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É consenso que a aglomeração facilita a transmissão da covid-19, mas também sabemos que o isolamento social não é possível para muita gente, como os que atuam nos serviços essenciais e na linha de frente contra o vírus. A crise sanitária, que nessa fase aguda exige isolamento ainda mais restritivo, não liberou essa significativa fatia da população do deslocamento diário. E a rede de transporte coletivo das grandes cidades continua trabalhando com alta taxa de ocupação. Em São Paulo, estações do Metrô e da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) mostram fluxo constante, em contraste com as ruas quase desertas. Algumas linhas de ônibus também operam no limite.

De acordo com a NTU, Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, as empresas de ônibus tiveram redução média de 40,8% no número de passageiros e diminuição de apenas 20,8% na oferta dos serviços, e estão cumprindo seus papéis preventivos, com a adoção de protocolos sanitários, oferta de equipamentos de proteção e de produtos de higienização aos colaboradores, além de ações de limpeza e desinfecção das frotas.

Mas isso não é suficiente. O que realmente importa é investir maciçamente na cobertura e na eficiência do transporte coletivo. Se já tivéssemos construído uma malha metroviária e ferroviária de porte e qualidade, não haveria gente espremida em vagões, estações e ônibus em tempos normais e nesses tristes tempos atípicos.

No caso do ônibus, reduzir a oferta nesse momento, como vem sendo feito, a fim de aliviar financeiramente as empresas do setor, não faz sentido. Há um grande risco de contágio, especialmente nas periferias, onde a desigualdade social é maior e o serviço de transporte coletivo é ruim. O contrário seria inteligente: aumentar o número de veículos nos trechos e nas linhas mais congestionadas, favorecendo a população que sempre sofreu no vaivém nas ruas. E que agora se locomove com medo em plena pandemia.

Quanto mais o poder público, de forma individual ou por meio de parcerias, investir na ampliação da oferta e da qualidade do transporte coletivo, melhor será a qualidade de vida e a saúde da população.

Também será necessário ampliar e melhorar a infraestrutura para quem pedala e caminha nas cidades, como fizeram vários países, criando ciclovias temporárias, implementando programas de subsídios para facilitar a compra de bicicletas e aumentando as calçadas e áreas para pedestres.

Ou seja, mobilidade, qualidade de vida e saúde pública são temas cada vez mais interligados nas complexas relações urbanas do século 21.