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Esporte 18/04/2015

Saiba como funciona o mata-mata da NBA

Stephen Curry liderou os Warriors à melhor campanha da temporada | Kelley L Cox-USA TODAY Sports/Reuters

Stephen Curry liderou os Warriors à melhor campanha da temporada | Kelley L Cox-USA TODAY Sports/Reuters

Em sua primeira entrevista coletiva como presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Marco Polo Del Nero admitiu que o formato do Brasileirão precisa ser debatido, abrindo a possibilidade para o retorno do mata-mata. O fim dos pontos corridos é o desejo de 11 das 20 equipes que disputarão a Série A neste ano, segundo levantamento do jornal “Folha de S. Paulo”. Apenas cinco clubes querem a manutenção da fórmula, já que quatro não têm preferencia pelo sistema de disputa.

Muitas das pessoas que defendem o mata-mata utilizam o sucesso das ligas esportivas norte-americanas como argumento. Nos EUA, futebol americano, beisebol, basquete, hóquei no gelo e futebol são decididos através de playoffs, com variação no número de confrontos de acordo com a modalidade. E justamente neste sábado começa a pós-temporada de uma das ligas de maior sucesso no mundo.

Estrelada pelos melhores jogadores de basquete do planeta, a NBA é um sucesso de audiência não só nos Estados Unidos, mas também no mundo. As Finais de 2013, entre Miami Heat e San Antonio Spurs, foram transmitidas em 215 países, em 47 línguas.

Para levantar o troféu de campeão, uma equipe precisa disputar 82 partidas na temporada regular, estar entre as oito melhores da sua conferência – são duas, Leste e Oeste, com 16 times cada – e sobreviver a quatro séries de mata-mata melhor de sete jogos. O time com mais vitórias na primeira fase sempre enfrenta o que tem a pior campanha e ainda tem a vantagem do mando de quadra, ou seja, a possibilidade de fazer o sétimo e decisivo jogo em casa.

Os longos playoffs, com duração de dois meses, têm diversos fatores de atratividade para o público. Partidas de alto nível e decisivas diariamente, rivalidades criadas dentro da mesma série e a possibilidade de ver os melhores atletas da modalidade se esforçando ao máximo em busca do troféu mais cobiçado do mundo são apenas alguns deles.

Mas o sucesso da NBA com os playoffs não significa que basta repetir a fórmula (dentro das características de cada esporte) para se ter um campeonato de sucesso, emocionante e ao mesmo tempo viável financeiramente. A liga norte-americana de basquete – e as outras do país em geral – tem características específicas que agradam às franquias e procuram manter a competitividade.

Pontos corridos: impensável

Adotar um sistema de pontos corridos na NBA é algo que nem passa pela cabeça da liga. Primeiro, pela falta de emoção. Nesta temporada, por exemplo, o Golden State Warriors terminou os 82 jogos com 67 vitórias. O time que chegou mais perto foi o Atlanta Hawks, com 60, seguido de Houston Rockets e Los Angeles Clippers, com 56 cada.

Outro fator que impediria os pontos corridos é que na NBA não há vaga na Libertadores, na Sul-Americana, ou rebaixamento. Com um terço dos jogos disputados, a maioria das franquias já se veria sem possibilidades de título e sem ter pelo que brigar. Elas não estariam apenas desmotivadas para vencer, mas teriam motivos para perder o máximo de jogos possíveis por causa do draft.

O draft é a loteria em que são escolhidos os jogadores universitários. De maneira bem simplória, a estrutura do esporte americano é assim: o jogador defende o time de sua escola no ensino fundamental e médio, depois recebe ofertas de bolsa de estudo das universidades (que não podem pagar salário) e, em seguida, ele pode ser escolhido pelas equipes profissionais. Os atletas americanos que querem jogar na NBA precisam jogar pelo menos uma temporada na NCAA, a liga de basquete universitário.

Para definir a ordem de escolha do draft, há um sorteio entre as 14 equipes que não garantiram vaga nos playoffs. As três primeiras posições são decididas através da loteria – quanto pior o desempenho na temporada regular, maior a chance de escolher primeiro. Daí em diante, a ordem é feita a partir do número de derrotas.

O draft foi criado para ajudar os times a se reconstruírem e garantir a competitividade da liga. Se você vai mal em um ano, tem a possibilidade de adicionar jovens de qualidade ao elenco e evoluir. E há temporadas em que garantir a primeira escolha significa ter um futuro promissor quase que automaticamente, como aconteceu com o Cleveland Cavaliers em 2003 com LeBron James, com o Chicago Bulls em 2008 com Derrick Rose, ou mesmo com o New Orleans Pelicans, que escolheu o ala-pivô Anthony Davis (foto) em 2012 e neste ano conseguiu se classificar aos playoffs na concorridíssima Conferência Oeste.

A escolha de novatos também ameniza um dos principais pontos de críticas dos defensores dos pontos corridos: o período em que os times que não avançam aos playoffs ficam desocupados.

É verdade que não há partidas para serem disputadas nesses dois meses, mas tanto as franquias quanto os torcedores voltam suas atenções ao draft. As equipes intensificam a pesquisa em relação aos jovens valores e os trazem para testes, enquanto os fãs procuram se antenar sobre os possíveis reforços que seu time pode trazer. Neste ano, o sorteio da ordem acontece no dia 19 de maio e a cerimônia das escolhas em 25 de junho.

Potências limitadas

Assim como no futebol brasileiro há potências como Corinthians, Flamengo, São Paulo, Palmeiras e Inter, que costumam ter mais recursos para investir em reforços, o mesmo ocorre na NBA. Los Angeles Lakers, Chicago Bulls e New York Knicks, por exemplo, se beneficiam da localização em mercados fortes e de suas histórias para faturarem mais. No entanto, ao contrário do Brasileirão, a liga norte-americana impõe regras para balancear os ganhos e aumentar a competitividade entre as equipes. A principal delas é o teto salarial, que nesta temporada ficou em US$ 63 milhões (R$ 191 mi).

Na NBA, as contratações não são feitas como no futebol, em que uma equipe paga a outra uma quantia para acertar a transferência de um atleta. A liga americana negocia apenas contratos, através de trocas. Um exemplo: nesta temporada, o Dallas Mavericks adquiriu o armador Rajon Rondo junto ao Boston Celtics, que recebeu Brandan Wright, Jae Crowder, Jameer Nelson, além de duas escolhas de draft. As negociações precisam se equivaler no montante salarial para serem concluídas.

Enquanto estiver com contrato em vigência, o jogador “pertence” à franquia e pode ser trocado quando ela bem entender. No entanto, quando o vínculo acaba, atleta tem a liberdade para assinar com o time que quiser. Mas há um porém: as equipes só podem oferecer um contrato que caiba dentro do teto salarial disponível. Os Knicks dos últimos anos exemplificam bem como isso funciona – é um time tradicional, de um mercado atrativo, desejado por jogadores, só que sem dinheiro disponível para oferecer a nomes de peso, por mais rica que a franquia seja.

Através de trocas e renovações dentro do próprio elenco, é possível estourar o teto salarial. Só que as equipes que estouram o limite são obrigadas a pagar multas, que aumentam de acordo com o valor acima do permitido e com a sequência de anos pagando a penalidade. O total deste dinheiro arrecadado a cada ano é dividido com as franquias que se mantiveram dentro valor especificado.

A opção por pontos corridos ou mata-mata é pessoal. O defensor de cada um dos formatos é capaz de elencar fatores positivos no seu lado e negativos no outro. Os favoráveis aos playoffs podem, sim, citar a NBA como exemplo de sucesso do sistema que preferem. Só que, ao fazê-lo, é preciso ter claro de que há características da liga norte-americana que são totalmente incompatíveis à realidade brasileira.