‘Bom Dia, Verônica’: Raphael Montes comenta adaptação de best-seller para a Netflix

Por Gustavo Drullis - Metro World News

Sem fôlego. É assim que você vai ficar quando assistir a “Bom Dia, Verônica”. E não vai querer parar. A nova série policial brasileira cativa sua atenção, mas não pelas cenas de ação eufóricas. Ela te prende porque revela uma realidade latente no país, com uma trama palpável, amarrada por roteiro digno das melhores produções do gênero.

Verônica, intepretada na série por Tainá Müller, é escrivã de uma delegacia de homícidios, na cidade de São Paulo. Insatisfeita com  o tratamento indiferente dado às mulheres que sofrem abusos e são violentadas, ela toma para si a missão de investigar dois casos que seriam engavetados não fosse sua persistência.

Um deles é de um estuprador em série, que fisga suas vítimas por um site de relacionamento. O outro, de um homem misógino vivido por Du Moscovis, que aparenta ter uma casamento normal com a esposa, mas a mantém em cárcere, sem celular nem internet, comete abusos e outros crimes. Camila Morgado está no papel de Janete, que consegue transmitir o silenciamento da personagem com intensidade por meio do seu olhar.

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Vale Outubro

Brasil nu e cru

No quinto país do mundo em que há mais crimes de feminicídio, o Brasil, segundo ranking do ACNUDH (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos), dá para entender a pertinência da trama.

A proximidade com a realidade não é ao acaso. A série é uma adaptação de livro homônimo do escritor Raphael Montes, com quem o Metro World News conversou (leia ao lado), e da criminóloga Ilana Casoy. Com base em casos reais estudados por ela, os dois criaram a ficção policial e a publicaram com o pseudônimo de  Andrea Killmore, em 2016.

Além de mostrar a dura violência contra a mulher, a série também retrata um sistema policial machista,  no qual esses casos diários são menosprezados. Não só isso, as autoridades duvidam das vítimas. Verônica, não. E está aí para deixar tudo muito claro.

Bom dia, Verônica Suzanna Tierie/Netflix

A série, a primeira produção da Netflix a adaptar uma obra de ficção brasileira, prova que há, sim, espaço para esse tipo de história no país. Mais ainda quando é contada de forma tão envolvente, como as produções gringas mais comentadas mundo afora. Na verdade, melhor: trazendo um conteúdo sério, para colocar o dedo na ferida.

Como foi a passagem do livro para a série?

A Netflix me procurou em 2017 perguntando que série policial de suspense e thriller eu tinha para propor. Eu sugeri uma adaptação de “Bom Dia, Verônica”. Eles toparam fazer e tiveram que comprar os direitos. Na hora de negociar, descobriram que eu era um dos autores do livro, junto a Ilana.

Que tipo de adaptações a série sofreu?

Ainda que o objetivo seja o mesmo, do livro e da série, que é contar uma história, as maneiras são diferentes. A imagem comunica de forma muito rápida. Tem personagens novos, que entram na série. Tem toda uma trama que surge, alguns aspectos que a gente conseguiu trabalhar de maneira aprofundada. É um jogo que conseguimos tratar na série de maneira mais complexa, porque tem mais tempo de tela do que de livro.

Quão próxima da realidade está a trama?

Eu sempre acreditei que a narrativa é uma grande maneira de se comunicar, você consegue impactar as pessoas. Para mim, nunca fez sentido escrever uma história só para contar uma história. Eu gosto de discutir alguns assuntos, trazer novas camadas, provocar, cutucar feridas, fazer denúncias ou alertas. Nesse sentido, “Bom Dia, Verônica” trata do ciclo da violência doméstica de maneira muito clara. Existe na série uma crítica ao sistema como um todo, à corrupção, à burocracia e ao sistema que, às vezes, silenciam essas vítimas, em vez de ampará-las.

Esse tipo de série está ganhando mais espaço?

Quando comecei a escrever suspense policial, escutei que ninguém queria ler literatura policial brasileira. Mesmo assim, continuei acreditando no meu trabalho e, felizmente, encontrei um público fiel. Eu espero chegar nesse público para que tenha orgulho de ver uma série brasileira feita de maneira tão séria, que engaja e que você não assiste porque é brasileiro, mas quer saber o que acontece. Você mergulha naquele universo, na história. Torço para que seja a primeira de muitas nesse gênero.

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