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Esporte 28/04/2015

‘Não há chance de voltar atrás’, afirma Fofão, campeã da Superliga de vôlei aos 45 anos

Aos 45 anos, a levantadora Fofão vai dar adeus às quadras. Campeã da Superliga feminina de vôlei, a jogadora fez seu último jogo no Brasil no último domingo, quando ajudou o Rio de Janeiro a vencer o Osasco – e a conquistar o 10º troféu da competição. A despedida oficial será só depois do Campeonato Mundial de Clubes de Vôlei, que acontece em Zurique, na Suíça entre os dias 6 e 10 de maio.

Na carreira, não faltou quase nada. Só em Jogos Olímpicos, foram cinco participações (Barcelona-92, Atlanta-96, Sidney-2000, Atenas-2004 e Pequim-2008) e três medalhas, sendo duas de bronze (1996 e 2000) e uma de ouro, em 2008. A maior frustração, contudo, foi a prata nos Jogos Pan-Americanos de 2007, disputados no Rio.

Confira a entrevista da atleta ao Metro World News:

Você para de vez após o Mundial ou há possibilidade continuar jogando?
Agora não. Estou bem feliz. É uma decisão sem a menor possibilidade de voltar atrás. Só as lembranças vão ficar. Vamos  começar a pensar no que vem pela frente, para construir uma outra história na minha vida. Estou parando mesmo de jogar. Acabando a temporada no Rio, volto para a minha casa, em São Paulo. Finalmente, onde quase não pude morar. Lá que é meu lugar e vou ficar para o resto da vida.

O quão difícil foi tomar essa decisão?
Muito difícil. Muitas vezes a gente não tem a decisão de parar. Para porque tem lesão. Eu tive o privilégio muito grande de ter conseguido programar. Lógico que não pensei que ia jogar até os 45, mas quando vi que era possível, fui trabalhando para isso desde o começo da temporada. Não foi fácil quando chegou a hora. No começo tinham 10 meses, mas passou muito rápido. Tudo foi feito com tranquilidade, planejado. Foi muito especial. Não tem nenhum arrependimento.

Como será seu futuro? Como técnica?
A vida inteira foi jogar voleibol. Vivi dentro das quadras, aprendi muita coisa, mas não tenho a experiência de ser uma treinadora ou dirigente. Teria de ter isso. A gente aprende muita coisa que pode contribuir. Se tiver a oportunidade [de ser treinadora ou dirigente], faria. Não dá para dizer não, mas não gostaria da mesma rotina de jogadora. Como técnica, seria isso e, no momento, não é o que eu quero. Mas, daqui a um tempo, não há motivo para negar.

Qual o segredo para jogar até os 45 anos?
Não tem segredo. Acho que tive uma estrutura física boa, nunca tive uma lesão séria que me prejudicasse. Sempre me cuidei muito bem, fui muito correta, determinada como atleta, e isso contribuiu muito para que eu colhesse frutos. Gostar muito do que faz, quando não é por obrigação, as coisas ficam mais fáceis. A experiência também foi me dando tranquilidade para lidar com as situações mais difíceis. Dos 38 para cá fui lidando mais com a experiência.

O quanto o vôlei mudou de quando você iniciou a carreira para agora?
Mudamos muito o estilo de jogadoras que o Brasil tinha. Anteriormente era um outro estilo de jogo. Todas sabiam fazer um pouco de tudo. Hoje ficou mais específico.  O vôlei hoje é mais rápido, com jogadoras não tão altas, mas mais habilidosas. O Brasil evoluiu muito.

Como a função da levantadora mudou na sua trajetória do vôlei?
Há 20 anos, tinha mais a juventude, aquela coisa de fazer as coisas. Você corria mais, a forma física, energia muito maior, até mesmo pela idade. A mudança que houve é que, agora, eu antecipo a situação. Até mesmo porque a experiência me deu a possibilidade de analisar a situação de jogo antes que ela aconteça. Isso é com o tempo, jogando. Muitas coisas que com a idade a gente vai cortando caminho. Você economiza energia e só com o tempo.

Quem você aponta como sucessoras, tanto no clube quanto na Seleção?
Acho que na Seleção, na minha visão, duas levantaduras que estão em nível superior às outras são a Dani Lins e a Fabiola. Mas outras evoluíram muito e a tendência é elas buscarem o espaço. E no clube estou deixando o bastão com a Roberta. Jogamos juntas, ela me ajudou muito e me deu uma força muito grande. Ela me ajudou a treinar e deixei para ela. Espero que ela seja titular e tenha a chance.

Como você compara o vôlei masculino e feminino e como os dois mudaram ao longo do tempo?
A diferença do masculino existe, é muito grande. No masculino os jogadores estão cada vez mais altos. A força física está cada vez maior. E o jogo masculino, tacticamente, é diferente do feminino. No masculino eles dão preferência para o saque forçado – o que dá mais erros do que no feminino. Já no feminino o saque costuma ser mais táctico e a gente trabalha mais em cima de defesa. No masculino não tem tanta defesa. Os 2 evoluíram muito e hoje a qualidade técnica dos jogadores é muito boa. Mas o estilo de jogo é diferente.

Acredita que o Brasil vai continuar com a hegemonia no esporte?
Acho que o Brasil continua sendo uma potência fortíssima, mas as pessoas estão estudando e copiando a maneira de jogar. E as pessoas querem saber o porquê de ser o melhor time. O Brasil acaba tendo dificuldades porque é muito estudado. Mas ainda vejo o Brasil como as potências mais fortes. O Brasil sempre está no pódio porque temos o melhor voleibol do mundo.

A que atribui o crescimento?
Acredito que muito foi à evolução. O voleibol foi se estruturando de forma forte para conseguir resultados. O Brasil disputava olimpíada como convidado. E depois de 92, o Brasil conseguiu, pela primeira vez, disputar uma vaga jogando. É a evolução. Tivemos pessoas trabalhando, que entendem, sabem. Hoje a gente tem um centro de treinamento só para o vôlei, que é algo importantíssimo, onde todas as categorias passam. Tudo isso contribui muito. Devemos isso às pessoas que trabalhavam para isso. Sempre acabou uma Olimpíada e já pensava na próxima. Essa era a mentalidade e a mentalidade certa.

Como você avalia o Mundial de Clubes?
Vai ser muito difícil. A chave tem times muito fortes. O campeonato é curto, não dá tempo de respirar. Mas ao mesmo tempo a gente está indo no nosso melhor momento, a gente vem de uma vitória importante, o time todo está bem. Vamos buscar um título que falta para o Rio de Janeiro. Acho que a gente tem muita chance. Se a gente manter o nosso padrão de jogo e vamos lá para buscar o título. Não passa pela nossa cabeça não chegar na final.

Há muita pressão por jogar em casa? O Brasil vai disputar os Jogos Olímpicos do ano que vem no Rio.
Jogar em casa é sempre uma armadilha. Tem a pressão, que é muito grande. Você se cobra muito mais do que se estivesse fora. Mas, se jogar bem, a torcida ajuda. As pessoas têm de estar muito preparadas. Sempre digo que, se você se preparada muito bem, na hora você não vai sentir medo. Mas se não se preparar, você vai sentir medo, em casa ou fora. A pressão é muito grande, mas tem de estar muito concentrada, muito focada para jogar uma Olimpíada. Não dá para deixar factores externos atrapalharem. Jogar no Brasil é maravilhoso, mas tem de ter cuidado para as armadilhas.

Aposentada, você pretende ter filhos?
A gente [ela e o marido] pensa, sim. Passa pela nossa cabeça. É um momento que vou me dedicar a isso, família. Vou deixar, se Deus permitir, com certeza vai ser mais um fato emocionante na minha vida. Está nos planos.

Faltou alguma coisa na carreira?
Acho que, como jogadora, conquistei tudo da melhor forma possível. Mas um título que fiquei muito chateada de não ter conquistado foi o Pan-Americano de 2007, jogando em casa, diante da torcida. Queria muito ter conquistado. É um momento que lembro com muita tristeza. Mais pelo fato de estar jogando no Brasil. De resto, conquistei tudo e compensou.