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Entretenimento 15/04/2015

‘Casa Grande’ debate conflitos do país a partir de jovem de família rica decadente

Thales Cavalcanti vive protagonista do longa | Pedro Sotero/Divulgação

Thales Cavalcanti vive protagonista do longa | Pedro Sotero/Divulgação

Depois da onda dos “favela movie”, o cinema brasileiro parece ter encontrado outra tônica nesta década. Sai a miséria, entra a ascensão da nova classe média e as transformações – e tensões – sociais decorrentes desse processo.

“O Som ao Redor” (2011), de Kleber Mendonça Filho, e “Trabalhar Cansa” (2011), de Marco Dutra e Juliana Rojas, são bons exemplares dessa safra. “Casa Grande”, que estreia nesta quinta-feira, é outro que passeia pela mesma seara.

O longa de estreia de Fellipe Barbosa parte de uma realidade nada agradável vivida pelo próprio diretor quando a família escondeu dele o fato de ter enfrentado uma grave crise financeira. Levar a história para a tela foi um jeito de expurgar o passado e refletir sobre a situação.

A trama é puxada por Jean (Thales Cavalcanti), prestes a concluir o ensino médio em um tradicional colégio só para meninos do Rio. No ano em que enfrenta decisões sobre que carreira seguir e luta por suas primeiras conquistas amorosas, ele vê os funcionários de sua confortável casa – aqueles com quem tem mais intimidade do que a própria família – serem demitidos.

O pai (Marcello Novaes) não admite a crise. Para ele, não é viável perder sua posição social, o que o leva a agir de forma pouco razoável. No meio disso, a namorada de Jean incita um debate sobre cotas raciais na universidade e o garoto fica dividido entre reproduzir acriticamente a fala do pai ou apoiar a amada.

O roteiro coloca os personagens para discutir tudo isso com argumentos ensaiados e superficiais que parecem saídos de postagens no Facebook.  “O que percebo, cada vez mais, é que as pessoas não estão interessadas em se engajar de verdade. Ninguém está disponível para ouvir o outro, mas apenas para repetir uma opinião decorada”, reflete Barbosa. “Procurei defender os dois lados, porque se você não cria mecanismos de empatia entre os personagens e o espectador, a crítica acaba se tornando inócua. O que mais falta hoje é essa compaixão. Ninguém consegue se colocar no lugar do outro”, completa.

Premiado pela crítica francesa no Festival de Toulouse e vencedor de troféus nos festivais de Paulínia e do Rio, “Casa Grande” se destaca por valorizar o impacto dessas transformações políticas na dimensão afetiva desse jovem ainda em formação. “A relação de Jean com os empregados define a Casa Grande. Ele fala com o motorista o que não consegue falar com o pai”, conclui o diretor.