‘As Metamorfoses’: Exposição do IMS homenageia fotógrafa Madalena Schwartz

Fotógrafa húngara, que começou carreira perto dos 50 anos, dedicou série a personagens da noite paulistana como transformistas e travestis durante a ditadura militar

Por Angela Correa - Metro

A amizade de uma imigrante de meia-idade e  travestis e transformistas dos anos 1970 resultou em registros que imortalizam os personagens da noite paulistana resistindo em plena ditadura militar. A exposição “As Metamorfoses”, que abre nesta terça-feira (9) no Instituto Moreira Salles homenageia o centenário da fotógrafa Madalena Schwartz (1921-1993).

Nascida na Hungria, Madalena fugiu da perseguição aos judeus e imigrou para a Argentina aos 12 anos. Lá, casou-se, teve dois filhos e, perto dos 40 anos, em 1960, mudou-se para São Paulo. Estabeleceu-se no Centro, onde abriu uma lavanderia. Ali, teve contato com a efervescente cena cultural e ficou amiga, por exemplo, do escritor Ignácio de Loyola Brandão, um dos clientes da lavanderia.

O interesse pela fotografia foi uma obra do acaso, anos depois: um de seus filhos ganhou uma câmera em um concurso e foi Madalena quem mais ficou curiosa sobre o equipamento. Fez cursos no Foto Cine Clube Bandeirante e começou sua carreira aos 50 anos. Loyola Brandão, de cliente na lavanderia, virou cliente da fotógrafa.

Ali no Centro, a cena transformista começava a esquentar. O grupo carioca de teatro e dança Dzi Croquettes, composta por figuras andróginas no palco, fez uma estrondosa temporada no Teatro 13 de Maio e apresentações  do Secos e Molhados, que tinha à frente a figura seminua de Ney Matogrosso, eram comuns. Madalena fotografou esses artistas nos bastidores e também em seu estúdio, no Copan.

A série sobre esses personagens nasceu nesse ambiente e continuou com anônimos de  maquiagens caprichadas e muito glitter,  em salões de beleza e boates.

A proximidade de uma mulher aparentemente tão convencional com personagens que sofreram tanta perseguição parece improvável, mas pode ter resposta na própria trajetória da fotógrafa.

“O fato de ela ser mulher, ter sido perseguida e imigrante, fez com que a fotografia dela fizesse uma aliança com personagens mais pobres e discriminados. Ela vai além de motivações jornalísticas, financeiras e mesmo estéticas, porque, apesar de serem fotos muito bonitas, há muita afetividade, ultrapassando a relação fotógrafo-modelo”,  explica o professor de literatura brasileira na Universidade de Buenos Aires, Gonzalo Aguilar, um dos curadores ao lado de Samuel Titan Jr., coordenador executivo do IMS.

Com seus retratados, a relação era de amizade mesmo. Isso é perceptível em detalhes como seus gatos “invadindo” a pose dos personagens.

Além da história singular de Madalena em 112 de suas fotografias,  a mostra exibe o que acontecia no Brasil nos anos de chumbo sob o olhar desses personagens. “Foi algo ambivalente. Pela questão da ditadura, a política era um sufoco, mas, ao mesmo tempo,  pequenas comunidades a começaram a  viver a época do desbunde”, diz Aguilar.

Mostra amplia olhar para América Latina

Além da homenagem à Madalena, “As Metamorfoses” se propõe a analisar os movimentos nos anos 1970. O Brasil  foi uma vanguarda nesse aspecto. Alguns desses grupos de transformistas viajavam pela América Latina se apresentando e influenciando as cenas em outros países.

Esse diálogo é exposto em imagens pelos coletivos Archivo de la Memoria Trans, na Argentina e  Archivo Quiwa, da Bolívia. É a primeira vez que esses registros são exibidos no Brasil.

Obras da chilena Paz Errázuriz, do mexicano Adolfo Patiño e do venezuelano Vasco Szinetar também compõem a mostra, que tem ainda imagens do porto-riquenho Mario Montez (flagrado por Hélio Oiticica) e da cubana Phedra de Córdoba, que se exilou em São Paulo. 

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