, essa preferência de habitat talvez esteja ajudando a preservar as espécies de pseudopaludicolas.

«Por serem animais de áreas abertas, eles ficam menos suscetíveis (ao desmatamento)», explica Luis Felipe Toledo, professor do Departamento de Biologia Animal da Unicamp, especialista em extinções de anfíbios no Brasil e orientador de Andrade.

Mas, como o estudo aprofundado dessas espécies é relativamente recente, serão necessárias mais pesquisas para ter certeza disso.

«Até recentemente, (muitos biólogos) preferiam mais de estudar animais maiores, mais coloridos e carismáticos, em vez desses sapinhos marrons parecidos entre si. Agora, com mais tecnologia e gente interessada, é que estamos descobrindo sua variedade e encontrando-os em serras, pastos, litorais», prossegue Toledo. «Mas a gente ainda mal conhece a distribuição desses bichinhos. Não temos ideia se as populações estão declinando ou se estão estáveis, então é difícil bater o martelo sobre seu status de conservação.»

Importância ecológica

O que os cientistas já sabem é que esses minissapinhos têm papéis relevantes em seus ecossistemas, a começar pela cadeia alimentar.

«Eles comem besouros, aranhas e insetos, fazendo um controle populacional de mosquitos, por exemplo», explica Andrade.

No sentido contrário da cadeia, eles servem de alimento para uma gama de animais vertebrados maiores – até mesmo outros sapos.

«E são importantes conversores de nutrientes: como vivem na água, incorporam nutritentes aquáticos e os devolvem à terra ao morrerem», diz Giaretta.

Sua predileção pela água também tem ajudado em projetos de preservação, explica André Pansonato, pesquisador na Universidade Federal do Mato Grosso, que também é autor de tese de doutorado sobre as pseudopaludicolas. «Uma espécie pseudopaludicola em particular, a ameghini, é presente em áreas de nascentes de água. Ao identificarmos locais de incidência da espécie, também identificamos áreas de nascentes a serem protegidas», explica.

O próprio Pansonato já participou da identificação de mais de cinco novas espécies desse gênero, e, ainda que advogue cautela no meio científico para que não haja banalização na atribuição de novas espécies, vê potencial tanto científico quanto turístico nas pseudopaludícolas.

«Acho que muitas pessoas bloqueiam seu interesse por sapos por os associarem a algo asqueroso, de bruxaria. Mas isso é desconhecimento. Há espécies com um canto espetacular, muito distinto. Daria para fazer expedições noturnas de turismo para escutá-los.»

É o caso da florencei, a recém-identificada por Andrade e seus colegas – Isabelle Haga, da UFU, Mariana Lyra e Célio Haddad, da Unesp Rio Claro, Felipe Leite da UFV Campus Florestal, e o alemão Axel Kwet, com financiamento da Fapesp – e que tem um canto bem particular: uma espécie de «pocotó», semelhante ao andar do cavalo, mas em ritmo rápido.

Outra curiosidade sobre as pseudopaludicolas é que algumas espécies desses sapinhos, por serem tão pequeninas, não andam sozinhas.

«Quando você acha um, acha uma centena em uma área de 10 m²», diz Toledo.

Giaretta confirma que já foi surpreendido, em pesquisas de campo, por «nuvens de sapinhos, como se fossem gafanhotos».

«Nem todas as espécies vivem em bandos tão grandes, mas no Pantanal, às vezes você pisa em uma poça e dezenas de sapinhos saem pulando», agrega Pansonato.

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