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Entretenimento 29/04/2021

‘Nomadland’ mostra realidade de quem não tem endereço fixo

Por : Angela Correa - Metro

Em “Nomadland”, grande vencedor do Oscar que estreia finalmente hoje nos cinemas brasileiros, há muita gente em cena, mas os atores profissionais são minoria. Frances McDormand e David Strathairn dividem o maior tempo de tela com pessoas que realmente vivem em trânsito, descolando empregos temporários e sobrevivendo na estrada.

A ideia do filme nasceu depois que McDormand e o produtor Peter Spears compraram os direitos do livro homônimo, de Jessica Bruder. A jornalista passou meses vivendo também como nômade, registrando a rotina de centenas desses viajantes sem data para voltar.

O livro, assim como a direção de Chloé Zhao, que garantiu o segundo Oscar da categoria para uma mulher na história, deixa claro que não ter endereço fixo não é bem uma escolha, passível de romantização. A maioria ali é de idosos, afetados de maneira impiedosa pela recessão.

Fern, a protagonista que rendeu o terceiro Oscar a McDormand, está nessa. Ela acaba de perder o marido. A indústria em que trabalhava, em Empire, no estado de Nevada, foi desativada, provocando um êxodo enorme na região, digno de cidade fantasma de faroeste.

Ela coloca em um depósito tudo o que não cabe na van que será agora a sua casa, parecida com muitas que serão mostradas a seguir. De depósito da Amazon a fazenda de beterraba, ela vai trabalhar onde der.

De um típico road movie, o longa de Zhao só tem mesmo as tomadas belíssimas pelo interior dos Estados Unidos. Apesar da rapidez do contato, Fern se envolve. Os personagens com quem interage têm alma e, claro, falam com propriedade sobre o que vivem, de pneu furado à altura de baldes que  às vezes farão de privada.

Zhao, escolhida a dedo por McDormand e Spears para comandar o filme, é a responsável por essa autenticidade. Ela tem vasta experiência no trabalho em cena com não atores. Foi assim em “The Rider”, em que lidou com peões de fazenda de verdade.

Em cena com McDormand, nômades como Linda May, Swankie e Bob Wells, que emprestaram seus próprios nomes aos personagens, mostram uma realidade dura da crise, mas que se mostra amorosa quando observada pelo ponto de vista de comunidade. 

“Assim que conseguiram estabilidade financeira, alguns voltaram a viver de maneira mais convencional. Outros, perdendo tudo aquilo que os definia, redescobriram a si mesmos na estrada e decidiram que ali era seu lugar”, conta Chloé em entrevista à rádio americana CBC.

Sua conquista será comentada por muito tempo…

Este é o prêmio mais gratificante. Foi uma surpresa e está sendo muito divertido. Como produtores, nós sabemos que é difícil fazer isso acontecer e estamos muito agradecidos.


Como você se sente sendo a primeira mulher asiática a ganhar um Oscar?

É fabuloso ser mulher em 2021. Sou extremamente sortuda em fazer o que amo. E se isso ainda significa ganhar um prêmio, significa também que mais pessoas têm que viver seus sonhos. Estou extremamente grata. Lançar esse filme durante a pandemia foi um trabalho hercúleo, algo que jamais pensaríamos que iríamos fazer. 

Você acredita que seu filme possa se tornar uma inspiração para cineastas asiáticos, especialmente durante o crescimento de crimes de ódio contra pessoas de origem asiática nos Estados Unidos?

Cineastas asiáticos e todos os cineastas têm que se manter fiéis ao que eles são. Nós temos que contar histórias com as quais nos sentimos conectados e isso não quer dizer que só há um tipo de história que devemos contar, mas há um jeito de nos conectarmos com outras pessoas. É por isso que eu amo o cinema. Vamos nos unir e parar com o ódio, ódio por qualquer pessoa. 

Qual foi o seu momento mais feliz no Oscar?

Foi quando Frances ganhou. As pessoas não fazem ideia de tudo o que ela passou como produtora e atriz nesse filme. Ela estava tão disponível e vulnerável, me ajudou e ajudou os nômades a se sentirem confortáveis no set. Ela é realmente ‘Nomadland’. Estou muito feliz por ela.

Você conheceu ou falou com Kathryn Bigelow, a primeira mulher a ganhar um Oscar por direção?

Eu tive um jantar em grupo com Katherine uma vez e nós conversamos bastante. Eu amaria conversar mais com ela agora.

Como você se sentiu quebrando a barreira invisível entre homens e mulheres? 

Com muita sorte, esta é a verdade. Meus pais sempre me falaram que eu e minha arte éramos suficientes. Eu sempre tentei ser fiel a mim mesma e me cercar de pessoas que me apoiassem, então eu realmente quero dividir esse momento com eles.

O que mudou na sua vida após ‘Nomadland’?

Uma coisa mudou definitivamente: eu acho que preciso de menos coisas. Eu consigo viver com bem menos coisas.

María estévez 

Especial para o METRO INTERNACIONAL, de Los Angeles