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O Rei em show em São Paulo, em 2017 / Reprodução
Entretenimento 19/04/2021

Roberto Carlos faz 80 anos e continua inspirando gerações de brasileiros

Por : André Vieira - Metro

Roberto Carlos Braga; o Zunga, para os amigos e familiares do seu “pequeno Cachoeiro”; o RC, que pode ter toda a sua obra transformada em sigla; ou, para todos nós, simplesmente o Rei, está completando hoje 80 anos de vida.

Mais conhecido artista popular do país e aquele que mais vendeu discos (fala-se em 140 milhões), Roberto Carlos tem seguido à risca o verso-profecia que já dizia, 50 anos atrás, que “durante muito tempo em sua vida eu vou viver”.

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Dos rocks da Jovem Guarda nos anos 1960, que fizeram a cabeça da juventude, passando pelas baladas soul até a transformação na sua imagem mais adulta e romântica nos anos 1970 – e que se mantém até hoje –, RC é o dono das palavras simples e diretas que os brasileiros usam para falar das emoções, “se chorei ou se sorri”.
O Brasil recorre ao Rei quando quer saber dos amigos “de tantos caminhos e tantas jornadas”, lembrar da família acolhedora, “porque aqui, aqui é meu lugar”, ou nos momentos de fé e oração, quando diz a Jesus Cristo “eu estou aqui” ou pede que “nossa Senhora me dê a mão”.

Mas é cantando sobre “como é grande o meu amor por você” que Roberto Carlos se pôs como a trilha sonora do romantismo, do desejo, da conquista, do sexo, da pieguice, da rejeição, da solidão, da saudade e da reconciliação.

Sentimentos que o país também tem com o Rei, amado por tudo isso, mas também criticado pela importação cultural do iê iê iê, pelos que dizem que é alienado e o associam ao conservadorismo e pelos que o veem levando a carreira em piloto automático desde os anos 1980.

Parte disso tem sido revisto depois que Roberto Carlos passou a ser lembrado como uma inspiração para o tropicalismo; quando revelou-se (20 anos depois) o viés político de “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, escrita para um Caetano Veloso triste que visitou no exílio; ou quando faz música para seus fãs socialmente marginalizados, como taxistas e caminhoneiros ou mulheres gordas, pequenas, com mais de 40 anos ou que usam óculos.

A geração (jovem e roqueira) dos anos 1980 e 1990 primeiro rejeitou o legado criado pelo Rei e seu parceiro Erasmo Carlos. Depois, o abraçou. Bandas como Barão Vermelho, Ira!, Jota Quest, Skank e Titãs emplacaram hits regravando canções do baú de RC. Lulu Santos, em 2013, e Nando Reis, em 2019, lançaram discos inteiros com o seu repertório.

O de Nando se chama “Não Sou Nenhum Roberto, Mas Às Vezes Chego Perto”. É um bom título, pois o que faz de Roberto Carlos o Rei não é necessariamente a sua grandeza artística, mas o poder que ele tem de fazer com que as suas canções pertençam a todos nós.

Detalhes

RC sofre de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), um distúrbio às vezes confundido com manias, mas que afeta a qualidade de vida. O Rei repele as cores marrom, roxa e preta, tem compulsão por lavar as mãos, gosta de entrar e sair pela mesma porta (fechando ciclos) e evita palavras negativas, como mal e inferno, que já o fizeram alterar as suas próprias letras ou mesmo tirar canções dos shows.

Outra Vez

Entre as centenas de canções compostas pelo Rei, “Emoções” e “Como é Grande o Meu Amor por Você” são as duas mais regravadas por outros artistas, segundo o Ecad (órgão que controla direitos autorais). Além de Lulu Santos e Nando Reis, Maria Bethânia também lançou um disco só com pérolas de RC. O primeiro sucesso que projetou Claudia Leitte é uma balada gdo Rei convertida para o axé. Há canções compostas ou imortalizadas por RC que viraram sambas, pagodes e modas sertanejas. Uma geração inteira de cantores românticos, identificados como bregas, é formada por discípulos do Rei – alguns até considerados seus imitadores.

Eu Sou Terrível

Roberto Carlos é muito cioso sobre a sua imagem pública, o que já rendeu polêmicas. Uma das mais conhecidas se deu em 2007, quando fez acordo para tirar do mercado a biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, escrita por Paulo César de Araújo. O impulso do Rei ganhou a adesão de outros artistas e virou uma cruzada contra as biografias não autorizadas. Mas eles perderam. Em 2015, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que os livros podem ser publicados sem a exigência de liberação prévia. Só neste ano, o Rei deve ganhar duas biografias, uma delas a de Araújo, ampliada.

As Canções que Você Fez Pra Mim

Do começo dos anos 1960, nos seus primeiros trabalhos, até o fim dos anos 1990, RC lançou um disco por ano: quase todos intitulados apenas Roberto Carlos e trazendo uma foto sua na capa, em tons de azul. Com o tempo, os álbuns passaram a ser lançados em novembro ou dezembro, mais próximos da data do seu especial de Natal na TV, e criaram uma tradição de fim de ano no país.

Como Vai Você

Em razão do aniversário, Roberto Carlos deu uma entrevista à imprensa por escrito. Para alegria dos fãs, o Rei contou que está compondo canções (suas últimas inéditas foram lançadas em 2017) e falou que será gravado um filme sobre ele no ano que vem. RC disse que a pandemia afetou o seu tratamento para controlar o TOC. Ele também defendeu a ciência e a vacina contra a covid-19. Em respeito ao isolamento social, pediu que os fãs não se aglomerem fazendo homenagens na entrada do prédio onde mora. O Rei disse que ser octogenário não o assusta. “Sou um cara com muitos sonhos aos 80 anos.”