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2022, o ano dos audiobooks: consultor editorial faz apostas para o mercado literário

Formato cresce impulsionado pela febre dos podcasts, melhora da tecnologia e popularização dos smartphones

Com as medidas de distanciamento social e fechamento temporário de estabelecimentos, o setor cultural foi um dos mais atingidos pela pandemia de covid-19. Contudo, um segmento vem surpreendendo: o mercado livreiro, que mostra sinais de recuperação acelerada.

Uma pesquisa feita pela Nielsen, em parceria com o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), revelou que de janeiro a junho do ano passado as vendas chegaram a R$ 729 milhões, enquanto neste ano atingiram R$ 998,5 milhões. Isso representa um aumento de 46% - uma boa notícia para um setor que sofre há anos, antes mesmo das restrições de combate ao coronavírus.

Segundo o consultor editorial Eduardo Villela, essa retomada do mercado livreiro acontece por conta das inovações que estão sendo apresentadas para driblar a crise. Para além de um crescimento do comércio digital durante a pandemia, que abrange diversos setores da economia, os livros vêem o crescimento das vendas online disparar. E mais do que a modernização das lojas, existem também outras opções de formatos, como ebooks e audiobooks - que atingem novos públicos.

A febre dos audiobooks

Embora os audiobooks tenham crescido bastante em 2021 impulsionados pela febre dos podcasts, os formatos são completamente diferentes. Até dá para encontrar alguns livros em plataformas de streaming, como “Duna” - obra de Frank Herbert que para chegar ao Spotify precisou ser dividida em 501 partes. Mas os audiobooks contam com servidores próprios, como Audible e Tocalivros.

Os autores contam com duas formas de remuneração nessas plataformas. Na primeira, a editora negocia um valor de assinatura do seu catálogo, enquanto na segunda a negociação é feita de forma individual, obra a obra. Com condições em constante aprimoramento, a possibilidade de crescimento de demanda e oferta se torna cada vez maior.

“Se você olha para os Estados Unidos, que tem o maior mercado de vendas de livros no mundo, você tem os audiobooks já rivalizando, em fatia de mercado, com a venda de ebooks”, aponta o book advisor. O nome é outro termo utilizado para descrever consultores editoriais. Ele sugere os EUA como norte para tendências literárias por ser o país que mais consome livros em todo o mundo.

Para Villela, esse boom dos audiobooks é causado por um somatório de fatores: melhoria de acesso a internet móvel, popularização dos smartphones e todas suas múltiplas funções, incentivo causado pela onda de podcasts, aprimoramento dos recursos de narração e edição e democratização do acesso a educação.

“E isso deve melhorar ainda mais com a chegada do 5G. Eu não ficaria surpreso se, em 3 ou 5 anos, os audiobooks passassem de 1,5% para 5% ou 10% do mercado de livros”, aposta o book advisor.

Ainda há o fato de que o audiobook funciona também como uma solução para pessoas com deficiência visual ou dislexia, se tornando assim uma ferramenta de inclusão.

O livro impresso

Embora a tese de que o livro impresso vá morrer circule há anos, Villela discorda que isso possa acontecer nos próximos anos. “Os três mercados - impresso, digital e áudio - são distintos e não competem entre si. Pelo contrário, um incentiva o crescimento do outro”, defende.

O público de fotografia, arte e gastronomia, por exemplo, dificilmente deixará de consumir livros impressos. Por outro lado, leitores de ficção costumam usar ebooks e audiobooks como “degustação” ou porta de entrada: após “pegar gosto”, é comum ir atrás da experiência completa, encontrada no livro impresso.

“O livro impresso ativa praticamente todos nossos sentidos: a visão da obra completa, o olfato pelo cheiro do material, o tato pela textura do papel, a audição pelo virar das páginas... Essa experiência nunca vai desaparecer”, defende Villela.

Para fomentar essa tendência, o consultor aposta em grandes eventos. As bienais do livro de São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, reúnem crianças e adolescente em busca de livros impressos, em sua maioria.

“O foco da Bienal não é vender livro com desconto, mas sim promover encontro entre leitores, autores e editores. Para mim, as bienais se transformarão cada vez mais em eventos institucionais, para criar uma relação de marca”. Algo similar já acontece com feiras de outros segmentos, como CCXP ou Brasil Game Show.

Outras perspectivas para 2022

Além do crescimento dos audiobooks e da reformulação dos grandes eventos literários, as apostas do consultor editorial incluem reformulação das livrarias. Isso não quer dizer que as livrarias vão morrer por definitivo.

“A crise está no modelo de grandes livrarias, megastores. Uma livraria que se propõe a ter livros de todas as áreas, acaba não atendendo um cliente que deseja ter um livro específico, por não ser capaz de oferecer um atendimento mais próximo e personalizado”, indica Villela.

O fechamento de grandes redes não deve atingir livrarias pequenas. A Livraria da Travessa, por exemplo, precisou deixar de lado a pretensão de se tornar uma megastore para focar em autoajuda, biografias e ficção adulta e infantojuvenil.

Dessa forma, estão surgindo livrarias com focos bem específicos. É o caso da Gato Sem Rabo, espaço dedicado exclusivamente a livros escritos por autoras mulheres. Esse tipo de loja, que geralmente conta com dois ou três funcionários, conseguem ter uma qualidade de atendimento superior às livrarias genéricas. E elas devem sair de dentro dos shoppings e ganhar as ruas.

Nessa linha de atendimento personalizado, há ainda a aposta do crescimento de clubes de assinatura, como Intrínsecos e TAG. “Os clubes de assinatura de livros trazem um diferencial que, ao pagar um valor, você tem uma equipe qualificada que seleciona as obras e trazem surpresas para o leitor”, afirma.

Por último, Villela prevê uma volta do crescimento do número de livros lançados no país. “Espera-se que haja um crescimento entre 50% e 100% de novos títulos”, aposta. Os leitores podem separar bastante tempo: 2022 promete muitas leituras.

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