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Esporte 26/11/2020

Maradona: Mistura de raça, talento e personalidade, craque argentino tem intensa trajetória

Um número muito restrito de jogadores teve uma relação tão íntima com a bola. Ainda menor é a porção daqueles que, com tamanha habilidade e irreverência, conseguiram despertar tanta paixão dos torcedores – para o bem e para o mal. A mistura de raça com talento, com uma personalidade forte e muitas vezes contraditória. Talvez um parente muito próximo dos “Deuses do futebol” que, agora, lamentam.

O dia 25 de novembro do caótico ano de 2020 deixou Buenos Aires em luto. A Argentina, o mundo que tanto gosta do futebol. Do esporte. Ou mais do que isso, Diego Armando Maradona é e será sempre um nome que transcende ao fabuloso espetáculo que, como muito poucos, sabia proporcionar em campo.

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class=”s2″>Fora dele também. Controverso, provocativo. Daqueles que se esforçam para ser melhor amigo ou pior inimigo. Um gênio, que não fugia de polêmicas assim como encarava zagueiros muito maiores que sua altura de 1,65m.

Intenso. Nunca morno. El Pibe despertou devoção onde pisou. E não apenas no sentido figurado, em especial pelos torcedores do Boca ou do Napoli. Em 1988, na cidade de Rosário, foi fundada a Igreja Maradoniana.

Mas nem a criação de um lugar sagrado pode fazer dele um “santo”. Na verdade, longe dos gramados, El Diez sempre foi uma figura polêmica. Até os seus 60 anos e 26 dias, ontem, marcou forte posição política. Os problemas também eram enfileirados como ele fazia nas defesas adversárias. Viveu parte da vida em meio ao vício em cocaína e passou por diversas clínicas de reabilitação. Teve filhos cuja paternidade só assumiu depois de adultos. Colecionou pérolas assim como frases bastante questionáveis. O imprevisível era o esperado.

No últimos anos, porém, o corpo já cobrava o preço pelos excessos e o então técnico do  Gimnasia Y Esgrima de La Plata lutava contra uma série de problemas de saúde. Há duas semanas, Maradona havia deixado o hospital após tratar de um hematoma no cérebro. De lá, foi levado para casa, na cidade de Tigre, região metropolitana de Buenos Aires, para se recuperar. Ontem, porém, sofreu uma parada cardiorrespiratória que levou sua vida antes mesmo da chegada do resgate. O presidente da Argentina, Alberto Fernández, decretou três dias de luto. O futebol, por tempo indeterminado.  

LÍNGUA AFIADA 

As frases famosas de Dieguito

“Quando me dizem que sou Deus, eu respondo que estão equivocados. Sou um simples jogador de futebol. Deus é Deus e eu sou Diego”

“Sou completamente esquerdista, de pé, de fé e de cérebro”

“Se Pelé é Beethoven, eu sou Ron Wood, Keith Richards e Bono, todos juntos”

Ambos sempre cativaram polêmica sobre quem foi melhor jogador

“Eu cresci em um bairro privado. Privado de água, de luz e de telefone”

Sobre sua infância humilde

“Minhas filhas legítimas são Dalva e Giannina. Os demais são filhos ou do dinheiro ou de algum equívoco”

Maradona tem pelo menos mais outros três filhos

“Muitos dizem que fiz à mão. Se houve mão na bola, foi a mão de Deus”

Sobre o gol de mão contra a Inglaterra, na Copa de 1986

LINHA DO TEMPO

1981 e 1997

Ídolo e fã

Boca Juniors

A carreira de Maradona começou pra valer em 1976, pelo Argentinos Juniors, onde fez bastante sucesso. Mas foi em 1981, emprestado ao Boca que sempre foi seu time de coração, que El Pibe se sentiu realizado. Naquele ano ganhou seu único título pelo clube, o do Campeonato Metropolitano. As ótimas atuações abriram caminho para sua carreira na Europa a partir de 1982. Quinze anos depois, Maradona retornou ao Boca para encerrar sua carreira. A última partida, inclusive, foi em uma vitória por 2 a 1 sobre o arquirrival River Plate. Ontem o “seu” Boca Juniors teria pela frente o Inter no Beira-Rio pelo jogo de ida das oitavas de final da Copa Libertadores. Em razão da morte do craque, a Conmebol adiou a partida para a semana que vem.

 

 

1982 a 1984

Barcelona

Sua chegada à Espanha gerou euforia, mas ele passou um período difícil. Sofreu ao contrair hepatite e ainda teve uma grave fratura na perna, causada por uma entrada do zagueiro Goikoetxea, do Athletic Bilbao. Segundo Maradona, no livro “Yo Soy El Diego de La Gente”, de 2000, o período fora dos gramados o levou a crises emocionais que o fizeram começar a usar de cocaína

 

 

1984 a 1991

Napoli

O Napoli pagou US$ 10 milhões pelo seu passe, um valor recorde na época. Valeu cada centavo para o argentino, ao lado do brasileiro Careca, levar o time italiano à glória. Na temporada 1986/87, levou o time à conquista do nacional e da Copa Itália. Também faturou a Copa Uefa de 1989 antes de voltar a levar o Scudetto em 1990, além da Supercopa da Itália

Maradona dizia que Careca foi o
melhor jogador com quem atuou

1977 – 1994

Seleção argentina

Maradona disputou quatro Copas (1982, 1986, 1990 e 1994). Viveu o ápice na de 86, no México, quando conduziu seu time ao bicampeonato com uma atuação impecável. Além da genialidade no “gol do século”, contra a Inglaterra, nas quartas, ele ainda fez seu célebre gol de mão na vitória por 2 a 1. Na final contra a Alemanha, deu o passe preciso para Burruchaga fazer o gol do título

O gol de mão nas quartas
contra a Inglaterra, em 1986

1994 a 2020

Treinador

Antes de encerrar a carreira, Maradona treinou, sem sucesso, duas equipes: Textil Mandiyú (1994) e Racing (1995). Depois de 13 anos sem exercer a função, assumiu a seleção em 2008 e ficou até a Copa de 2010. Ainda passou pelos árabes Al Wasl (2011 e 2012) e Al-Fujairah (2017 e 2018), além do Dorados, do México (2018), e Gimnasia, onde estava desde 2019

Maradona treinava o
Gimnasia y Esgrima

‘O mais humano dos deuses’

“Maradona foi adorado não apenas por seus prodigiosos malabarismos, mas também porque era um Deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses”. A frase, do escritor uruguaio Eduardo Galeano resume a multiplicidade do esportista, com histórico controverso de dependência química e luta política.

Atleta tatuou
homenagem ao líder
cubano Fidel Castro

Em entrevistas, o atleta contava que começou a experimentar drogas aos 24 anos. O vício, porém, cresceu na década de 1990 – durante a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, em que foi expulso após ser pego com um coquetel de efedrina.

A dependência o levou a buscar tratamento já nos anos 2000, década onde também se aproximou de políticos de esquerda. Foi na Cuba de Fidel Castro, a quem já chamou de “um segundo pai”, onde se internou para vencer o vício – cujas consequências à saúde lhe acompanharam até o fim da vida.

Diego com o
ex-presidente Lula

Castro, inclusive, morreu também em 25 de novembro, há quatro anos. Na pele, Maradona carregava tatuagens dos rostos de Fidel e Che Guevara, outro líder marxista.

De volta à Argentina em 2005, Maradona aproximou-se do casal Néstor e Cristina Kirchner, ambos ex-presidentes do país. Também já elogiou outros líderes da esquerda, como Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia) e Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil). 

Com ex-presidentes
Hugo Chávez, da Venezuela,
e Evo Morales, da Bolívia