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No Dia do Goleiro, vale lembrar uma das máximas do futebol: “Todo grande time começa com um grande goleiro”. Isso vale também para o futebol amador, claro. Até antes de todas as limitações de interação social trazidas pela pandemia, uma figura ganhava destaque nas peladas Brasil afora: o “goleiro de aluguel”. A partir do aplicativo de mesmo nome, os grupos contratavam especialistas para atuar debaixo das traves. Primeiro, porque “ninguém” quer jogar no gol e, segundo, para que a tarefa mal executada não deixe o jogo desnivelado.

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“O Goleiros de Aluguel voltou a valorizar a comemoração dos gols. Porque, quando alguém que não tem muito cacoete joga ali, tem gol toda hora. Acabou aqueles placares de 18 a 15”, brinca o curitibano Samuel Toaldo, fundador da plataforma que contempla 78 mil goleiros de todo o país.

Apesar do bom-humor, o empresário vê o segmento acompanhar diversos setores do mercado e sentir o peso da atual dificuldade econômica. Com a recomendação de distanciamento e, em diversos lugares e por muitos momentos a prática do esporte coletivo ser proibida, o faturamento despencou.

“Fomos do céu ao inferno da noite para o dia”, conta Toaldo, que é formado em técnico em informática e atualmente cursa educação física. Criado em janeiro de 2015, o serviço, pioneiro no mundo, logo caiu no gosto da galera. Tanto que o faturamento no primeiro ano de vida foi de R$ 100 mil. De lá para cá, o crescimento foi sólido e, em fevereiro de 2020, último mês antes da quarentena, os caixas receberam R$ 210 mil.

Pandemia decretada e a bola que vinha quicando, veio indefensável: o balanço do último mês registrou entrada de R$ 20 mil. O que, de acordo com o fundador, não cobre sequer os custos de manutenção. “Temos oito funcionários, os gastos com estrutura física e a manutenção do servidor, que fica nos Estados Unidos e, portanto, pagamos em dólar.” Em 2019, último ano antes do coronavírus, 52.227 partidas contaram com um – ou dois – goleiros alugados. Em 2020, o número caiu pela metade: 25.999.

Ainda assim, o app se vira como pode para não deixar o futebol amador na mão. Rifas de produtos esportivos, loja virtual… tudo tem sido usado para manter vivo projeto. “O brasileiro trabalha e tem o salário comprometido antes mesmo de recebê-lo. Vejo o app também como uma oportunidade de sobrar algum dinheiro e conquistar pequenos sonhos”, conta o idealizador.

Pelo bem do aplicativo e também os goleiros. Para a maioria, os jogos servem como um complemento importante de renda. O aluguel é por hora e custa entre R$ 33 e R$ 35, dependendo do tipo de campo ou quadra. A porcentagem que fica para o colaborador varia entre 60% e 75%, seguindo uma espécie de programa de pontos da plataforma. Segundo Toaldo, um goleiro assíduo consegue entre R$ 500 e R$ 600 por mês.

Denis Roosvelt é um exemplo. O bancário de 36 anos atende convocações da zona sul de São Paulo e é um dos veteranos do aplicativo. “Costumava fazer cerca de cinco jogos por semana, geralmente com os mesmos grupos porque você cria também amizade. Como tenho um emprego estável, consigo levar ser essa renda extra. Mas há também a perda física e social.”

Dizia o aclamado jornalista Eduardo Galeano na obra “Futebol ao Sol e à Sombra” que o goleiro sempre tem a culpa. E se não tem, paga do mesmo jeito. É o caso.

Tá na área!

De todos os goleiros cadastrados no aplicativo, apenas 1% é de mulheres. Apesar da representação ser baixa, para Loryane Martiningue, uma das arqueiras, é um primeiro passo para a evolução do esporte feminino.

“O Goleiro de Aluguel é mais um incentivo para as meninas jogarem futebol. Vemos que cada vez mais surgem novos campeonatos, que tem se tornado natural. A busca por uma goleira especializada para os jogos mostra também que elas não querem apenas praticar o jogo, mas também evoluí-lo”, avalia a curitibana de 34 anos, que trabalha como coordenadora de logística de uma empresa do ramo de construção civil.